
Durante muito tempo, parcelar uma compra era uma decisão reservada para aquilo que faria parte da vida da família por muitos anos. Um carro, uma geladeira, um computador. Havia lógica em assumir um compromisso financeiro para adquirir um bem durável.
Hoje, essa lógica começa a mudar.
Nos últimos meses, chamou a atenção a rápida expansão do parcelamento de compras dentro do iFood. À primeira vista, parece apenas mais uma facilidade oferecida pela tecnologia. Mas a notícia revela algo muito maior do que uma nova forma de pagamento. Ela mostra uma mudança silenciosa na relação dos brasileiros com o próprio dinheiro.
Seria fácil atribuir essa transformação aos aplicativos ou à facilidade do crédito. Mas eles não criaram o problema. Apenas responderam a uma realidade que já estava presente dentro de milhões de lares.
O orçamento das famílias ficou mais apertado. O custo da alimentação aumentou. As despesas fixas passaram a ocupar uma parcela maior da renda. Para muita gente, o salário deixou de acompanhar o custo de viver. Quando isso acontece, o limite do cartão deixa de representar conveniência e passa a ocupar um espaço para o qual nunca foi criado: fechar a conta do mês quando o salário já acabou.
É uma mudança quase imperceptível.
A compra deixa de ser feita porque cabe no orçamento e passa a ser feita porque ainda existe crédito disponível. O alívio é imediato, mas temporário. Afinal, aquilo que hoje parece uma solução reaparece na fatura do mês seguinte, justamente quando novas despesas já estarão batendo à porta.
Os indicadores econômicos confirmam aquilo que muitas famílias sentem na prática. Cresce o número de brasileiros com dificuldades para manter as contas em dia, enquanto o cartão de crédito continua entre as principais origens do endividamento. O que antes financiava bens de maior valor passou, cada vez mais, a sustentar despesas básicas do cotidiano.
É nesse contexto que o parcelamento de uma refeição deixa de ser apenas uma novidade comercial e passa a funcionar como um retrato da economia doméstica.
Naturalmente, há quem utilize o crédito de maneira consciente, organizando melhor o fluxo de caixa ou aproveitando condições sem juros. O problema aparece quando essa deixa de ser uma escolha e se transforma em necessidade.
Talvez seja essa a principal mensagem escondida por trás da notícia. Não estamos falando apenas de uma pizza, de um almoço ou de uma compra de supermercado. Estamos falando de famílias tentando fazer o orçamento atravessar o mês sem abrir mão do essencial.
Durante anos, ouvimos que educação financeira significava gastar menos do que se ganha. A orientação continua correta. Mas a realidade atual mostra que ela, sozinha, já não explica todas as dificuldades enfrentadas pelas famílias. Há brasileiros que planejam, pesquisam preços, evitam desperdícios e, ainda assim, precisam recorrer ao crédito porque a renda perdeu poder de compra.
Quando isso acontece, o crédito deixa de financiar sonhos. Passa a financiar a rotina.
Talvez o parcelamento do iFood nem seja a notícia mais importante dessa história. A verdadeira notícia é que milhões de brasileiros passaram a depender do crédito para manter um padrão de consumo que, até pouco tempo atrás, cabia dentro do salário.
E quando até a refeição vira prestação, a discussão deixa de ser sobre aplicativos ou novas formas de pagamento. Ela passa a ser sobre o quanto o orçamento das famílias brasileiras encolheu diante do aumento do custo de vida e sobre como o crédito, silenciosamente, assumiu o papel de uma renda que já não é suficiente.
*João Otair
Educador Financeiro
Especializado em Endividamento
Palestrante sobre Finanças
Professor de Matemática e Educação Financeira
Coautor do livro “Dinheiro com Propósito”
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