Comerciantes se sentem prejudicados por decretos contra Covid e apontam divergências

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Um restaurante tradicional em Votuporanga/SP publicou uma carta aberta pontuando o que classificou com ‘indignação’ à ‘incongruência’ por parte do Poder Público. À reportagem, uma comerciante contou sobre as dificuldades enfrentadas, risco de fechamento e demissões.


Pelo menos 14 comerciantes procuraram a redação do Diário de Votuporanga, desde à última sexta-feira (5), para tirar dúvidas sobre o fechamento de estabelecimentos comerciais em Votuporanga/SP, antes da volta da fase vermelha do plano São Paulo de flexibilização econômica. A medida restritiva foi determinada pelo governo de São Paulo para tentar controlar os números da Covid-19; contudo, medidas duras de controle à aglomerações já haviam sido decretadas pelo prefeito Jorge Seba (PSDB) após os leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) da Santa Casa local registrar 105% de ocupação. 

Porém, em sua grande maioria, os empresários apontaram dificuldades para se adaptar às regras da fase vermelha, e afirmaram que medidas são um balde de água fria: “Essa notícia que a gente recebeu hoje foi um balde de água fria, pegou a gente de surpresa, com os estoques altos, as coisas todas se encaminhando para um desenho e de repente esse baque. A prefeitura tinha que olhar com carinho para nossa necessidade também, não estamos pedindo nada, só para trabalhar”, contou o proprietário de uma lanchonete que preferiu não se identificar.  

Já outro comerciante do ramo alimentício, apontou que somente estabelecimentos “maiores” podem trabalhar no sistema drive-thru e por isso se sente prejudicado, uma vez que não pode atender em esquema de retirada na porta; e completou dizendo que não tem dinheiro para adequar a empresa, no que para ele, seria uma nova forma de comércio. 

Outra empresa votuporanguense, o restaurante Filó, localizado na Avenida Vale do Sol, divulgou uma carta aberta apontando que “promovemos todas as ações e cuidados contra a proliferação do coronavírus e respeitamos todos os decretos municipais e estaduais”; porém aponta com “indignação”, algumas “incongruências” e pedem esclarecimentos. 

Já em entrevista, nessa segunda-feira (8), Luana Filó, explicou: “No sábado, durante o horário de pico de atendimento, fomos abordados oito fiscais de postura do município, em dois carros. Oito pessoas num mesmo lugar, isso é aglomeração desnecessária, mas isso pode, agora entregar uma marmita para retirada do lado externo do restaurante não pode. O decreto não permite”. 

Questionada, sobre uma possível implantação do sistema drive-thru, Luana pontuou que: “No decreto diz que somente estabelecimentos credenciados podem. No ano passado, quando fecharam a primeira vez, nós tentamos implantar, mas tinha que pagar taxa de licença para drive-thru na prefeitura, procurar um arquiteto para adequar o layout necessário, à época somente a regularização custaria em torno de R$ 3 mil”. 

A empresária falou sobre a movimentação flagrada no final de semana na área central da cidade e comparou: “Fui ao banco semana passada e a fila fazia um caracol do lado de fora e ninguém falou nada, lá no restaurante é um esquema de guerra e tudo precisa ser desinfectado de cinco em cinco minutos. Essa fiscalização está muito focada em alguns setores em deixando outros bem à vontade. Nas grandes empresas, com refeitórios, é possível ver 800 funcionários comendo num mesmo ambiente, no restaurante não pode 50 pessoas.” 

Luana comentou sobre as demissões e dificuldades impostas pelo período: “Antes da pandemia tínhamos 20 funcionários, agora temos cinco e vamos ter que demitir três. Não consigo mantê-los, a gente se preocupa, mas não dá. Já  é capaz de até a empresa fechar”. 

Já ao final da entrevista, a comerciante ponderou: “Não existe trabalho que não seja essencial à vida e a sobrevivência das famílias nos moldes da atual sociedade. A nossa vida ou do nosso colaborador não é menos importante que a dos demais. E sim, somos contrários ao fechamento seletivo de atividades comerciais a fim de beneficiar determinadas pessoas em detrimento de outras. Defendemos a liberdade com responsabilidade”, finalizou.   

João Herrera, presidente do Sincomércio (Sindicato do Comércio Varejista) foi procurado pelo Diário e falou: “Essa família do restaurante Filó é abnegada, cuidadosos, trabalham com amor. O restaurante deles é referência na cidade, realmente será um prejuízo incalculável se fecharem as portas. Espero que o prefeito escute o povo e ouça também a população, não só os técnicos. Os pequenos comerciantes podem ajudar contra esse vírus, é preciso construir essa parceria, não sufocar os comerciantes”. 

A prefeitura não se manifestou sobre o assunto, até o momento.