Sobriedade já – Suicídio: coragem ou covardia?

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Carlinhos Marques

Quero começar te provocando com uma pergunta:

O que existe de bom nos momentos ruins e o que existe de ruim nos momentos bons?

É que os dois passam…

O problema é que quando a gente está vivendo uma ou outra dessas situações, mergulhamos na infinitude deste momento. Parece que nunca vai acabar. Quantos momentos que já imaginamos insuperáveis, aquela dor que parecia eterna; com outras palavras e de forma bem simples: tudo passa, momentos ruins e momentos bons.

O problema é que neste imediatismo que vivemos hoje, estamos à procura de solução definitiva muitas vezes para problemas passageiros. E essa tem sido uma solução drástica, e que infelizmente tem crescido muito. Pessoas procurando solução definitiva para o passageiro.

Gente, não existe solução mais definitiva, e esse definitiva eu quero colocar bem entre aspas, do que a morte.

Acontece que pessoas vem procurando solução na morte. Imaginam que com ela somem as dívidas, somem as doenças temporárias, somem as paixões mal resolvidas, sei lá, cada um com seu motivo, mas buscando essa solução, acabam também com o que tem de maior, a vida!

Eu estou fazendo esse início para que a gente possa refletir sobre uma realidade que vem crescendo muito, e cada vez mais precoce, que é o suicídio.

Veja que de todos os males, esse é o que realmente não tem volta. Se uma pessoa entra no mundo das drogas, se está com uma doença grave, dificuldade financeira, sempre vai existir tanto para a família como para a própria pessoa, uma esperança de se reverter esta situação.

Se fala tanto em prevenção às drogas, as doenças, está na moda orientação sobre alimentação, hábitos saudável tudo em nome de uma vida mais plena.

Acontece que a desesperança mostrada numa estatística que no mundo a cada quatro segundos, gente, quatro segundos, uma pessoa tenta o suicídio, e o pior a cada quarenta segundos, uma consegue…

Imagino que durante o tempo que você irá demorar a ler esse texto, aproximadamente cento e setenta pessoas tentarão cometer o suicídio; dezessete vão conseguir, dezessete vão concretizar o ato.

Eu penso que para alguém ponderar esta possibilidade de tirar a própria vida, chegou no limite do que ela imagina suportar. Ela imagina: “é o fim, aliás, ainda não é o fim, mas eu vou fazer o fim.” E o que soa de mais contraditório é ver essa prática cada vez mais comum nas camadas mais jovens, os que tem mais vida pela frente.

Então daí a importância dos pais, professores, cuidadores, se prevenir e terem cautela sobretudo identificando a conduta autodestrutiva que se apresenta quando a pessoa fica dizendo que não vale nada, que é um peso para os outros, que preferiria estar morta…

Gente, pesquisas já demonstraram que evidências claras de que muitos que se suicidaram deixaram pistas; cabe a nós sensibilidade para percebermos isso!

Sim, eles já haviam mencionados a uma ou mais pessoas que estariam melhor se estivessem mortos, por exemplo; essa é uma enorme pista. Pode parecer as vezes uma autopiedade, mas é um tipo de comentário que não pode ser ignorado. Alguém que faça esse tipo de comentário precisa ser convencido do seu valor, precisa ser convencido do valor da vida, precisa sentir que é querido pela família, ouvir sobre seu valor, e este é o papel nosso.

Preste bem atenção nos detalhes, é importante, é um dos cuidados que temos que ter na nossa convivência com pessoas com esse tipo de comportamento.

É importante ter atenção redobrada quando alguém que anda em uma “fossa” por algum tempo, e de repente, sem razão aparente fica todo feliz e despreocupado. Esse entusiasmo súbito pode vir de um alívio, que sente por supostamente ter achado a solução.

A pessoa está naquela ‘fossa’ toda, de repente uma euforia que pode ter vindo da tomada de decisão de tirar a própria vida, tem a sensação que resolveu o problema. Isso pode ser uma cilada!

