Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Há um tipo de cansaço que não aparece no espelho.
Você acorda, toma um banho, penteia o cabelo, toma um café que esfria antes da segunda xícara e, aparentemente, está inteiro. O corpo obedece, as pernas caminham até a escola, a voz ainda encontra forças para desejar um “bom dia”. Quem olha de fora imagina que está tudo bem.
Mas existe uma fadiga que mora em outro lugar, ela não dói nas costas, dói nas perguntas que voltam para casa sem resposta.
Ensinar cansa e curioso é que quase ninguém fala disso. Falam do salário, das férias, tudo como se fossem um prêmio e não uma tentativa de remendar o que sobrou da alma.
Falam da carga horária, dos concursos, das greves, dos índices de aprendizagem e das provas externas. Mas ninguém contabiliza o peso invisível que o professor coloca na mochila antes mesmo do primeiro aluno atravessar o portão.
Porque, na verdade, o professor nunca carrega apenas livros.
Carrega histórias interrompidas.
Na segunda-feira, chega o menino que esqueceu o caderno pela terceira vez, a teoria pedagógica recomenda investigar as causas, a prática mostra que talvez ele só tenha esquecido porque, na noite anterior, faltou luz em casa, a mãe saiu para trabalhar e ele dormiu sem jantar e o caderno foi apenas mais uma das coisas que a vida levou.
Na carteira ao lado, uma menina desenha corações enquanto a aula acontece, alguém pode concluir que ela está distraída. Talvez esteja apenas desenhando o pai que não vê há meses. Há desenhos que são pedidos de socorro escritos em outra língua.
E o professor aprende, sem nunca ter feito esse curso, a traduzir silêncios.
Há dias em que ensinar português significa escutar um choro, manhãs em que a matemática precisa esperar porque um abraço resolveu aparecer antes da tabuada, isso não consta no currículo, está longe de aparecer no planejamento.
Mas acontece e todos os dias.
A burocracia, no entanto, desconhece essas delicadezas, ela pergunta se o plano foi executado, se os objetivos foram atingidos e se os indicadores evoluíram. E a plataforma foi alimentada? A ata foi assinada? O formulário foi enviado?
São tantas perguntas, mas, nenhuma quer saber quem alimenta o professor. Às vezes penso que a escola moderna descobriu uma façanha extraordinária, conseguiu transformar quem ensina crianças em digitador profissional de evidências.
Há dias em que produzimos mais relatórios do que lembranças e, ironicamente, ninguém criou um documento oficial para registrar o instante em que um aluno finalmente acredita em si mesmo, talvez porque milagres não caibam em planilhas.
A faculdade nos apresentou autores brilhantes, falamos sobre metodologias ativas, avaliação formativa, aprendizagem significativa, neurociência, mediação, protagonismo.
Tudo continua fazendo sentido, até o sinal tocar, aí entra o aluno que dormiu quatro horas porque dividiu o quarto com sete pessoas, a menina que não tomou café, o garoto que perdeu o avô, a criança que conversa com o celular mais do que com qualquer adulto.
Crianças que sabem deslizar o dedo numa tela antes de conseguir segurar corretamente um lápis e, naquele instante, a teoria continua certa, a realidade apenas ficou mais complicada.
Ensinar tornou-se uma espécie de artesanato feito em meio a um vendaval, porque enquanto o mundo exige velocidade, o aprendizado continua acontecendo na mesma antiga lentidão das sementes.
Ninguém grita para uma árvore crescer, mas gritam para os professores exigindo resultados imediatos, gráficos ascendentes, metas cumpridas… Como se crianças fossem linhas de produção e não universos em construção.
Existe um desgaste que não faz barulho.
É o do professor que chega em casa e lembra do aluno que almoçou apenas a merenda escolar, ou que acorda às três da manhã pensando naquela criança que, pela primeira vez, levantou a mão para ler em voz alta.
Do educador que aprende a esconder o próprio esgotamento para não aumentar o peso dos colegas, que já carregam montanhas invisíveis sobre os ombros.
Há uma solidão estranha na profissão, estamos cercados de gente o dia inteiro e mesmo assim, há perguntas que só fazem eco dentro de nós.
Será que consegui alcançar aquele menino? Será que fui duro demais? Será que ela percebeu que eu estava tentando ajudá-la? Será que amanhã ainda terei paciência? São tantas perguntas.
O holerite responde apenas quantas horas trabalhamos, nunca quantas preocupações levamos para casa, quantas culpas carregamos no caminho ou quantas vezes reconstruímos a própria esperança antes do sinal das sete.
E, apesar de tudo isso, acontece uma espécie de milagre silencioso.
Na terça-feira, a menina que dizia não saber escrever descobre que consegue ler o nome da mãe, na quarta, o garoto mais inquieto permanece cinco minutos concentrado em um livro, na quinta, um ex-aluno aparece apenas para dizer, professor… eu ainda lembro daquela conversa.
É curioso.
Quase nunca lembram da matéria, lembram de quem os fez acreditar que eram capazes de aprendê-la.
Talvez seja por isso que continuamos. Não por ser fácil, nem por sermos heróis. Continuamos porque, em algum lugar entre um planejamento interrompido, uma folha amassada, um abraço inesperado e um sorriso tímido de quem finalmente compreendeu uma palavra, ainda encontramos um sentido que escapa às estatísticas.
Ensinar cansa.
Cansa de um jeito que nenhuma folha de pagamento consegue registrar, mas, talvez o maior mistério da educação seja justamente o de conseguir voltar todas as manhãs para reconstruir, em pequenas mãos e grandes esperanças, um mundo que insiste em desmoronar?
E se o verdadeiro valor de um professor estiver exatamente naquilo que nunca coube em nenhum holerite?





