Um castelo decorado com memórias 

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Penélope, interpretada por Ângela Dippe, esteve na pré-estreia da exposição ‘Castelo Rá-Tim-Bum: 30 anos’, no Shopping Iguatemi Rio Preto – Foto: Leidiane Caroline

Exposição comemorativa ‘Castelo Rá-Tim-Bum: 30 anos’, ocupa 550 metros quadrados no Shopping Iguatemi Rio Preto, reúne mais de 20 ambientes, 21 figurinos originais e centenas de objetos cenográficos; reportagem acompanhou pré-estreia exclusiva.


@caroline_leidiane

Há portas que levam a lugares. Outras, a tempos. Algumas fazem as duas coisas de uma só vez. Basta uma frase: “Klift, kloft, still!” para que a imaginação se materialize em um castelo mágico repleto de criaturas tagarelas, desde um ratinho que gosta de tomar banho até um par de botas despojadas. Esse universo encantador, colorido e divertido fez parte de quem cresceu diante da televisão nos anos 1990.

É justamente nessa fresta entre memória e presente que se instala a exposição “Castelo Rá-Tim-Bum: 30 anos”, que chega a São José do Rio Preto com a proposta de transformar em experiência imersiva aquilo que, durante décadas, habitou o imaginário de diferentes gerações.

A Biblioteca do Dr. Victor, um dos ambientes mais emblemáticos da série guardava mais de 6 mil exemplares de livros reais – Foto: Leidiane Caroline

Dividida por ambientes cenográficos, a mostra convida o visitante a percorrer os cômodos do castelo, reconhecer objetos icônicos da decoração e reencontrar personagens por meio de seus figurinos emblemáticos e totalmente excêntricos. Ao adentrar esta esfera surreal, o que antes parecia ser fictício se torna totalmente legítimo.

A reportagem do Diário de Votuporanga foi convidada pelo Shopping Iguatemi Rio Preto para acompanhar, no dia 1º de setembro, a pré-estreia da exposição, realizada exclusivamente para imprensa e influenciadores. 

O Hall do Castelo, com a presença da serpente cor-de-rosa Celeste, reproduz detalhes que ajudaram a construir o universo mágico do seriado – Foto: Leidiane Caroline

A partir do dia seguinte, a atração foi aberta ao público e permanece no Espaço de Eventos do Piso Superior do shopping até 18 de outubro. 

O chamado para entrar no Castelo, aliás, começa antes da própria exposição. Nas cancelas do estacionamento, a voz original do Porteiro — personagem eternizado pelo ator e músico Cláudio Chakmati — recebe a todos. É uma espécie de senha para imergir, por alguns instantes, no paraíso lúdico construído há três décadas pela TV Cultura.  

A mostra ocupa 550 metros quadrados e reúne mais de 20 ambientes inspirados na série, entre eles a pomposa e, ao mesmo tempo, caótica Biblioteca, o quarto da Bruxa Morgana, minuciosamente composto pela gralha de estimação Adelaide, móveis e elementos ilustres da tão famosa torre principal, o Hall do Castelo, com a serpente cor-de-rosa Celeste, e o Lustre do Castelo, onde moravam as irmãs fadinhas Lana e Lara. No percurso, há ainda uma peça particularmente significativa: a maquete original utilizada na abertura do programa. 

A minuciosa maquete do Circo, utilizada para compor um dos quadros episódicos de ‘Castelo Rá-Tim-Bum’ – Foto: Leidiane Caroline

Quando a televisão ganha endereço 

Entrar na exposição é, em alguma medida, confrontar a lembrança com a materialidade. Aquilo que durante anos foi visto em uma tela com pouca definição ganha textura, volume e proximidade.

O visitante deixa de ser mero espectador e passa a atuar como um novo personagem, demasiadamente curioso e atento a cada detalhe. Os olhos percorrem todos os lados e, a cada olhar, uma nova descoberta — assim como a maquete original do famoso Circo, quadro episódico da série. É um elemento repleto de minúcias, passível de ser observado durante vários minutos. 

Ao longo da exposição, estão dispostos, em característicos ambientes, 21 figurinos legítimos e assinados por Carlos Alberto Gardin, além de centenas de itens cenográficos, vindos diretamente do acervo da TV Cultura e da Fundação Padre Anchieta.

O Ratinho, um dos personagens mais queridos de ‘Castelo Rá-Tim-Bum’, pode ser visto de perto na exposição em sua versão original – Foto: Leidiane Caroline

A escolha de preservar elementos originais é especialmente significativa em uma produção cuja força esteve também na riqueza visual. Criado pelo dramaturgo Flávio de Souza e pelo diretor Cao Hamburger, “Castelo Rá-Tim-Bum” foi exibido pela TV Cultura entre 1994 e 1997, com 90 episódios e um especial. Ao unir fantasia, humor, música, literatura, arte e conteúdo educativo, tornou-se uma referência da televisão infantil brasileira.  

A atriz Ângela Dippe, que interpretou a vaidosa e charmosa repórter Penélope, conhece esse universo por dentro. Carismática como a personagem do Castelo, ela esteve presente durante toda a pré-estreia e contou sobre sua chegada ao elenco. 

“Estavam fazendo testes e o Cao Hamburger me chamou para fazer um teste. Eu vi que estava com 40 graus de febre, mas fui lá e fiz. Ele falou: ‘Não, está bom’. Eu disse: ‘Não, mas eu sou bailarina, eu quero dançar também’. Aí fiz o teste e, depois de um tempo, me chamaram”, recorda. 

