Canetas emagrecedoras não devem substituir cirurgia bariátrica no curto e médio prazo, afirmam especialistas

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Canetas emagrecedoras não devem substituir cirurgia bariátrica no curto e médio prazo, afirmam especialistas - Foto: Reprodução

No Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 4 de março — data que reforça a conscientização sobre a doença — médicos do Hospital de Base de São José do Rio Preto afirmam que a resposta, apesar dos avanços promissores, ainda é não, pelo menos a curto e médio prazo.


Avanço importante no combate à obesidade, os medicamentos injetáveis conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras” têm ajudado muitos pacientes com comorbidades a perder peso. Diante desse cenário, cresce uma dúvida entre pacientes: as canetas emagrecedoras vão substituir as cirurgias bariátricas?

No Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 4 de março — data que reforça a conscientização sobre a doença — médicos do Hospital de Base de São José do Rio Preto afirmam que a resposta, apesar dos avanços promissores, ainda é não, pelo menos a curto e médio prazo.

Obesidade: uma doença crônica e complexa

A obesidade é reconhecida como uma doença crônica, multifatorial e de difícil controle. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 60% da população brasileira está acima do peso e quase 30% já vive com obesidade.

Para o médico cirurgião bariátrico e chefe fundador do Serviço de Cirurgias Bariátricas e Metabólicas do HB, Prof. Dr. Gilberto Brito, o grande desafio não é apenas perder peso, mas manter o peso perdido ao longo dos anos.

“Pelo menos nos próximos dez anos, infelizmente não vejo as canetas emagrecedoras acabando com as cirurgias bariátricas. A obesidade é uma doença complexa, produzida pela interação de diferentes fatores, muitos deles genéticos e ambientais. Por isso, é considerada uma doença crônica. Vencê-la não é perder peso, mas manter esse peso perdido a longo prazo”, explica.

Cirurgia bariátrica: procedimento ainda é o mais eficaz no longo prazo

Embora não haja cura definitiva, o controle da obesidade depende de tratamento prolongado e adequado. Nesse contexto, as cirurgias bariátricas seguem como uma das estratégias mais eficazes para o controle da doença em longo prazo. Segundo o especialista, entre 60% e 70% dos pacientes operados conseguem manter resultados sustentáveis por mais de cinco anos.

Autorizado pelo Ministério da Saúde em 2001, o Hospital de Base de São José do Rio Preto é considerado o serviço que mais realiza cirurgias bariátricas pelo SUS no Brasil. Nos últimos três anos, foram 1.364 procedimentos. Somente em 2024, foram realizadas 478 cirurgias; em 2025, 622. Todas por videolaparoscopia e, mais recentemente, também com técnica robótica.

O tempo médio de espera na fila também caiu: de cinco anos para aproximadamente um ano. A taxa de mortalidade gira em torno de 0,1%, considerada baixa para um procedimento de grande porte. “O risco maior é o da obesidade mórbida não tratada”, afirma Dr. Gilberto Brito.

E as canetas emagrecedoras?

O uso das canetas emagrecedoras ganhou força no Brasil após a aprovação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), da tirzepatida — princípio ativo do medicamento Mounjaro — para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2.

A tirzepatida é comercializada no Brasil em dispositivo de caneta preenchida, com dosagem adequada conforme prescrição médica. A venda é permitida apenas em farmácias, mediante apresentação de receita médica em duas vias, conforme exigência da Anvisa.

Segundo o endocrinologista Dr. Antonio Carlos Pires, chefe do Serviço de Endocrinologia do Hospital de Base, o avanço é significativo, mas exige responsabilidade. “A procedência do medicamento é fundamental. Produtos fabricados fora dos padrões corretos podem apresentar contaminação por vírus, fungos ou bactérias. Além disso, o uso deve sempre ocorrer com prescrição e acompanhamento médico”, alerta.

Para o Prof. Dr. Gilberto, as canetas representam esperança, mas ainda precisam passar pela “prova do tempo” em três aspectos fundamentais: segurança clínica a longo prazo; manutenção da eficácia ao longo dos anos e a viabilidade financeira para a população.

“Como aconteceu com outras doenças, o tratamento clínico pode, no futuro, substituir o cirúrgico. Mas ainda estamos longe disso”, afirma.

Demanda crescente

No Ambulatório Geral de Especialidades do Hospital de Base de São José do Rio Preto, houve aumento de 19% no número de atendimentos a pessoas com obesidade (ambulatorial, internação e urgência). O número passou de 9.385, em 2024, para 11.166 no ano passado, reforçando a dimensão do problema e a necessidade de estratégias múltiplas e contínuas no enfrentamento da doença.