A ocorrência de suicídios, principalmente entre adolescentes é normalmente atribuída a uma depressão, abusos sexuais, drogas.

Drogas infelizmente, quantas histórias eu conheço… E quem me conhece sabe de uma história de um jovem que seria acolhido aqui por nós no Novo Sinai numa segunda-feira, ele estava com a vaga liberada mas no final de semana, na sexta-feira, ele se suicidou… e aí a gente fica se perguntando:      “Se tivesse acolhido antes… se tivesse antecipado isso…”

Uma outra realidade contemporânea que deve ser levada muito em consideração também, é o problema decorrente de atração de pessoas pelo mesmo sexo; isso cria na pessoa, queira ou não, uma certa rejeição, ou uma impressão de rejeição pela sociedade e isso tem causado muitos suicídios entre os jovens.

Não é um único fato, ou uma situação que leva alguém a terminar com a própria vida, mas uma série de circunstâncias, de pequenas circunstâncias. É importante entendermos que o que parece pequeno para nós, pode ser extremamente decepcionante para outro.

Mas uma certeza, gente: o suicida não quer morrer; não quer se matar, ele quer matar sua dor!

Então nós precisamos ser agentes para matar a dor dos outros, antes que essa alternativa absurda venha a se concretizar.

Uma vez ouvi que o suicídio é uma baita covardia, porque a vítima não tem chance de fugir… Ninguém pode fugir de si mesmo. Então cabe a nós defendermos o outro.

Veja que acaba sendo o suicídio, crime ou pecado, onde o criminoso ou pecador, como você quiser, não tem chance nenhuma de se arrepender.     Pense bem que em todas as outras maluquices que o ser humano é capaz, seja um genocídio, seja colocar fogo no mundo, ele pode se arrepender, pode voltar atrás, pode pedir perdão, agora suicídio, não tem mais jeito. Porque não tem mais vida!

Ouvimos falar de pessoas que cometeram suicídio porque perderam fortuna, porque tiveram a reputação arruinada, perderam alguém, mas como disse no começo, precisamos distinguir; ensinar as pessoas a distinguir a vida de uma situação na vida. A situação na vida é temporária; a vida não! A vida é plena!

O homem pode pôr até fim na sua vida, mas ele nunca colocará fim na sua imortalidade. Porque nós somos eternos. Nós precisamos dessa certeza.

Nós não somos seres humanos que vivem temporariamente momentos espirituais, mas um ser espiritual vivendo temporariamente um momento humano.

A vida é o valor máximo que a gente dispõe para pagar seja lá o que for, o que tiver de mais caro que eu possa comprar, é com minha vida.

A gente precisa se perguntar, fazer o outro se perguntar: “O que eu estou passando hoje vale a o preço da minha vida?”

Pois é, mas as vezes o medo, que toma a decisão pela gente.

Em tudo corremos o risco da desistência. Quem nunca se viu tentado a nadar, nadar e morrer na praia… Agora a desistência da vida…

Mas uma vez eu ouvi uma frase linda da poetisa Cora Coralina: “Já pensei em desistir muitas vezes, mas nunca me levei a sério!” Talvez esteja aí o segredo! Não se levar tão a sério. Momentos felizes passam, mas problemas também passam. Vamos sair melhores destes momentos e guarde isso:

“Água mole em vida dura, tanto bate até que cura!”

E para terminar, tem um músico brasileiro que talvez não seja o melhor exemplo de vida, quando viveu disse muita coisa que eu não concordo, o Raul Seixas, mas ele tem uma frase, que aliás é título de uma música dele que eu imagino deveria ser tatuada em nós,  para que a gente nunca esqueça:  “Tente Outra Vez…”

A dor é temporária, mas a desistência é para sempre!

  • Carlinhos Marques – Presidente Fundador da Comunidade Terapêutica Novo Sinai, que acolhe dependentes químicos desde 2005 de forma voluntária e gratuita, idealizador do projeto “Sobriedade Já”

 

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