Após a última página, a narrativa é coletiva

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Participantes do Clube do Livro durante encontros realizados em Votuporanga. O grupo é composto por Andrea Bruniera, Carla Seba, Juliana Pedroso, Miriam de Prosdocimi, Claudia Casagrande Lourenço, Edna de Biazi, Osmarina Portugal e Maria Ignez de Lima Pedroso - Foto: arquivo pessoal

O que começou como um convite entre amigas para ler e compartilhar interpretações literárias transformou-se em espaço de troca de experiências, reflexões e convivência, tendo os cafés de Votuporanga como ponto de encontro de um Clube do Livro.


@caroline_leidiane

Em tempos marcados por rapidez das notificações, fragmentação da atenção e pelo consumo exacerbado de informações, um pequeno grupo de leitoras em Votuporanga escolheu seguir por outro caminho: desacelerar, abrir um livro e transformar a leitura em experiência compartilhada.

Criado em maio de 2025, o Clube de Leitura nasceu de uma inquietação pessoal da fonoaudióloga e mestre em Estudos Linguísticos Maria Ignez de Lima Pedroso, conhecida como Lelei. Aos poucos, a iniciativa ressoou em amigas próximas interessadas em literatura, cultura e convivência.

“A leitura sempre esteve presente em minha rotina caseira, profissional e acadêmica. Para mim, sempre foi muito prazeroso e enriquecedor me dedicar a essa prática que, em diversas oportunidades anteriores (em encontros nas oficinas de linguagem, de escrita e em grupos de estudo) me trouxeram a comprovação de que realmente a leitura nos proporciona inúmeros benefícios com relação à qualidade de vida, sobretudo, pelo fato de criarmos espaços de interação vinculados ao que lemos. Desse modo, a ausência dessas atividades no meu dia a dia, após algumas mudanças de vida, fez com que sentisse falta da criação de um ambiente agradável e dialógico em torno da literatura”, explica Lelei.

A primeira obra escolhida pelo grupo foi “Antes que o Café Esfrie”, do escritor japonês Toshikazu Kawaguchi. O volume foi abordado em julho de 2025, durante o encontro inaugural do clube.

Participantes do Clube do Livro durante encontros realizados em Votuporanga. O grupo é composto por Andrea Bruniera, Carla Seba, Juliana Pedroso, Miriam de Prosdocimi, Claudia Casagrande Lourenço, Edna de Biazi, Osmarina Portugal e Maria Ignez de Lima Pedroso – Foto: arquivo pessoal

Desde então, outras leituras passaram a integrar a trajetória do grupo, como “Doze Contos Peregrinos”, de Gabriel García Márquez, “Longo e Claro Rio”, de Liz Moore, e “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J. D. Salinger.

As escolhas acontecem de forma democrática. As participantes apresentam sugestões, realizam votações e definem um novo título a cada dois meses. Não há temas pré-estabelecidos nem obrigatoriedade de leitura, característica que contribui para manter o ambiente receptivo e acessível.

Atualmente, o grupo é formado por Andrea Bruniera, Carla Seba, Juliana Pedroso, Miriam de Prosdocimi, Claudia Casagrande Lourenço, Edna de Biazi, Osmarina Portugal e Maria Ignez de Lima Pedroso.

A leitura como encontro

Embora a leitura seja frequentemente associada a uma prática individual, o clube busca justamente ampliar essa experiência por meio do diálogo. Cada participante leva para a conversa suas interpretações, memórias, repertórios e percepções, revelando como uma mesma narrativa pode produzir sentidos distintos.

“Certamente, revelam bastante a subjetividade, a história de relação com a leitura, calcada na tradição oral ou escrita, de cada uma das participantes, o que traz cada vez mais trocas significativas de aprendizagens, de crescimento e de aprofundamento literário que nos enriquece muito em nosso dia a dia, em nossa humanização”, elucida a fonoaudióloga.

Segundo ela, o valor do projeto está na possibilidade de criar suspensões significativas em meio à rotina contemporânea. Os encontros emergem a eventualidade de dedicar atenção ao pensamento, à escuta e às relações de amizade.

