O PAÍS NÃO É UM TIME DE FUTEBOL

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Christiano Guimarães é consultor de empresas, professor e escritor – Foto: Reprodução

Seu Antônio e seu Geraldo são amigos há mais de trinta anos. Frequentam a mesma padaria, reclamam dos mesmos buracos, dos preços no supermercado e da demora para conseguir uma consulta médica. Concordam em quase tudo, até alguém mencionar política. Nesse momento, dois homens civilizados se transformam em torcedores de arquibancada. Um defende a esquerda, o outro a direita. Ambos acreditam que seu candidato salvará o Brasil e o adversário acabará com o que restou. O curioso é que conhecem todas as ofensas da campanha, mas, quando perguntados sobre os planos de governo, ficam mais perdidos que turista sem internet.

No domingo, teremos o segundo turno da eleição presidencial. Talvez este sábado seja uma boa oportunidade para uma experiência revolucionária: desligar a torcida e ligar o cérebro. Não é preciso gostar de um candidato para reconhecer uma boa proposta, nem rejeitar uma ideia simplesmente porque veio do outro lado. Ser professor não obriga ninguém a votar na esquerda. Trabalhar no agronegócio não transforma ninguém automaticamente em eleitor da direita. Profissão não é coleira ideológica. E voto não é contrato de fidelidade com partido político.

Que tal reservar meia hora para conhecer os planos de governo? Estão disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral. Pesquise propostas, compare prioridades e procure entender como pretendem executá-las. Use Google, inteligência artificial, reportagens e fontes oficiais, mas confira o que encontrar. A internet está cheia de especialistas capazes de explicar o futuro do Brasil sem conseguir interpretar uma notícia inteira. Investigue promessas antigas, decisões tomadas e resultados concretos. O que foi prometido? O que foi cumprido? O que melhorou ou piorou? E o que realmente dependia daquele governante? Afinal, discurso bonito não enche geladeira nem reduz fila de hospital.

Outra reflexão importante: por que certas decisões aparecem justamente quando a eleição se aproxima? Benefícios, medidas populares e demonstrações repentinas de preocupação merecem atenção. Algumas iniciativas podem ser legítimas, mesmo durante a campanha. Outras podem ter evidente interesse eleitoral. Antes de aplaudir, pergunte por que aquilo não foi feito antes, quanto custa e se continuará depois da votação. Até vendedor de carro usado fica especialmente carinhoso quando percebe que o cliente está prestes a assinar o contrato. O problema não é receber atenção. É confundir gentileza de campanha com compromisso de governo.

Observe também como os grupos que defendem cada candidatura se comportam. Isso não significa responsabilizar um candidato por cada absurdo cometido por seus apoiadores, mas refletir sobre o ambiente político que queremos alimentar. Precisamos mesmo de mais quatro anos de agressões, amizades desfeitas e famílias que não conseguem almoçar juntas? Discordar faz parte da democracia. Transformar toda conversa numa final de campeonato, com direito a xingamento e expulsão, não resolve nem o problema da padaria.

Seu Antônio e seu Geraldo provavelmente continuarão discordando. Tudo bem. O importante é conseguirem discutir propostas e resultados sem precisar provar que o outro é um idiota. O Brasil não precisa que todos pensem igual. Precisa de cidadãos que assumam suas responsabilidades: comparecer às urnas, escolher com consciência, respeitar opiniões diferentes e cobrar quem for eleito. Quem deseja continuidade precisa saber o que pretende preservar. Quem deseja mudança deve entender o que espera transformar. Nenhum presidente resolverá sozinho todos os problemas do país, por mais que alguns discursos pareçam anunciar a chegada de um super-herói.

Não vou dizer em quem você deve votar. Essa decisão é sua. Minha provocação é outra: antes de escolher, descubra o que está escolhendo. E, depois da eleição, não entregue sua capacidade de questionar junto com o voto. Presidente não é santo, partido não é religião e eleitor não deveria funcionar como torcida organizada. O país não precisa de mais fãs incondicionais. Precisa de cidadãos que pensem antes de votar e continuem cobrando depois.

Christiano Guimarães – Empresário, consultor e escritor

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