Protagonismo explosivo do coletivo

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A vitória de Lula levou apoiadores às ruas de Votuporanga na noite deste domingo (25). A avenida João Gonçalves Leite foi tomada por bandeiras, manifestações e celebrações após a confirmação da reeleição do petista para seu quarto mandato à frente da Presidência da República – Foto: Leidiane Caroline

Reeleito com 51,79% dos votos válidos, Lula alcança uma virada inédita na história das eleições presidenciais brasileiras, marcada pela mobilização popular nas redes sociais e nas ruas e pela força da ação coletiva na disputa pelo voto.


Leidiane Caroline
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“O homem coletivo sente a necessidade de lutar.” O verso de “Monólogo ao Pé do Ouvido”, faixa de abertura do álbum “Da Lama ao Caos”, lançado por Chico Science & Nação Zumbi em 1994, perpassa gerações ao evocar uma ideia que ultrapassa os limites da experiência individual: a de que nenhuma transformação social se sustenta apenas na luta de quem sofre diretamente uma injustiça. Combater o racismo, a misoginia, a homofobia e a xenofobia, ainda que não se seja vítima dessas formas de violência; defender condições dignas de trabalho e acesso à educação, mesmo quando os privilégios econômicos asseguram tais direitos; reivindicar oportunidades para todas e todos, mesmo quando as próprias já estejam garantidas, como forma de contribuir para a redução das desigualdades sociais. A solidariedade começa quando a realidade do outro deixa de ser alheia e é acolhida como parte do todo. Afinal, não existe sociedade justa enquanto os governantes atuarem apenas para determinadas classes socioeconômicas.

Na política, essa consciência coletiva ganha expressão nos diálogos que despertam reflexões, nas palavras de ordem entoadas em uma praça, nos vídeos compartilhados entre amigos e na disposição de convencer alguém a participar de uma decisão conjunta. A luta deixa de ser um gesto isolado e encontra sentido na construção de um horizonte comum, no qual as diferenças individuais não anulam a responsabilidade diante da vida em sociedade.

A vitória de Lula levou apoiadores às ruas de Votuporanga na noite deste domingo (25). A avenida João Gonçalves Leite foi tomada por bandeiras, manifestações e celebrações após a confirmação da reeleição do petista para seu quarto mandato à frente da Presidência da República – Foto: Leidiane Caroline

Na eleição presidencial de 2026, essa percepção encontrou um cenário emblemático. Entre o primeiro e o segundo turno, a campanha petista precisou disputar a atenção nas plataformas digitais em meio à polarização política, mobilizar eleitores e reverter a desvantagem nas urnas. O esforço culminou em uma virada sem precedentes na história das eleições presidenciais brasileiras.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República neste domingo, 25 de outubro, com 64.256.232 votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos. O senador Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença de 4.430.191 votos confirmou a vitória do atual presidente, que governará o país por mais quatro anos, a partir da posse prevista para 5 de janeiro de 2027.

O desfecho carrega uma marca histórica. Desde a adoção do segundo turno nas eleições presidenciais brasileiras, em 1989, nenhum candidato que havia terminado a primeira rodada em segundo lugar conseguira superar o adversário que liderava a disputa. Lula rompeu essa sequência: começou atrás de Flávio Bolsonaro e terminou à frente, transformando uma desvantagem inicial em vitória nacional.

A dimensão da virada fica mais evidente quando os números dos dois turnos são colocados lado a lado. Em 4 de outubro, Flávio obteve 56.104.503 votos (47,03%), enquanto Lula recebeu 53.879.538 (45,16%). A diferença era de 2.224.965 votos em favor do candidato do PL. Três semanas depois, o petista não apenas ultrapassou o adversário como abriu uma vantagem superior a 4,4 milhões de votos.

Entre as duas votações, Lula acrescentou 10.376.694 votos à sua contagem, enquanto Flávio ampliou a própria votação em 3.721.538. O avanço petista correspondeu a 6,63 pontos percentuais, de 45,16% para 51,79%. A matemática eleitoral revela a dimensão da mudança, mas a compreensão dessa dinâmica exige olhar para além dos números: o segundo turno reconfigurou alianças, intensificou o convencimento político e colocou em evidência a capacidade de mobilização de cada campo.

