O cansaço que não cabe no diário de classe

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

Naquela manhã, o professor chegou à escola com o mesmo bom dia que repetia aos seus logos 18 anos de profissão. Com um sorriso competente no rosto, daqueles que não exigem muita energia muscular, apenas experiência ele cumprimentou a merendeira, passou pela secretaria e entrou na sala antes que o sinal terminasse de tocar.

Os alunos chegaram fazendo o que crianças fazem, todos falando ao mesmo tempo, contando histórias que não tinham começo nem fim, brigando pelo lugar perto da janela, procurando um lápis desaparecido misteriosamente desde o ano passado.

— Bom dia, pessoal! Como vocês estão?

A pergunta saiu automática.

Mas, por um segundo, ele teve vontade de inverter a ordem… “E eu?”

Professor aprende cedo que certas perguntas podem ser perigosas, principalmente quando a resposta é verdadeira. A escola havia preparado, naquela semana, uma atividade sobre saúde emocional, falariam sobre ansiedade, sentimentos, empatia, autocuidado. Tudo muito importante.

O professor organizou as carteiras, preparou as imagens, separou as atividades e começou a conversa daquela aula do projeto de convivência.

“Quando vocês estiverem tristes, procurem alguém de confiança. Não guardem tudo dentro de vocês.”, disse isso olhando para as crianças.

E talvez tenha sido naquele momento que percebeu uma pequena ironia escondida na própria frase, porque ele também guardava a preocupação com o aluno que havia chegado diferente naquela manhã, a conversa difícil com a família, guardava o conflito entre dois estudantes, a reunião da tarde, relatórios atrasados, atividades que precisavam de uma revisão… Guardava.

Professor guarda muita coisa, nomes, histórias, dificuldades, lágrimas, bilhetes, desenhos, perguntas inesperadas e até frases que os alunos disseram há dez anos.

Às vezes, guarda também aquilo que deveria ter deixado na escola e acaba levando para casa.

Nós falamos muito sobre o cuidado na educação e precisamos falar sim. É importante saber acolher as crianças, respeitar suas emoções, desenvolver competências socioemocionais, ensinar empatia, construir ambientes seguros.

Mas existe uma pergunta que costuma ficar esperando no corredor da escola. Quem cuida de quem cuida?

Porque o professor passou a ser uma espécie de profissional multiuso da sensibilidade humana que precisa ensinar, mediar, motivar, acalmar, perceber, entender, adaptar. Ele precisa conversar com as famílias dos alunos, preencher relatórios, participar de reuniões e cumprir o currículo. E, se possível, sorrir.

Há dias em que parece que o professor é uma ponte onde todo mundo atravessa, mas poucos perguntam se a estrutura está aguentando. E talvez seja essa uma das grandes confusões do nosso tempo, onde se confunde dedicação com disponibilidade infinita.

Como se amar a profissão significasse nunca se cansar dela e se sentir exausto fosse defeito. As vezes precisamos dizer o que sentimos, falar que não estamos bem sem pensar que isso seja uma traição a profissão.

O professor pode amar profundamente o que faz e, ainda assim, estar cansado, pode sentir orgulhoso de ser professor e desejar, em uma terça-feira qualquer, que o sinal para voltar do intervalo demore um pouco mais para tocar.

Podemos acreditar na educação e, ao mesmo tempo, precisar de silêncio, porque gostar não é sinônimo de ter energia todos os dias.

Não existe contradição em saber que mesmo querendo continuar, há momentos que devemos parar, o que existe é humanidade.

O curioso é que aprendemos a falar sobre resiliência com tanta facilidade que, às vezes, esquecemos de perguntar por que tantas pessoas estão sendo obrigadas a resistir tanto.

Resiliência virou palavra bonita que serve para quase tudo. Está nos projetos, nas formações, nos discursos, nas apresentações em PowerPoint.

“Precisamos desenvolver a resiliência”, dizem, mas existe uma pergunta anterior que poucos falam… será que é preciso resiliência ou construir condições que exijam menos resistência?

Porque não adianta ensinar alguém a nadar melhor se continuarmos aumentando a profundidade da piscina.

Há professores funcionando no vermelho com a bateria quase acabando, mas o aparelho continua ligado. E continua porque alguém precisa abrir a porta da sala às sete da manhã e encarar a realidade da sala de aula, continua porque há alunos esperando por um professor que transmita segurança não somente nos conteúdos ensinados, mas no exemplo. Continua porque a escola não pode parar.

E, muitas vezes, continua porque o professor não quer decepcionar ninguém, só não percebe que, enquanto tenta não decepcionar os outros, começa a decepcionar a si mesmo.

Certa vez, ouvi um professor dizer que, apenas uma vez gostaria de chegar em casa se não ser professor. Não havia raiva naquela frase, havia um cansaço imenso, quase delicado como quem pede licença para ser apenas uma pessoa.

Talvez seja isso que esteja faltando em algumas conversas sobre saúde mental na educação. Lembrar que, antes de ser professor, existe uma pessoa que se preocupa com a família, as vezes dorme mal, tem contas para pagar, tem medos, erra, passa por momentos difíceis…

Precisamos saber que além de um professor, existe um ser humano que não deveria precisar esconder tudo isso atrás do quadro branco ou transformar sofrimento em espetáculo. Gente precisa ser gente, e para isso precisamos saber que não somos uma ilha, então pare de querer carregar sozinho aquilo que ultrapassa seus limites.

Cuidar dos outros não deveria significar desaparecer de si mesmo.

Naquela tarde, depois da última aula, a sala ficou vazia, os alunos foram embora, as carteiras permaneceram desalinhadas. Havia um lápis no chão, uma folha esquecida sobre uma mesa e um desenho colorido preso no mural.

O professor sentou por alguns segundos, somente alguns segundos o silêncio parecia estranho depois de tantas vozes. Olhou para o celular, olhou para a pilha de cadernos… Respirou fundo.

E, pela primeira vez naquele dia, não precisou perguntar a ninguém se estava tudo bem, talvez porque não houvesse ninguém ali para responder ou talvez porque era uma pergunta que vinha evitando, fechou os olhos por um instante.

Não resolveu a vida, deixou as tarefas para depois, apenas respirou.

E talvez isso já fosse alguma coisa, porque há momentos em que cuidar de si não parece uma grande atitude.

Parece apenas sentar, beber água, ficar em silêncio.

Dizer não e pedir ajuda.

Admitir que “Hoje foi difícil”, sem ter vergonha, sem culpa e sem precisar justificar o próprio cansaço.

No dia seguinte, o professor provavelmente chegaria novamente à escola. Talvez sorrisse e mais uma vez diria “bom dia” … Perguntaria mais uma vez, “tudo bem com vocês?” E como um coro eles responderiam, SIIIIIIM!!!

Ele sorriria, aula começaria e vida seguiria. Mas talvez, em algum lugar entre o primeiro sinal e o último, alguém finalmente faça ao professor uma pergunta simples.

Sem formulário, protocolo ou reunião. Apenas olharia nos olhos do professor, sem pressa e perguntaria:

— E você, professor… como está?

E talvez o mais importante não seja apenas fazer a pergunta, o mais importante talvez seja estar disposto a permanecer ali para ouvir a resposta.

Porque, afinal, quem cuida de quem passou o dia inteiro cuidando?