“Representa a oportunidade de dar ênfase às práticas sociais de leitura e de escrita capazes de nos enriquecer como seres humanos, de nos proporcionar momentos de bem-estar e de aprendizagens diversas na dialogia virtual com os autores lidos e nos diálogos das nossas interações presenciais em cada encontro realizado”, frisa.

A escolha dos locais de reuniões não acontece por acaso. Cafés e ambientes com experiência intimista ajudam a criar a atmosfera desejada para as rodas do bate-papo.

“Em meus estudos na área da linguagem escrita, há anos, pude confirmar, de acordo com uma pesquisadora francesa, que: ‘a leitura é, antes de tudo, uma história de amor, uma história de prazer e de interesse compartilhado em torno de um objeto: o livro’ (Cathy Frier, 2006). Sendo assim, certamente, o cenário dos ambientes onde temos nos encontrado também tem sido pensado e escolhido com afetividade, pois sabemos quanto um espaço arejado e acolhedor favorece nosso bem-estar e a nossa troca de ideias e reflexões”, cita Lelei.

Participantes do Clube do Livro durante encontros realizados em Votuporanga. O grupo é composto por Andrea Bruniera, Carla Seba, Juliana Pedroso, Miriam de Prosdocimi, Claudia Casagrande Lourenço, Edna de Biazi, Osmarina Portugal e Maria Ignez de Lima Pedroso – Foto: arquivo pessoal

Um espaço aberto para novas histórias

Por enquanto, o clube reúne apenas mulheres, mas, de acordo com Maria Ignez, essa característica surgiu espontaneamente e nunca foi estabelecida como um critério para a participação.

“Não foi uma escolha consciente, aconteceu naturalmente. Até o momento, a presença exclusivamente feminina não parece estar ocasionando impactos significativos com relação às conversas e às dinâmicas dos encontros. A base para a formação desse nosso grupo foi a amizade, o interesse pelas práticas de leitura e do compartilhamento de ideias, assim como a possibilidade de encontros periódicos relacionados ao lazer e à cultura”, pontua.

A mesma espontaneidade que marcou a formação do grupo também orienta sua dinâmica. Sem critérios rígidos de participação, o Clube do Livro não estabelece exigências relacionadas à experiência prévia com a leitura ou ao cumprimento integral das obras selecionadas. O interesse em compartilhar reflexões e vivências é o único requisito para integrar o círculo.

“Sim, o nosso clube de leitura está aberto à chegada de novos participantes a qualquer momento, sejam homens ou mulheres que tenham interesses comuns com o que temos nos proposto a fazer. Não há um perfil específico de leitor, basta a manifestação do desejo de participar”, convida ela.

Entre os planos futuros está a intenção de incorporar análises literárias que ampliem e aprofundem os debates promovidos pelo grupo. Embora a ideia ainda esteja em construção, ela já desperta o interesse das participantes.

“Enxergamos como possibilidades com inúmeros proveitos, maior abrangência e maior aprofundamento das nossas leituras que vão se tornando a cada dia mais interessantes, pois, por meio dessas análises, vamos aprendendo a nos familiarizar com ler não apenas a superfície dos textos, mas, principalmente, com o que paira em suas entrelinhas”, reflete.

Sem compromissos impositivos, metas de produtividade ou exigências que transformem a leitura em obrigação, o clube criado por Maria Ignez segue cultivando algo demasiadamente raro: tempo para desacelerar.

Entre livros, cafés e conversas que se estendem para além das páginas, as participantes compartilham interpretações, memórias e vivências, transformando a leitura em uma experiência coletiva de escuta, reflexão e convivência.

O que começou como um convite entre amigas tornou-se um espaço onde diferentes olhares se encontram, ampliam sentidos e fortalecem vínculos. A cada nova obra, a literatura serve de ponto de partida para descobertas, aprendizagens e encontros que ultrapassam os limites dos finais das histórias lidas, revelando a capacidade de aproximar pessoas e humanizar o cotidiano.