Caso de jovem fisiculturista coloca foco em doença cardíaca silenciosa

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O cardiologista Luciano Miola integra o corpo clínico e a diretoria técnica do IMC/HMC, com formação pela UFSC e especialização no Johns Hopkins Hospital - Foto: Assessoria/IMC

Cardiomiopatia hipertrófica figura entre as principais causas de morte súbita entre praticantes de atividade física intensa; especialista do IMC de Rio Preto explica os riscos do uso indiscriminado de anabolizantes e testosterona sem indicação médica.


@caroline_leidiane

A morte do fisiculturista e influenciador digital Gabriel Ganley, de 22 anos, reacendeu o debate sobre uma condição cardíaca silenciosa que pode levar à morte súbita mesmo em jovens aparentemente saudáveis.

Conforme informações divulgadas pela imprensa, a cardiomiopatia hipertrófica consta no atestado de óbito como possível causa da morte, enquanto autoridades seguem investigando fatores associados, incluindo o eventual uso de anabolizantes.

Considerada uma das principais causas de morte súbita entre jovens atletas e praticantes de atividades físicas intensas, a cardiomiopatia hipertrófica é caracterizada pelo espessamento anormal do músculo cardíaco. A alteração dificulta o bombeamento adequado do sangue e favorece o surgimento de arritmias graves.

Segundo o cardiologista Luciano Miola, do Instituto de Moléstias Cardiovasculares, de São José do Rio Preto (IMC) — a doença compromete tanto a função mecânica quanto o sistema elétrico do coração.

“O coração aumenta de espessura e pode perder eficiência para bombear o sangue. Além disso, esse espessamento altera o sistema elétrico cardíaco, aumentando muito o risco de arritmias potencialmente fatais”, explica.

O especialista destaca que substâncias frequentemente utilizadas para ganho de massa muscular podem agravar problemas cardiovasculares.

“O uso indiscriminado de anabolizantes e de testosterona não é inofensivo. Essas substâncias podem acelerar alterações cardíacas, favorecer inflamações no músculo do coração e aumentar o risco cardiovascular mesmo em jovens”, afirma.

Dados do Ministério da Saúde apontam que as doenças cardiovasculares permanecem como a principal causa de morte no Brasil, com cerca de 400 mil óbitos registrados em 2022. Entre atletas jovens, a cardiomiopatia hipertrófica aparece com frequência nos casos de morte súbita relacionados à prática esportiva.

Um dos principais desafios da doença é justamente a ausência de sintomas em grande parte dos pacientes. De acordo com Miola, muitas pessoas convivem durante anos com a condição sem qualquer manifestação clínica. Quando surgem, os sinais mais comuns incluem falta de ar, dor no peito, palpitações, tonturas, desmaios e cansaço excessivo, especialmente durante exercícios físicos.

Gabriel Ganley tinha 22 anos e foi encontrado morto no dia 23 de maio. O caso trouxe atenção para a cardiomiopatia hipertrófica, apontada como possível causa da morte – Foto: Reprodução

“O problema é que muitas vezes o primeiro sintoma pode ser justamente uma arritmia grave ou a morte súbita. Por isso, avaliação cardiológica preventiva é fundamental, principalmente para atletas e pessoas com histórico familiar”, alerta ele.

Embora tenha forte componente genético, a cardiomiopatia hipertrófica pode ter os efeitos agravados por fatores externos. O uso de anabolizantes, por exemplo, está associado ao aumento da pressão arterial, ao espessamento do músculo do coração e ao maior risco de arritmias e insuficiência cardíaca.

O diagnóstico pode ser realizado por meio de exames como eletrocardiograma, ecocardiograma, ressonância magnética cardíaca e, em alguns casos, testes genéticos. O tratamento varia conforme a gravidade do quadro e pode incluir medicamentos, restrição de atividades físicas de alta intensidade, implante de cardiodesfibrilador e acompanhamento médico contínuo.

Para o cardiologista, a prevenção depende da realização periódica de avaliações médicas, da investigação de antecedentes familiares de morte súbita, da atenção aos sintomas e da não utilização de anabolizantes sem acompanhamento especializado.