Abraço de mãe

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Cynthia ainda grávida recebia a mãe, Eliane Cristina Dela Cruz, nos Estados Unidos. Na foto, ela aparece ao lado do marido, Rafael Fonseca de Freitas, da mãe e da filha mais velha, Alicia, durante a espera pela chegada de Clara - Foto: arquivo pessoal

Essa é a história de uma mãe que esteve entre a despedida e o milagre enquanto outra mãe reunia forças para permanecer de pé pelas netas.


@caroline_leidiane

Durante 18 horas, Eliane Cristina Dela Cruz acreditou que teria de voltar para casa levando a pior das dores: a perda de uma filha.

Do outro lado da cidade, dentro de uma sala de cirurgia, médicos já haviam comunicado à família que não existia mais o que fazer por Cynthia Dela Cruz de Freitas. O marido recebera informações sobre funerária, traslado do corpo para o Brasil e doação de órgãos. Um padre foi chamado para a extrema-unção.

Em algum lugar daquela madrugada de dezembro, a vida parecia ter parado. Os corredores do hospital carregavam o peso das notícias terrivelmente irreversíveis, enquanto uma família tentava compreender como a alegria pela chegada de uma criança havia se transformado, em questão de horas, na iminência de uma despedida.

Do lado de fora da sala cirúrgica, existia uma avó tentando permanecer inteira mesmo diante da possibilidade de perder a filha. Existia um marido tentando sustentar decisões impensadas. Existia uma menina de seis anos esperando pela mãe sem imaginar que, naquele instante, adultos buscavam forças para encontrar uma maneira menos cruel de explicar a ausência.

Nesta história, o Dia das Mães não cabe em flores, pois demanda a resistência de uma mulher que por um triz não faleceu ao dar à luz a segunda filha. Cabe na imensidão do amor incansável de outra mulher que, diante da notícia da morte da própria filha, precisou encontrar forças para continuar acolhendo a vida.

Natural de Votuporanga, Cynthia deixou a cidade em 2002 para cursar Farmácia em Bauru. Depois vieram o mestrado em Botucatu, doutorado e pós-doutorado em Belo Horizonte e, anos mais tarde, a mudança para os Estados Unidos ao lado do marido, Rafael Fonseca de Freitas. Desde 2020, a família vive em Ann Arbor, no estado de Michigan.

No fim de 2025, a espera pela chegada de Clara transcorria em absoluta tranquilidade. A gravidez havia sido planejada. A casa já se preparava para o primeiro Natal com todos os membros. Eliane desembarcou nos Estados Unidos no início de dezembro para ajudar a filha durante o parto e ficar com a família até o começo do ano seguinte.

Tudo parecia seguir o curso luminoso das chegadas, embalado pela expectativa de uma família maior, pelas celebrações de fim de ano e pela alegria estonteante que costuma acompanhar o nascimento de uma criança.

Até 15 de dezembro de 2025.

O dia em que a vida ficou suspensa

Naquele dia, Cynthia foi internada para a indução do parto normal de Clara. As horas avançavam normalmente até o momento em que ela fez força pela segunda vez para o nascimento da bebê. Então, de repente, o corpo silenciou.

O que deveria ser apenas mais um esforço antes do primeiro choro da bebê se transformou em um cenário de urgência extrema. Cynthia perdeu completamente os sinais de resposta e, em poucos minutos, médicos passaram a correr contra um tempo que parecia escapar pelas mãos técnicas.

Em um reencontro após a internação, Cynthia segura Clara nos braços enquanto recebe o beijo da mãe, Eliane – Foto: arquivo pessoal

Mais tarde, os especialistas confirmariam que ela sofreu uma embolia por líquido amniótico, condição raríssima que ocorre quando o líquido amniótico entra na circulação sanguínea da mãe e provoca uma reação devastadora.

Enquanto médicos tentavam entender o que acontecia, Clara nasceu sem vida. Foram 11 minutos de manobras de ressuscitação até que o coração da recém-nascida voltasse a bater. Após a entubação e demais procedimentos, a levaram para a UTI neonatal.

