De ponto em ponto: caminho das costuras

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Vestir este blazer é vestir cada sábado de dedicação, cada costura refeita e cada aprendizado compartilhado ao longo da caminhada – Foto: Reprodução

Depois de anos tentando conquistar uma vaga em um curso de costura, uma jornalista descobre que aprender a operar uma máquina industrial também significa revisitar a infância, compreender o valor do tempo e perceber que alguns sonhos apenas esperam o momento certo para sair do molde.


@caroline_leidiane

Houve um momento em que achei que essa história não seria escrita. Na verdade, ela quase terminou antes mesmo de começar. Durante anos acompanhei a abertura de vagas para cursos de costura em Votuporanga. Sempre acontecia a mesma coisa: quando eu descobria as inscrições, elas já estavam encerradas. As turmas lotavam rápido demais. Eu chegava sempre alguns minutos — ou alguns dias — atrasada para um sonho que carregava desde a infância.

Quando soube que o Senai abriria uma nova turma de costura reta e overloque, não pensei duas vezes. Fiz minha inscrição imediatamente. Desta vez, eu tinha certeza de que havia chegado a tempo. Mas o e-mail que recebi não dizia exatamente isso. Meu nome estava na lista de espera.

Lembro da sensação de vazio. Era como se aquele desejo antigo escorregasse novamente por entre os dedos. Depois de tantas tentativas frustradas, imaginei que teria de esperar outra oportunidade, sem saber quando ela viria.

No dia seguinte, porém, outro e-mail chegou. Havia uma vaga para mim. Hoje penso que algumas histórias começam exatamente assim: quando acreditamos que já perdemos.

Naquele instante eu ainda não sabia, mas entre 31 de janeiro e 27 de junho de 2026 eu aprenderia muito mais do que costurar uma saia, fazer uma bainha ou montar um blazer. Descobriria que tecidos podem unir pessoas, que máquinas carregam histórias fascinantes e que, às vezes, a vida leva décadas preparando um sonho para que ele aconteça no tempo certo.

Silvana Spósito, Maria Aparecida Rodrigues da Silva, Aparecida Gouveia, Maria do Carmo Ferreira, professora Cidinha, Isabel Cristina Santana, eu, Priscilla Alves dos Santos e Cecília Rodrigues da Silva Cardoso. Atrás da câmera, Francileide dos Santos. Ausente na foto, mas sempre presente na nossa caminhada, Sebastiana Monteiro da Silva – Foto: Reprodução

Retalhos de infância

Meu primeiro contato com a costura aconteceu muito antes de eu tocar em uma máquina. Foi dentro de casa que o som da costura virou trilha sonora de novidade.

Na infância, nossa realidade financeira era bastante simples. Comprar roupas novas nem sempre era uma possibilidade. Mas minha mãe nunca permitiu que isso significasse abrir mão da beleza ou do cuidado. Edna Diogo de Oliveira transformava retalhos em lookinhos perfeitos para mim e para minha irmã.

O que para muitas pessoas era apenas sobra de tecido, para ela se tornava criatividade. E a magia não parava ali. Com pequenos pedaços que restavam, ela confeccionava roupas para nossas bonecas e para as Barbies. Eram vestidos exclusivos, saias, jaquetas, conjuntinhos e, pasmem, até meias-calças e camisolinhas. Enquanto outras crianças compravam roupas prontas para suas bonecas, nós tínhamos peças feitas especialmente para elas. Na época eu apenas achava aquilo primoroso. Hoje, entendo a dimensão daquele gesto. Minha mãe costurava o meu senso de estilo e minha aptidão para a moda.

Talvez tenha sido ali que nasceu, silenciosamente, meu desejo de aprender. Curiosamente, ela nunca tentou me ensinar. Eu era uma criança desastrada e ela tinha receio de que eu quebrasse agulhas, e, naquele tempo, cada uma delas representava um gasto que fazia diferença no orçamento da família.

Então cresci admirando a máquina de costura quase como quem observa um instrumento reservado a poucas mãos. Parecia um fazer artesanal complexo demais, que exigia uma precisão e uma coordenação motora muito distantes da minha natureza estabanada. Passei muitos anos acreditando nisso.

Até que, aos 39 anos, atravessei os portões do Senai levando comigo o mesmo fascínio da menina que observava a mãe costurar. A diferença é que, desta vez, eu finalmente poderia sentar diante da máquina.

Apesar da coragem de me inscrever, havia uma parte de mim que permanecia descrente. Eu não acreditava que conseguiria costurar. Não fazia planos, não imaginava o que poderia produzir e tampouco depositava esperança de que aquela experiência realmente desse certo.

