O erro também ensina

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

Existe uma cena que se repete em muitas salas de aula, o professor prepara a aula com cuidado, pensa nos objetivos, escolhe as atividades, organiza os materiais e imagina como cada momento irá acontecer.

Na cabeça dele, tudo parece fazer sentido, explicação será clara, os alunos participarão, terá poucas dúvidas e no final haverá aquela sensação de missão cumprida.

Então a aula começa e a realidade entra pela porta da sala trazendo o aluno que não entende aquilo que parecia óbvio, aquele que interpreta a pergunta de uma maneira completamente diferente e a turma que não consegue sequer iniciar a atividade. Alguém se distrai, outro começa a conversar, uma criança se recusa a tentar porque já decidiu que não consegue.

E aquilo que parecia tão simples começa a tomar outro rumo, é nesse momento que o professor descobre que ensinar é lidar diariamente com aquilo que não estava previsto.

Planejar é necessário, mas não é possível controlar tudo, e esse é uma das maiores ilusões da educação, acreditar que uma aula bem planejada precisa acontecer exatamente como foi imaginada.

Não precisa, planejamento é direção, uma bússola que nos ajuda a encontrar o norte, mas não elimina as pedras do caminho, mudanças no percurso ou lugares desconhecidos que descobrimos durante a caminhada

O problema começa quando o professor passa a enxergar qualquer desvio como fracasso. A atividade não funcionou, ele já acredita que a aula foi ruim, se a turma não entender, foi ele que não conseguiu ensinar, o aluno errou muitas vezes, acredita que esse aluno não aprendeu nada. Toda vez que precisar abandonar uma estratégia ele começa a pensar que não é um bom professor. E assim, pouco a pouco, o erro deixa de pertencer apenas ao aluno.

Passa a pesar também sobre quem ensina, mas talvez seja preciso olhar para o erro com outros olhos.

Imagine uma criança diante de um problema de matemática, ela responde errado, o professor pode simplesmente dizer que está errado e pedir para realizar a atividade novamente. Ela apaga, tenta outra vez e erra novamente, depois de algum tempo ela desiste e aguarda a correção na lousa para copiar.

Agora imagine outra possibilidade. O professor olha para a resposta e pergunta como ela chegou naquele resultado e a criança explica, o professor escuta, percebe que existe uma lógica naquele raciocínio, embora o resultado esteja incorreto. Então ele interfere perguntando para o aluno… E se tentássemos seguir esse mesmo caminho até aqui? O que aconteceu depois?

A criança pensa, volta o raciocínio e percebe alguma coisa, talvez ela ainda não consiga corrigir sozinha, mas, começa a compreender.

São duas situações que parecem pequenas, mas não é. Na primeira situação, o erro recebe uma sentença, na segunda os questionamentos abrem novas formas de abordar, novos caminhos.

Durante muito tempo, a escola tratou o erro como algo que precisava ser eliminado rapidamente.

A resposta correta recebia aprovação enquanto a incorreta recebia correção e o aluno aprendia, muitas vezes, que acertar era mostrar inteligência e errar era revelar incapacidade.

Mas quem aprende alguma coisa sem errar?

Uma criança que está aprendendo a escrever troca letras, a outra confunde os números e as operações matemáticas, aquele que está aprendendo a ler hesita e o que aprende a conviver, discute. O erro acompanha o crescimento, não é um simples acidente no percurso da aprendizagem, muitas vezes ele é parte do caminho.

O problema não está necessariamente em errar, mas em não conseguir transformar o erro em informação. O professor precisa saber que o errar é aquele conceito que ainda não foi compreendido, pode ser aquela criança que precisa de outra explicação, o erro nos diz que precisamos melhorar a estratégia, precisamos de mais tempo e nos mostra que existe uma dificuldade que não estamos vendo.

Quando o professor aprende a escutar essas mensagens, o erro deixa de ser apenas um resultado negativo e começa a ser diagnóstico, uma pista que nos leva a oportunidades de mudar a maneira de ensinar.

Porque, às vezes, o professor não precisa explicar novamente, precisa ensinar de outra maneira. As vezes não é aumentar a quantidade de exercício, é mudar o tipo de experiencia. Não é cobrar mais e sim descobrir o que está impedindo o aluno de avançar.

Essa é uma das grandes diferenças entre simplesmente transmitir conteúdo e verdadeiramente ensinar.

Transmitir apresenta, ensinar é perceber onde a compreensão parou e procurar outra porta que possa se abrir diante da necessidade de aprender.

E isso exige do professor a sensibilidade que nenhum planejamento consegue substituir. Sensibilidade para perceber que duas crianças podem cometer o mesmo erro por motivos completamente diferentes.

Por isso, ensinar exige muito mais do que domínio de conteúdo, ensinar é ler as pessoas e pessoas não cabem em planilhas, cada criança chega à escola trazendo uma história que o professor não conhece completamente.