Contudo, o estado de Cynthia se agravava em velocidade fatal. Entre hemorragias severas, sucessivas cirurgias e múltiplas paradas cardiorrespiratórias, os médicos tentavam conter um corpo que já não respondia. Durante os procedimentos de emergência, foram retirados o útero e o ovário esquerdo dela. O sangue já não coagulava, enquanto os órgãos sangravam descomedidamente.

Do lado de fora da sala cirúrgica, a família recebia notícias fragmentadas, cada uma mais grave que a anterior. Médicos atravessavam o local em silêncio, aparelhos eram preparados às pressas e, pouco a pouco, crescia entre todos a sensação angustiante de que a vida escapava de qualquer possibilidade de controle.

Ela foi colocada em um pulmão artificial, enquanto o marido, a mãe e a primogênita Alicia permaneciam em oração diante do esgotamento das possibilidades clínicas. Foi então que Rafael ouviu dos médicos a frase mais temida: já não havia mais nada a ser feito.

A mãe que precisou sobreviver primeiro

Enquanto Cynthia permanecia inconsciente, a vida da família começava a ser reorganizada em torno do luto. O marido dela participou de reuniões sobre doação de órgãos e recebeu contatos de funerárias. Precisou pensar no transporte do corpo da esposa dos Estados Unidos para Votuporanga.

Eliane ligou para familiares no Brasil tentando encontrar palavras para a indizível tragédia que sequer conseguia compreender.

“Ela foi quem sofreu de verdade com a despedida real. Eu estava desacordada e a dor da perda de uma filha foi a dela. Uma dor consciente”, relata Cynthia.

Naquele momento, porém, não havia tempo para desabar. Alicia, precisava de colo, além do mais era muito apegada à mãe, não conseguia dormir sem ouvir sua voz. Tanto que, horas antes do terrível episódio, Cynthia cantou para a filha por videochamada:

“Para ser feliz é preciso ver esse céu azul na imensidão. É fazer da tristeza estrelas a mais e de um pranto, uma canção. Há um mundo bem melhor, todo feito pra você. É um mundo pequenino que a ternura fez. Pra se viver é preciso amar, é ver cada estrela do céu brilhar. É deixar que a ternura invada o seu ser, pra na paz de Deus viver.”

No desvairado tumulto daquele filme trágico, a família tentava entender como contaria a uma criança de apenas seis anos que a mãe tinha partido. De repente, Rafael se viu há cinco minutos de casa, mas uma ligação mudou o curso da rota.

Cynthia havia apresentado sinais milagrosos de vida e se mantinha estável.  Os médicos queriam autorização para um último procedimento: implantá-la também em um coração artificial. Era uma tentativa extrema. Uma aposta na contramão da morte.

Diante da súbita reviravolta, Eliane interveio e disse ao genro que o melhor seria esperar mais um pouco antes de contar à Alicia. As respostas sobre o que fazer dali em diante viriam conforme a reação, ainda incerta, de Cynthia após a nova tentativa dos médicos de salvá-la.

Foi mesmo nessa esperança que Eliane se sustentou — com a força de uma mãe que, mesmo dilacerada pela dor, ainda precisava permanecer firme pelas netas. Mais tarde, Cynthia compreenderia a dimensão daquele momento. Não apenas pelo fato de ter sobrevivido, mas pelo entendimento de que sua mãe viveu conscientemente uma despedida que ela própria nunca chegou a sentir.

Uma corrente invisível segurando a família

Nos dias seguintes, enquanto Cynthia permanecia internada entre tubos, aparelhos e incertezas, algo começou a se formar silenciosamente entre Brasil e Estados Unidos.

Em Votuporanga, amigos antigos passaram a compartilhar pedidos de oração, enquanto familiares, conhecidos, vizinhos e até desconhecidos criavam uma imensa rede de fé para acompanhar diariamente notícias sobre a recuperação de Cynthia e Clara. A família do marido, em Minas Gerais, também se mobilizou e, pouco a pouco, uma corrente invisível começou a envolver aquela família.