Se existe uma etapa que colocou nossa paciência à prova, foi a confecção dos bolsos. Cada modelo exigia precisão, atenção aos detalhes e, muitas vezes, a coragem de desmanchar para fazer de novo – Foto: Reprodução

O primeiro ponto

Existe um silêncio curioso quando alguém liga uma máquina de costura pela primeira vez. Naquele instante tudo parece um enigma: os caminhos da linha, o encaixe sublime de cada peça, a posição correta da agulha, o pedal, o ritmo, a coordenação entre mãos e pés.

Logo nas primeiras aulas, a professora Cidinha Aparecida Zangrando nos ensinou algo que parecia simples, mas mudou completamente minha percepção sobre a costura: o peso dos pés. Costurar não depende apenas das mãos. É um exercício de equilíbrio entre corpo, atenção e delicadeza.

Depois vieram os primeiros e tímidos pontos. Ainda me emociono ao lembrar deles: a linha era verde, o tecido de algodão cru e, diante daquela máquina, as lembranças da infância voltaram coloridas.

Não eram perfeitos, nem precisavam ser. Aquele pequeno traço costurado sobre o tecido representava algo muito maior do que uma linha supostamente reta.  Era a prova de que eu finalmente estava fazendo aquilo que durante tantos anos parecia distante demais para mim.

Passei a enxergar beleza até mesmo na engenharia da máquina. Fiquei fascinada ao descobrir o caminho percorrido pela linha antes de chegar à agulha. Foi então que a professora me contou uma história na qual jamais esqueci.

Segundo ela, o inventor Elias Howe enfrentava dificuldades para desenvolver uma máquina de costura funcional. O problema estava justamente na agulha. A solução teria surgido depois de um sonho. Nele, guerreiros carregavam lanças com um pequeno furo próximo à ponta. Ao despertar, Howe percebeu que aquele detalhe resolveria seu problema técnico. Criou uma agulha com o orifício próximo à extremidade, e o restante é história.

No entanto, aquele relato ecoou em mim carregado de simbolismo. Sempre tive uma relação muito particular com os sonhos. Anos atrás, quando estava afastada do jornalismo, sonhei que produzia uma reportagem sobre a coleção de discos de vinil do meu marido. Ao acordar, fiz a mim mesma uma pergunta simples: “Por que não?”

Escrevi a matéria, entrei em contato com o Danilo Camargo (editor e proprietário deste periódico) e, pouco tempo depois, estava novamente trabalhando na profissão.

Talvez por isso eu tenha compreendido imediatamente o significado daquela história. Alguns sonhos não servem para prever o futuro, mas para nos lembrar de desejos antigos e de portas que já estão destrancadas, esperando apenas que tenhamos coragem de girar a maçaneta.

Pespontando caminhos

Aos poucos, a máquina deixou de ser um equipamento cercado por mistérios. Os movimentos passaram a fazer sentido. A linha encontrava seu percurso quase naturalmente. O barulho constante da agulha, que no início parecia intimidar, tornou-se familiar. Eu já não observava apenas a máquina. Começava a enxergar as pessoas ao meu redor.

A turma havia iniciado maior. Como acontece em muitos cursos de formação, algumas alunas seguiram outros caminhos antes do encerramento das aulas. Permaneceram Sebastiana Monteiro da Silva, Maria Aparecida Rodrigues da Silva, Priscilla Alves dos Santos, Cecília Rodrigues da Silva Cardoso, Isabel Cristina Santana, Silvana Spósito, Aparecida Gouveira, Maria do Carmo Ferreira, Francileide dos Santos e eu.

Cada uma carregava uma história diferente. Havia quem desejasse uma nova profissão. Quem buscasse uma fonte complementar de renda. Quem sonhasse em confeccionar as próprias roupas. Quem simplesmente tivesse decidido aprender algo novo.

No entanto, existia uma característica que unia todas nós. Ninguém competia. Em um mundo acostumado a transformar qualquer ambiente em disputa, aquela sala parecia funcionar sob outra lógica.

Naquela oficina, o aprendizado nunca foi individual. Cada novo detalhe da máquina era compartilhado, cada costura desfeita encontrava mãos dispostas a ajudar e cada peça concluída era celebrada como uma vitória coletiva. O progresso de uma jamais representava o atraso da outra; ao contrário, cada conquista ampliava a confiança do grupo e nos impulsionava a evoluir juntas.

As aulas aconteciam aos sábados, das oito da manhã às cinco da tarde. Era um dia inteiro dedicado à costura. No intervalo para o almoço, durante uma hora, quase nunca falávamos apenas sobre tecidos. As conversas passeavam pela família, pelo trabalho, pelos filhos, pelos desafios da rotina, pelas alegrias e pelas preocupações que cada uma carregava.

Sem perceber, fomos costurando amizades. Os alfinetes prendiam moldes. As palavras aproximavam pessoas. À medida que os tecidos tomavam forma sob nossas mãos, nós também nos transformávamos. Como borboletas, abríamos as asas para voos que nem imaginávamos ser capazes de fazer.