A apuração foi permeada por momentos de tensão. Lula começou na liderança, mas Flávio assumiu a dianteira às 19h46 e permaneceu à frente por 38 minutos. Às 20h24, o petista retomou a primeira posição e seguiu na liderança até o encerramento da contagem, concluída às 22h33.

O resultado inaugura outro capítulo singular na trajetória de Lula. Ele se tornou a primeira pessoa eleita quatro vezes presidente da República pelo voto direto, após as vitórias de 2002, 2006, 2022 e 2026. Com a nova conquista, alcançou ainda uma segunda reeleição ao longo de sua trajetória presidencial. Se completar o mandato até 2030, terá somado 16 anos no comando do Executivo federal, considerando os dois períodos de governo, de 2003 a 2010 e de 2023 a 2030.

A vitória chega às vésperas de outra data simbólica. Nesta terça-feira 27 de outubro, Lula completa 81 anos. A proximidade entre o aniversário e a confirmação de um quarto mandato acrescenta um elemento biográfico a uma eleição já marcada pelo ineditismo: o presidente retorna às urnas como vencedor em uma disputa na qual precisou reverter a posição desfavorável do primeiro turno.

O exército digital e a disputa pela atenção

Na reta final da campanha, as redes sociais se converteram em uma arena de disputa permanente. A mobilização petista apostou na participação de apoiadores para ampliar o alcance das mensagens, distribuir conteúdos e alcançar públicos que não acompanhavam necessariamente os canais oficiais da candidatura.

O deputado federal André Janones (Rede-MG) teve papel de destaque nessa frente, ao organizar apoiadores em uma operação digital conhecida pela intensidade explosiva das publicações e pela rápida circulação das mensagens. A articulação também envolveu jovens lideranças políticas, influenciadores e militantes de esquerda, em uma tentativa de diversificar a linguagem da campanha e aproximá-la de diferentes segmentos do eleitorado.

Entre os nomes envolvidos na mobilização esteve a deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG), que participou da elaboração de estratégias de comunicação para ampliar o protagonismo digital do presidente. A atuação de novas lideranças alavancou a participação de militantes e representantes eleitos na comunicação eleitoral, sobretudo nas redes sociais, onde conteúdos produzidos por usuários comuns podem alcançar maior identificação junto ao público do que a linguagem institucional.

A engrenagem orgânica funcionava pela multiplicação de iniciativas individuais, cada perfil era um ponto de circulação. Apoiadores e militantes compartilhavam vídeos, comentavam publicações, republicavam materiais e distribuíam mensagens em grupos de conversa. Os temas percorriam áreas como história, economia, política, segurança pública, saúde, educação e corrupção. A disseminação em massa das informações buscava “furar a bolha da esquerda” e alcançar públicos com diferentes perspectivas políticas. Também circularam miniaulas de marketing digital que ensinavam o passo a passo para fazer o mecanismo funcionar estrategicamente.

Os vídeos enfáticos de Janones integraram esse repertório. A proposta de provocar reações, estimular comentários e favorecer a repercussão das publicações se articulava a uma mobilização que foi apelidada de “exército do Lula”. A expressão traduzia a corrente da militância conectada, pronta para responder a conteúdos adversários e impulsionar fatos verificados.

O conjunto dessas iniciativas expõe uma transformação na comunicação eleitoral. O apoiador deixou de ocupar apenas a posição de destinatário da mensagem e passou a atuar também como distribuidor, intérprete e produtor de conteúdo. A campanha ganhou capilaridade por meio de uma rede de pessoas que, embora não compartilhassem necessariamente o mesmo repertório ou a mesma linguagem, convergiam na defesa de uma candidatura.

O presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao lado do deputado federal André Janones (Rede-MG) e da deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG), nomes ligados à mobilização digital durante a campanha eleitoral de 2026 – Foto: Ricardo Stuckert

A batalha para transformar engajamento em voto

O alcance de uma publicação, contudo, não corresponde automaticamente à intenção de votar. Entre assistir a um vídeo, compartilhar uma mensagem e comparecer à seção eleitoral existe um percurso que envolve convencimento, identificação política e condições concretas de participação. A campanha precisava percorrer essa distância.