“Foi uma coisa muito bonita de ver”, relembra Cynthia. “Amigos dos amigos, familiares, pessoas que provavelmente nunca vamos conhecer, mas que rezaram pela gente”, agradece ela.

Segundo Cynthia, essa comunhão de afeto teve um peso imensurável, sobretudo no momento em que a ciência já não era capaz de explicar tudo sozinha e a fé passou a ocupar as lacunas do medo da perda.

A avó que virou mãe duas vezes

Cynthia permaneceu internada por 51 dias, sendo 25 deles na UTI. Depois vieram o quarto hospitalar, a clínica de reabilitação, a hemodiálise, as sequelas neurológicas, as tromboses e a fisioterapia. Enquanto ela lutava para se recuperar, Eliane assumia o cotidiano das netas.

Foi ela quem acolheu Alicia durante os dias mais difíceis. Foi ela quem recebeu Clara após a saída da bebê do hospital. Foi ela quem atravessou madrugadas, temores e angústias naquela casa enfeitada para o Natal. A viagem que terminaria em janeiro se estendeu até março.

“Minha mãe foi literalmente mãe das minhas duas filhas. Enquanto o meu marido ficava comigo no hospital, foi ela quem cuidou e deu amor e amparo. Avó é mãe duas vezes, e não há nada mais potente na vida do que o amor de mãe”, relembra afetuosamente Cynthia.

Hoje, quando pensa na força da mãe, ela ainda se emociona: “Sinto o quanto ela é muito mais forte do que eu já achava que fosse. A vejo com muito amor, ternura e sinto muita gratidão. Eterna gratidão”, afirma.

Meses após a rara complicação enfrentada no parto, Cynthia voltou a viver a delicadeza do cotidiano materno ao lado das filhas Alicia e Clara – Foto: arquivo pessoal

O tamanho das pequenas coisas

Quando voltou para casa, Cynthia percebeu que o mundo já não era o mesmo — e nem ela. Alicia ainda carregava o medo de hospitais, de doenças e, sobretudo, de perder novamente a mãe. A reconstrução daquela relação aconteceu devagar, nos abraços antes da escola, nas conversas ao fim do dia e na confiança reaprendida aos poucos. Até que, recentemente, a menina olhou para a cicatriz da mãe e disse:

“Se não fosse essa sua cicatriz, mamãe, eu acho que hoje eu nem lembraria que você esteve no hospital”, reproduz Cynthia.

Hoje, três meses após voltar para casa, ela ainda enfrenta limitações físicas e acompanhamento médico constante. Clara, por outro lado, cresce saudável. E talvez seja justamente por isso que o cotidiano tenha adquirido outra dimensão.

“As coisas simples têm um significado grandioso. Poder me despedir da Alicia para ir para escola e estar aqui quando ela voltar para ouvir todas as histórias. Escutar aquele chorinho e a gargalhada da Clara”, expressa com gratidão.

Neste Dia das Mães, Cynthia estará distante fisicamente de Eliane, que já retornou ao Brasil, embora as duas mantenham contato frequente por videochamadas. Ainda assim, ela diz carregar imensa gratidão pela segunda chance de viver.

Mas a experiência também a faz olhar para outras dores: “Gostaria de dizer que, nesse Dia das Mães, meus sentimentos e minhas orações estão com todas as mães de coração, com aquelas que perderam seus filhos e suas filhas, e com os filhos e filhas que estão passando esse dia sem suas mães. Que Deus abençoe todos e todas.”

Talvez seja justamente isso que torne essa história tão profunda quanto um abraço de mãe. Não apenas o fato de uma mulher ter sobrevivido ao improvável, mas a maneira como a experiência ressignificou o amor, a gratidão e a empatia diante da vida.

Depois de atravessar a fronteira entre a despedida e o reencontro, Cynthia voltou para casa iluminada, capaz de reconhecer a beleza do cotidiano: no som da gargalhada das filhas, na presença da mãe ao seu lado, na força imensurável do marido e na possibilidade, tão simples quanto imensa, de ver suas filhas crescerem.