
Exposição de André Teruya, contemplada pelo Bolsa Cultura 2026, transforma cinco painéis luminosos em jardins abstratos, nos quais memória, cor e subjetividade se encontram para deixar a imaginação florescer.
@caroline_leidiane
Festivais literários, como o Fliv, têm a característica de proporcionar múltiplas atividades, entre oficinas, bate-papos, estandes, saraus, jogos, troca de livros e feiras de artesanato. No entanto, em meio à passagem do tempo, ao trânsito de pessoas e às atrações, algo dentro do Centro de Informações Culturais e Turísticas “Marão Abdo Alfagali” freia e intervém nesse fluxo incessante. É “Onde a Luz Permanece”, exposição do arquiteto, docente universitário e artista plástico André Teruya Eichemberg.
Produzidas sobre painéis luminosos, as obras lançam luz, no sentido figurado e literal, a composições abstratas que dialogam diretamente com a subjetividade do espectador, convidando-o a reconhecer, em meio à fluidez das formas e às cores vibrantes, fragmentos de memórias.
A plasticidade afiada por tintas acrílicas, aquarela e diversos tipos de canetinhas sugerem uma atmosfera do imaginário. É a transmutação permanente de um jardim, com suas folhagens, gramados, arbustos, flores e pequeninos animais, construído em movimentos nada lineares, cujo fluxo se inscreve na imagem e abraça o olhar de quem percorre sua superfície.
“A pintura abstrata é, para muitos, uma série de borrões e manchas aleatórias e sem significado. De fato, essas representações não trabalham com as figurações e o controle. Mas ela tem essa potência de deixar o espectador atribuir os valores e significados, é isso que torna tão interessante esse tipo de arte. Me interessa muito, nos dias atuais, que as pessoas atribuam algum significado por si mesmas, como ver um cachorrinho ao olhar para as nuvens”, explica Teruya.
A experiência pode lembrar, pela ambiguidade das figuras, o princípio visual do teste de Rorschach, no qual imagens abertas estimulam diferentes interpretações. Não se trata, porém, de uma proposta psicológica ou diagnóstica, mas de uma aproximação perceptivelmente sensível diante de obras que deliberadamente não encerram seus significados; ao contrário, proliferam seres em constantes metamorfoses lúdicas.
Luz
“Onde a Luz Permanece” é um bilhete de entrada para o jardim encantado de cada ser humano, onde a memória guarda vestígios daquilo que se deseja resgatar. A luz, nas cinco obras expostas, aparece tanto como elemento físico, emitido pelos painéis, quanto como metáfora para a lembrança. Segundo André, recordar é uma maneira de iluminar acontecimentos e experiências do passado.
“A luz no título já permite que tenhamos uma grande diversidade de interpretações, seja ela física mesmo ou como uma ideia, conceito. O que importa é que algo nos ilumina, sempre. No caso desses painéis, pensei na luz tanto como matéria-prima (física mesmo, relacionada aos painéis de luz) quanto conceitual, a luz que jogamos numa memória qualquer. Portanto, a luz aqui é memória, isto é, quando lembramos de algo, pensamos em algo do nosso passado, jogamos luz numa situação qualquer, ‘iluminamos o passado’”, reflete ele.
A origem da série está ligada a uma memória maternal. “A ideia inicial surge de jogar luz sobre a mãe, no caso, minha mãe. Obviamente que vêm à tona muitas informações. Foquei em criar pequeninos jardins para ela, para que as pessoas pudessem ali visitar, respirar um pouco. Então, inicialmente, parte-se disso, mas depois a pesquisa foi para outras ideias que foi abrindo”, discorre.
A relação entre lembrança e imagem dialoga com a trajetória do artista. Teruya estudou pintura em São Paulo entre os 8 e 16 anos, com um professor italiano especializado em pintura renascentista. A formação inicial esteve ligada à representação realista, ao estudo de proporções, cores, texturas e formas. Já adulto, durante a faculdade de arquitetura, aproximou-se da arte abstrata e de outras vanguardas.
“E é exatamente esse não saber nomear, o que ainda não está pronto ou em estado bruto que foi me interessando. O ser humano sempre tem certeza demais das coisas, copia demais e se esqueceu de perguntar ou criar novamente”, ressalta.
Permanece
Ao caminhar pelo corredor do prédio, tão agitado neste período do ano, a exposição atrai o olhar, por vezes apressado. Estabelece, assim, uma conexão reflexiva em contraponto ao desenfreado fluxo de imagens à pronta-entrega, fruto de comandos de ferramentas de Inteligência Artificial. Na pausa, o espectador é provocado a se aventurar na construção de sentidos.
“Acredito que estamos nesse momento da história, seduzidos pelo faz-tudo das Inteligências Artificiais, mas nos esquecendo de olhar para nós mesmos. Minhas pinturas tentam brincar novamente com esse lado lúdico de um mundo que não está pronto, que depende de quem observa para ser completado, criado”, propõe Teruya.
Para o artista, essa experiência de criação e interpretação recupera algo do olhar genuinamente infantil.
“Os desenhos de crianças têm a potência de ser qualquer coisa, são fluidos e sem determinar exatamente o que é algo, nos forçando a pensar, a brincar e criar por si mesmos. É como olhar para as nuvens e ver formas, seres”, exemplifica.
A profusão cromática das obras convoca a vitalidade e a pulsação, sequestrando o obscuro para dar passagem à vida em constante impermanência.
“Eu precisava de uma resposta muito colorida, que trouxesse um pouco de vida para essa rotina que nos aprisiona sempre e que sugerisse seres ainda não formados, como plantas, animais pequeninos, etc”, comenta.
Viabilizado pelo Bolsa Cultura 2026, da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, “Onde a Luz Permanece” propõe uma experiência que não termina naquilo que o artista colocou sobre a superfície. A obra se completa no encontro com o espectador, que pode reconhecer formas, projetar memórias ou simplesmente permanecer diante das cores.
“Acredito que é na arte que as pessoas podem se sentir vivas diante do cotidiano e da rotina do sempre igual, que vai matando qualquer possibilidade de ter algo diferente, novo”, finaliza André Teruya.