A abstenção ocupava lugar central nesse desafio. No primeiro turno, 33.469.244 eleitores deixaram de votar, o equivalente a 21,08% do eleitorado apto. No segundo, o número caiu para 30.509.005, ou 19,22%. Foram 2.960.239 ausências a menos, com uma redução de 1,86 ponto percentual.

O comparecimento passou de 125.275.835 para 128.236.074 eleitores. Quase três milhões de pessoas a mais participaram da decisão presidencial na segunda rodada. A diferença é expressiva, embora não permita determinar quantos desses eleitores votaram em Lula, em Flávio ou optaram por branco ou nulo.

A mobilização em torno da abstenção envolvia um desafio diferente daquele enfrentado na disputa pelo eleitor indeciso. Era necessário estimular o comparecimento de quem já tinha preferência política, mas não havia votado no primeiro turno. Mensagens de incentivo, lembretes sobre a votação e conversas em círculos familiares e de amizade ajudavam a colocar o compromisso eleitoral novamente em pauta.

As relações pessoais assumiam, nesse processo, uma função relevante. Uma informação compartilhada em um grupo de mensagens podia despertar uma conversa; um vídeo encaminhado por alguém de confiança podia motivar uma reflexão; um convite para participar de uma manifestação podia aproximar um eleitor de determinado campo político. A comunicação deixava de depender apenas dos discursos dos candidatos e passava a circular por redes de convivência.

A diferença entre os turnos mostra substancialmente que a vitória não se explica apenas pela conquista de eleitores que haviam escolhido outras candidaturas. A ampliação do comparecimento, somada à mudança de preferência de parte do eleitorado, compõe o quadro de uma disputa na qual cada voto passou a ter importância decisiva.

Quando a militância ocupa as ruas

Enquanto as publicações se multiplicavam nas telas, manifestações, caminhadas e encontros presenciais mantinham a disputa no espaço público. A presença física permitia que apoiadores se reconhecessem como parte de um movimento, compartilhassem experiências e expressassem suas posições diante de outros grupos políticos.

As duas frentes operavam em ritmos distintos. Nas plataformas, uma mensagem podia alcançar milhares de pessoas em poucos minutos; nas ruas, a conversa acontecia no contato direto, sujeita ao tempo e às particularidades de cada comunidade. Uma oferecia velocidade e alcance potencial; a outra, proximidade e experiência compartilhada.

A articulação entre esses ambientes ganhou expressão na declaração de Lula, após a eleição, de que não existe uma campanha digital separada de uma campanha de rua, mas uma única campanha. A frase resume uma característica da política moderna: a comunicação na ciberesfera e a presença física integram o mesmo processo, embora cada uma mobilize recursos e formas de participação diferentes.

A virada histórica de 2026 resultou de uma combinação de fatores políticos e sociais, entre eles a mobilização digital, a atuação de militantes, as manifestações presenciais e as escolhas dos eleitores, sem que seja possível atribuir o desfecho a uma única estratégia.

Após a confirmação da vitória, Lula agradeceu aos brasileiros, associou o resultado à “honradez, nacionalismo e democracia” e afirmou que pretende governar para todos, independentemente de preferências políticas, respeitando a Constituição e mantendo o diálogo com o Congresso Nacional. O resultado evidencia ainda a crescente relevância das redes de apoiadores na comunicação política, capazes de produzir, disseminar e disputar narrativas em larga escala.

O verso de Chico Science permanece como uma imagem possível para compreender parte desse movimento gigante. A coletividade não elimina as diferenças entre os indivíduos, tampouco garante, por si só, a vitória de uma candidatura. Ela cria, porém, condições para que iniciativas dispersas encontrem um ponto de convergência.

Em 2026, esse encontro aconteceu entre telas, conversas, manifestações e urnas. O resultado final foi contabilizado voto a voto, mas a mobilização intensa que o antecedeu tomou corpo em milhares de gestos individuais, realizados em sincronia com força motora da esperança.