Foi então que chegou a overloque. Admito que, naquele primeiro contato, pensei que jamais conseguiria dominá-la. Passar os fios por todos aqueles buraquinhos minúsculos era como montar um quebra-cabeça tridimensional. Por vezes, fácil se esquecer dos detalhes. Mas, ao final, nos apaixonamos pela praticidade de overlocar.

Depois de meses entre linhas, exercícios e costuras refeitas, chegou a nossa primeira peça completa: uma saia evasê com zíper comum – Foto: Reprodução

Costurando acertos

Bastava um ponto fora do lugar para que todo o trabalho precisasse ser refeito. No início, isso me frustrava profundamente. Minha busca quase obsessiva pela perfeição transformava cada erro em um incômodo desproporcional. Mas a rotina da costura foi, devagarinho, desfazendo essa lógica.

Aprendi que o descosturador não existe para lembrar nossos fracassos, e sim para tornar possível um resultado melhor. A cada costura refeita, compreendia que recomeçar faz parte do processo. Arrisco dizer que essa foi a maior lição daqueles cinco meses: não há descrédito algum em desfazer quando o objetivo é construir algo melhor.

Foi também durante esse percurso que a professora Cidinha precisou se afastar por questões de saúde. A notícia preocupou toda a turma. Afinal, havia sido ela quem nos apresentou ao universo da costura e, por algumas semanas, precisaria interromper as aulas. Diante da ausência, era natural imaginar que perderíamos o ritmo. Mas aconteceu exatamente o contrário.

As professoras Vanessa Ferreira e Vânia Hilário dos Santos assumiram parte das aulas e encontraram alunas determinadas. Cada uma trouxe sua própria didática, novas técnicas e diferentes maneiras de explicar processos.

Antes de confeccionar qualquer peça, passamos por exercícios que mais pareciam desenhos geométricos. Ondulações, círculos e linhas em diferentes direções treinavam a coordenação motora no controle do pedal e a precisão necessária para conduzir o tecido sob a agulha.

Quando Cidinha retornou, já estávamos prontas para colocar em prática tudo o que havíamos aprendido. Os tropeços das primeiras aulas haviam ficado para trás; agora, já sabíamos caminhar.

Parece até que a “profe” intuía isso, porque voltou trazendo os moldes preparados pela turma de modelagem. Era o momento de transformar meses de dedicação em peças que finalmente ganhavam forma. Primeiro veio a saia evasê com zíper comum, depois a evasê americana com zíper invisível e, como coroação daquele percurso, finalizamos nosso primeiro blazer.

Ao olhar para trás, penso que talvez nenhuma de nós tenha entrado naquele curso imaginando tudo o que encontraria ali. Chegamos querendo aprender uma profissão. Saíamos levando em nossa bagagem coragem, confiança, autonomia e, acima de tudo, amizades.

Neste ponto da narrativa, meus olhos marejam. Hoje, percebo que foi na confiança que depositamos umas nas outras que encontramos a determinação necessária para acreditar: nunca é tarde para começar aquilo que, durante tanto tempo, julgamos impossível.

A última aula chegou ao fim depois da nossa celebração no almoço e da conclusão do blazer. Olhei nos olhos de cada uma daquelas mulheres e vi força, perseverança e histórias singulares. Cada uma carregava sua própria trajetória, seus desafios e sua rotina. Ainda temos muito a aprender sobre costura, mas, no fundo, nunca foi apenas sobre isso.

Ao cobrir minha máquina com a capa pela última vez, senti que “adeus” não era a palavra certa. “Até logo” parecia traduzir melhor aquele momento. Ainda assim, já não consegui conter a emoção. Abracei cada uma com a esperança de que nossos caminhos ainda voltem a se cruzar.

No trajeto para casa, um vazio inesperado tomou conta de mim. Talvez porque eu soubesse que aquele ciclo havia terminado. Ou porque algumas experiências deixam marcas profundas demais para caberem apenas na memória. Foi então que fiz uma promessa silenciosa a mim mesma: esta história está apenas começando.

Neste sábado, não vou precisar vencer a preguiça para levantar cedo e seguir rumo ao curso. Também não vou me preocupar em preparar o lanche, nem escolher um lookinho que, por questões de segurança, precisava incluir uma calça.

Mesmo assim, consigo ouvir o som ritmado das máquinas, lembrar das conversas, das risadas, das dúvidas compartilhadas e da alegria sincera a cada peça concluída. Descobri que alguns lugares continuam existindo dentro da gente muito depois que fechamos a porta pela última vez. Esse é o verdadeiro arremate de certas histórias: elas terminam no calendário, mas permanecem cuidadosamente costuradas na memória.

A querida Pri tinha razão: nós arrasamos!