Dona Lúcia tinha uma mania que os filhos achavam engraçada. Toda vez que aprendia alguma coisa nova, anotava num caderninho guardado na gaveta da cozinha. Ali havia de tudo: uma receita que aprendeu com a vizinha, algumas palavras em inglês, dicas de como usar o celular, anotações de um curso de confeitaria e, mais recentemente, instruções sobre como vender pela internet. Aos 52 anos, depois de passar boa parte da vida cuidando da casa e dos filhos, decidiu começar a vender bolos. O marido perguntou se ela realmente precisava fazer curso para isso. Afinal, ela fazia bolo havia trinta anos. Lúcia respondeu com uma frase simples: “Justamente por isso. Se eu fizer pelos próximos trinta do mesmo jeito, vou continuar exatamente onde estou.”
Alguns quilômetros dali, Roberto administrava uma pequena empresa que havia herdado do pai. Tinha 48 anos e quase a mesma convicção, só que ao contrário. Dizia que curso era para quem estava começando, que já tinha aprendido “na prática” e que ninguém ensinaria a ele como tocar uma empresa. Quando algum funcionário sugeria uma ferramenta nova, respondia com o clássico “sempre fizemos assim”. É uma frase curiosa. Normalmente aparece pouco antes de alguma coisa deixar de funcionar. Roberto trabalhava muito, chegava cedo, saía tarde e tinha orgulho disso. O faturamento, entretanto, parecia não compartilhar do mesmo entusiasmo.
Os dois não se conheciam, mas enfrentavam exatamente o mesmo futuro. Lúcia decidiu se preparar para ele. Roberto acreditava que o passado seria suficiente. Ela aprendeu sobre custos e descobriu que alguns bolos davam mais trabalho do que lucro. Fez um treinamento de atendimento e melhorou a forma de falar com os clientes. Aprendeu a fotografar os produtos, criou um catálogo digital e começou a receber encomendas de pessoas que nunca tinham entrado em sua casa. Não virou uma empresária milionária, nem seria necessário inventar esse final. Apenas começou a ganhar mais, trabalhar melhor e enxergar possibilidades que antes não enxergava.
Roberto continuou trabalhando como sempre. Quando as vendas diminuíam, culpava a economia. Quando um concorrente crescia, dizia que era porque cobrava barato. Quando um funcionário saía, concluía que ninguém mais queria trabalhar. Quando os clientes começaram a comprar de outras formas, reclamou que “esse negócio de internet acabou com o comércio”. Havia sempre uma excelente explicação para o que estava acontecendo. Só nunca havia uma que envolvesse mudar alguma coisa nele próprio.
Talvez tenhamos transformado capacitação em uma palavra excessivamente profissional. Quando ouvimos “treinamento”, imaginamos uma sala de empresa, projetor ligado e alguém distribuindo apostilas. Mas capacitar-se é simplesmente aumentar nossa capacidade de fazer alguma coisa. Vale para o empresário que precisa aprender gestão, para o vendedor que precisa negociar melhor, para a dona de casa que quer transformar uma habilidade em renda, para o jovem procurando o primeiro emprego e para quem tem cinquenta anos de profissão e descobriu que o mundo resolveu mudar sem pedir autorização.
Conhecimento tem uma característica interessante: depois que entra, dificilmente ocupa espaço sem mexer em alguma coisa. Uma informação pode melhorar uma decisão. Uma habilidade pode abrir uma oportunidade. Um curso pode não mudar sua vida na segunda-feira seguinte, mas pode preparar você para uma porta que ainda nem apareceu. O problema é que muita gente espera primeiro a oportunidade para depois buscar preparo. É como comprar guarda-chuva depois que chegou em casa encharcado. Resolve alguma coisa, mas perdeu boa parte da utilidade.
Não existe idade em que alguém fica oficialmente pronto. Diploma não encerra aprendizado, experiência não concede imunidade à mudança e anos de trabalho não garantem evolução. Aliás, existe uma diferença enorme entre ter vinte anos de experiência e repetir durante vinte anos aquilo que aprendeu no primeiro. O calendário acrescenta idade automaticamente. Conhecimento, infelizmente, ainda precisa ser buscado.
Algum tempo depois, Dona Lúcia comprou outro caderno. O primeiro estava cheio. Roberto, provavelmente, continuava dizendo que o mercado estava muito difícil. Talvez estivesse mesmo. A diferença é que dificuldades costumam encontrar todo mundo; preparo, não.
O futuro tem uma péssima educação: ele não espera ninguém terminar de se preparar. Vai chegando, mudando profissões, criando oportunidades, fechando outras e obrigando todos nós a escolher entre aprender ou reclamar. Dona Lúcia escolheu subir um degrau por vez. Roberto ficou olhando para a escada e discutindo quem deveria ter colocado um elevador.
*Christiano Guimarães: empresário, consultor de empresas e escritor.