Algumas chegam confiantes, outras tem medo. Algumas perguntam sem vergonha enquanto outras preferem ficar em silêncio para não correr o risco de parecerem incapazes.

O erro, nesse contexto, também pode revelar emoções, como em uma criança que rasga a folha depois de errar, talvez não esteja apenas frustrada com a atividade, pode ser medo de fracassar.

Pode acreditar que precisa acertar sempre para ser valorizada ou ter construído, dentro de si, a ideia de que não é inteligente.

E talvez naquele momento o professor precise ensinar que errar não diminui ninguém e isso é algo que não estava no currículo.

Talvez uma das frases mais importantes que um professor possa ensinar seja “você consegue, continue”.

Por isso que precisamos cuidar tanto das palavras que usamos diante do erro, uma correção pode construir ou destruir, orientar ou gerar medo, pode estimular alguém mas pode convencer uma pessoa que nunca será suficientemente boa.

O professor não controla tudo aquilo que uma criança viverá, mas, pode escolher o ambiente que ajudará a construir dentro da sala de aula um ambiente em que errar seja permitido, perguntar seja natural e tentar novamente seja valorizado. E que ninguém seja humilhado por não saber, porque uma sala de aula em que todos têm medo de errar pode até parecer silenciosa, mas, pode ter certeza de que lá pouca aprendizagem esteja acontecendo.

Quem tem medo de errar começa a esconder suas dúvidas e isso dificulta o próprio processo de aprendizagem.

Por isso, talvez precisemos mudar também a pergunta.

Em vez de perguntar apenas quem acertou, podemos perguntar o que aprendemos com essa tentativa? Uma pergunta simples, mas perguntas simples podem produzir mudanças profundas.

O professor também precisa se permitir esse olhar, professor também erra e as vezes preparar uma atividade maravilhosa e acaba descobrindo que a turma não está pronta para ela. E talvez seja justamente aí que o professor precise aplicar consigo aquilo que ensina aos alunos.

Se o aluno pode tentar novamente, o professor também pode.

Se o aluno pode aprender com o erro, o professor também.

Se o aluno não precisa ser perfeito para aprender, o professor também não precisa ser perfeito para ensinar.

Existe uma crueldade silenciosa em acreditar que um bom professor é aquele que nunca erra. Não é!

Um bom professor é aquele que consegue reconhecer o erro, refletir sobre ele e transformar a experiência em crescimento.

Isso é maturidade pedagógica, não é acertar sempre, é aprender cada vez mais com aquilo que não funcionou.

Talvez a experiência não seja simplesmente acumular anos de profissão. Experiência é acumular reflexão.

Porque alguém pode ensinar durante vinte anos e repetir o mesmo erro durante vinte anos enquanto outro pode errar hoje, pensar sobre o que aconteceu, mudar sua estratégia amanhã e se tornar um professor melhor por causa daquela experiência.

O que transforma o erro em crescimento não é o tempo é a consciência, por isso que algumas das melhores aulas podem nascer de uma aula que aparentemente deu errado e no final, talvez a verdadeira competência de quem ensina não esteja na capacidade de prever tudo, mas, na capacidade de responder bem ao que acontece.

Porque a sala de aula é imprevisível e ainda bem. Se tudo pudesse ser antecipado, talvez ensinar fosse apenas executar instruções.

Mas ensinar é encontrar pessoas, lidar com histórias, emoções, diferenças, dúvidas, contradições e possibilidades.

Por isso, não tenha medo quando uma aula sair do roteiro.

Você não precisa ser um professor perfeito, precisa ser um professor disposto a continuar aprendendo.

Há uma passagem bíblica que diz:

“O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos.”
(Provérbios 16:9)

Talvez exista aqui uma lição também para quem educa.

Planeje, prepare-se, estude, organize e faça o melhor que puder, mas, não transforme o planejamento em prisão. Porque nem sempre o caminho mais importante será aquele que você imaginou pela manhã.

Algumas das maiores aprendizagens podem surgir justamente quando alguma coisa sai do lugar e, de repente, aquilo que parecia um problema se transforma em possibilidade.

O erro é apenas um momento e a aprendizagem é o que fazemos com esse momento.

E talvez seja justamente por isso que, na educação, alguns dos muros mais altos possam ser derrubados com uma simples mudança de olhar.

Quando enxergamos o erro como fracasso, levantamos muros, mas, quando enxergamos o erro como oportunidade, construímos pontes.

E toda ponte existe para permitir que alguém continue quando já acredita que não consegue mais.

Porque, no fim, a melhor aula talvez não seja aquela em que ninguém errou. Talvez seja aquela em que alguém errou, teve coragem de continuar e descobriu que ainda havia um caminho pela frente.

E quando uma criança aprende isso, não aprendeu apenas uma matéria, aprendeu que cair não significa permanecer no chão, aprendeu que algumas vezes, aquilo que parecia ser um muro estava apenas esperando que alguém tivesse coragem de transformá-lo em ponte.