Ser professor ainda vale a pena?

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

@alberto.prof

O portão da escola ainda bocejava quando empurrei a mochila para o ombro e atravessei o corredor. Havia um silêncio raro, desses que só existem antes da chegada das crianças, o cheiro do café escapava da cozinha, a lousa permanecia limpa como uma promessa e as carteiras, enfileiradas, pareciam acreditar mais na ordem do que nós, professores, conseguimos acreditar depois de alguns anos de profissão.

Foi então que a inspetora, segurando um molho de chaves que tilintava como um velho sino, perguntou sem qualquer solenidade…

— Professor… ainda vale a pena?

Sorri daquele jeito que a gente sorri quando ganha tempo para não responder.

Há perguntas que não cabem antes das sete da manhã, e há outras que passam o dia inteiro andando ao nosso lado.

Essa foi uma delas.

Entrei na sala levando um planejamento cuidadosamente preparado na noite anterior, objetivos definidos, atividades organizadas, habilidades destacadas em cores diferentes. No papel, tudo parecia funcionar com a precisão de um relógio suíço, mas, a realidade nunca foi muito fã de pontualidade.

Antes mesmo da chamada, uma menina queria contar que o pai havia conseguido emprego depois de quase um ano. Outro menino chorava porque o cachorro desaparecera durante a madrugada e um terceiro dormia sobre os braços. Não era preguiça, era exaustão de quem passou a noite dividindo um quarto pequeno com o barulho da televisão ligada e as preocupações dos adultos.

Como encaixar tudo isso na página vinte e três do livro didático?

A escola pública tem uma curiosa habilidade de lembrar ao professor que os seres humanos chegam antes dos conteúdos.

Pouco depois, faltou internet, depois, energia, o ventilador resolveu fazer greve justamente no dia mais quente do inverno, porque o nosso clima também gosta de improvisar. De repente um comunicado urgente, vamos ter que juntar as salas para poder terminar os preparativos para a festa… E assim a aula continuava, uma hora chamaram um aluno para atendimento, outro precisou conversar com a coordenação, uma mãe apareceu sem avisar e um cano resolveu transformar o corredor em piscina olímpica improvisada.

Se existisse um campeonato mundial de desmontar planejamentos, a realidade escolar levantaria o troféu todos os anos sem precisar disputar a final.

E, curiosamente, seguimos planejando.

Talvez porque planejar seja um ato de esperança, ou de teimosia, ainda não ne decidi.

Há quem imagine que o professor ensina apenas matemática, português ou ciências e quem dera fosse tão simples. A maior parte do nosso trabalho acontece nas disciplinas que nunca apareceram no currículo, escutar silêncios, traduzir medos, administrar conflitos, costurar amizades, enxergar talentos escondidos sob notas baixas.

Enquanto os documentos oficiais falam em indicadores, competências, habilidades e cronogramas, a sala ao lado tenta convencer um menino de oito anos de que ele merece continuar acreditando em si mesmo e é curioso como algumas das maiores aprendizagens nunca cabem em uma planilha.

A burocracia, por outro lado, sempre encontra espaço.

Há dias em que passo mais tempo comprovando que ensinei do que, propriamente, ensinando. Preenche-se um formulário para registrar outro formulário que confirma um documento cuja principal função parece ser provar que existe um formulário anterior.

Às vezes penso que, se Paulo Freire voltasse hoje, antes de escrever um livro precisaria preencher três plataformas, anexar evidências, assinar digitalmente e aguardar deferimento.

A educação brasileira possui uma estranha capacidade de exigir relatórios impecáveis em escolas onde ainda chove dentro da sala.

Mas seria injusto terminar essa história aqui.

Porque, apesar de tudo, a profissão insiste em guardar pequenas conspirações contra o desânimo. Naquela mesma tarde, enquanto organizava os cadernos, encontrei um bilhete dobrado quatro vezes.

A letra era torta, como costuma ser a sinceridade das crianças.

Dizia apenas… “Professor, quando eu crescer, quero ser inteligente igual o senhor acredita que eu posso ser.”

Não dizia “igual o senhor”, dizia “igual o senhor acredita”.

Há uma diferença enorme entre ensinar alguém e fazê-lo acreditar que pode aprender.

Poucos minutos depois, um ex-aluno apareceu no portão para buscar a irmãzinha. Já estava mais alto do que eu, trabalhando, estudando à noite, ele apertou minha mão com a firmeza dos adultos e disse… o senhor provavelmente nem lembra, mas um dia falou que eu escrevia bem. Foi a primeira vez que alguém disse isso.

Eu não lembrava.

Ele lembrava.

Descobri, naquele instante, que professores são fabricantes involuntários de memórias, distribuímos frases sem imaginar quais delas alguém carregará pela vida inteira.

Talvez seja esse o maior perigo da profissão e também sua maior beleza.

O mundo costuma medir o trabalho docente em salários, índices, rankings, resultados de avaliações, gráficos coloridos e metas cumpridas.

Nada disso consegue calcular o valor de um abraço dado na saída, nem o brilho de quem finalmente consegue ler a primeira página sozinho. Me diga, qual o valor de um silêncio respeitoso de uma turma inteira ouvindo a história de um colega ou de um desenho deixado sobre a mesa apenas porque uma criança decidiu que você precisava levá-lo para casa.

Existe um tipo de riqueza que jamais aparecerá nos holerites, sei que isso não resolve a desvalorização, não paga contas muito menos diminui o cansaço. E seria cruel romantizar o sofrimento de quem ensina.

Professor merece respeito, condições dignas, reconhecimento e salário justo e não medalhas por sobreviver ao impossível.

Ainda assim, existe algo que insiste em escapar de qualquer cálculo econômico, talvez porque ensinar nunca tenha sido apenas uma profissão, seria uma maneira silenciosa de participar do futuro sem a garantia de estar presente quando ele finalmente acontecer.

Ao final daquele dia, apaguei a lousa devagar. As últimas crianças atravessavam o corredor fazendo o barulho alegre que só a infância sabe produzir, sobre uma carteira, havia um desenho esquecido, uma escola torta, um sol exageradamente amarelo e um professor sorrindo mais do que eu havia sorrido o dia inteiro.

Guardei o papel dentro do planejamento que quase não consegui cumprir e enquanto fechava a porta da sala, a pergunta da manhã voltou, insistente, como quem conhece o caminho de casa… ser professor ainda vale a pena?

Talvez a resposta nunca esteja nas páginas do planejamento, nos números dos relatórios ou nas manchetes dos jornais.

Talvez ela caminhe, todos os dias, de mochila nas costas, entre uma carteira e outra, esperando apenas que alguém tenha coragem de enxergá-la antes que o sinal anuncie o fim da aula.