O figurino original de Nino, assinado pelo estilista Carlos Gardin, integra o acervo da exposição, juntamente com outros 20 figurinos originais – Foto: Leidiane Caroline

O figurino, segundo ela, foi um dos elementos que mais a inspiraram na construção de Penélope: “Os figurinos do Gardin são algo, assim como o cenário e o conteúdo, de altíssima qualidade. As crianças consomem alta cultura e também cultura pop”, afirma.  

Para Dippe, a permanência do programa na memória coletiva não é casual. Ela observa que a produção abordava questões que ultrapassavam o entretenimento e contribuíram para a formação de quem estava diante da televisão. 

“Tinha de tudo: arquitetura, pintura, música, poesia, literatura, dicas de higiene, meio ambiente. Já naquela época, havia atores negros e se falava sobre a questão da diferença. Meu personagem tinha uma vez uma fala sobre a ‘menina azul’, que abordava isso. Então, o programa tratava de questões muito importantes, que formaram cidadãos. E esses cidadãos cresceram e vêm falar que eu fiz parte da infância deles”, celebra.  

É justamente na confluência entre passado e presente que a exposição encontra seu maior encanto. Para a atriz, ter participado de uma produção que se mantém relevante décadas depois é um privilégio raro. 

“Considero, primeiro, um presente ter feito esse trabalho de tanta qualidade”, diz.  

Flávia Lania, gerente de marketing do Shopping Iguatemi Rio Preto – Foto: Divulgação/Iguatemi Rio Preto

Da TV para o smartphone 

A tecnologia aparece como uma camada adicional dessa viagem temporal. Por meio de QR Code, o visitante acessa um audioguia narrado pela própria Penélope. Nele, é possível passear por curiosidades escondidas na poeira do Castelo, com destaques sobre a linha do tempo, particulares da Biblioteca, a criação dos bonecos, figurinos e personagens. 

Na mostra, existe ainda um livro mágico de poemas e novas dublagens dos bonecos, gravadas pelos atores originais especialmente para a exposição, com frases inéditas relacionadas ao legado do programa.

A atualização da experiência, sem abandonar as referências originais, acompanha a transformação na relação do público com a televisão. Para Ângela Dippe, a popularidade do “Castelo Rá-Tim-Bum” ganhou nova dimensão com o crescimento dos fãs, as mídias sociais, as exposições, as reprises e o YouTube, fazendo com que o programa reverberasse ainda mais nos últimos 15 ou 20 anos.  

Nesse processo, a longevidade e singularidade de Penélope ampliaram o reconhecimento da atriz.

“Não é que isso tenha guiado minha carreira, porque eu segui fazendo inúmeros personagens, mas a Penélope ficou guardada porque é longeva, porque é icônica, porque todo mundo fala dela. Então, isso fez o diferencial”, explica. 

De geração para geração 

É sintomático como uma produção concebida para crianças continua sendo revisitada por adultos que agora levam seus próprios filhos para conhecê-la. A gerente de marketing do Shopping Iguatemi Rio Preto, Flávia Lania, enxerga justamente nessa passagem entre gerações uma das forças da exposição. 

“O Castelo transcende o rótulo de ‘programa infantil’ e se tornou um patrimônio do audiovisual brasileiro graças à sua proposta artística vanguardista. O que vemos hoje é o fenômeno do ‘legado compartilhado’: os adultos usam a exposição como uma ponte emocional para apresentar seus próprios valores de infância aos filhos. Isso revela que conteúdos concebidos com excelência estética e educativa não envelhecem; eles se ressignificam e provam o poder duradouro das marcas que respeitam a inteligência do seu público”, elucida.  

A imersão, portanto, é igualmente uma estratégia de aproximação. De acordo com Flávia, o shopping atual ultrapassa a lógica do centro de compras ao investir em experiências capazes de criar vínculos perduráveis com o público. 

“A escolha do ‘Castelo Rá-Tim-Bum’ tangibiliza perfeitamente o brand experience, porque não estamos apenas envelopando um espaço, estamos materializando uma vivência nostálgica ao público”, afirma.  

Oito anos depois da primeira passagem pelo Iguatemi Rio Preto, a exposição “Castelo Rá-Tim-Bum” retorna em uma proposta que acompanha o amadurecimento do público e a transformação na maneira de experienciar eventos culturais. A nova montagem preserva a essência do seriado, mas amplia a participação do visitante, combinando memória, tecnologia e interatividade. 

“O intervalo de oito anos trouxe um grande amadurecimento no comportamento do nosso visitante, que hoje não quer apenas contemplar, mas ser protagonista da experiência. Por isso, esta nova montagem investe fortemente na intersecção entre memória e interatividade. A atração traz inovações exclusivas, garantindo que mesmo quem nos visitou no passado encontre uma narrativa completamente nova e adaptada às expectativas do entretenimento atual. Além disso, vale lembrar que a edição deste ano carrega o peso da homenagem aos 30 anos do seriado, tornando ainda mais especial cada detalhe”, destaca a gerente. 

Ao sair, é de bom tom não bater a porta — afinal, nunca se sabe quando novas histórias alegóricas podem surgir pelos corredores e reivindicar seu lugar. Aos poucos, espaços antes destinados quase exclusivamente ao consumo também se transformam em portais para o imaginário, onde experiências imersivas convidam o público a atravessar a fronteira entre o cotidiano e mundos que, até então, pareciam existir apenas na ficção.