
Programação acontece de 23 a 26 deste mês, no Centro de Convenções ‘Jornalista Nelson Camargo’, IFSP Câmpus Votuporanga e Parque da Cultura, reunindo grupos locais, cenas autorais e atividades formativas voltadas à ampliação do acesso às artes cênicas.
@caroline_leidiane
A Mostra de Cenas Curtas – No Foco 4ª Edição se firma como um dos movimentos mais consistentes de estímulo à cena teatral em Votuporanga. Ao apostar na brevidade como linguagem — e não como limitação — o evento tensiona formas, discursos e estéticas, criando um espaço onde a experimentação encontra o público em estado de proximidade.
De 23 a 26 de abril, o teatro ocupa o Centro de Convenções “Jornalista Nelson Camargo”, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP) Câmpus Votuporanga e o Parque da Cultura com uma programação gratuita que articula apresentações e processos formativos.
Realizada pela Prefeitura de Votuporanga, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo, a mostra reúne grupos locais e artistas independentes em uma curadoria que privilegia a diversidade de linguagens e temas.
A proposta é consolidar um circuito de criação contínua, onde o teatro se constrói também nos bastidores, nos ensaios e nas trocas coletivas.
Abertura, quinta-feira (23)
A abertura da mostra, no dia 23, aciona um dos eixos centrais desta edição: o teatro como prática coletiva. A companhia Cênica conduz a oficina “Boi Material: Reflexões e práticas sobre a potência da coletividade”, às 14h, no anfiteatro do IFSP, com classificação etária de 16 anos.
Na ocasião, a atriz Beta Cunha compartilha procedimentos artísticos desenvolvidos a partir do encontro entre o elenco criador e Pedro Kosovski (dramaturgo, diretor teatral e professor de artes cênicas da PUC-Rio), em uma atividade direcionada a artistas, grupos, estudantes de teatro e interessados.

As inscrições devem ser realizadas pelo formulário no endereço digital: https://forms.gle/ZMPCKPyXbRRtd5CC7.
Já à noite, às 19h30, a apresentação especial convidada “Boi Material” acontece no Centro de Convenções. O espetáculo se passa em uma feira de exposição, onde um grupo de artistas contratado para entreter o público passa a se reconhecer como parte de uma engrenagem de poder que impacta diretamente as existências do planeta. Em meio ao leilão de gado — que evoca a iconografia do boi na pintura brasileira —, a cena propõe uma subversão desse jogo, alternando papéis e tensionando relações de domínio e resistência.
Fundada em 2007 por Fagner Rodrigues e oriunda de São José do Rio Preta a Cênica é um coletivo teatral de repertório que reúne atualmente cerca de 25 integrantes e mantém 11 espetáculos em circulação, concebidos para palco, rua, espaços alternativos e ambiente virtual.
Ao longo de sua trajetória, o grupo desenvolveu pesquisas ancoradas no teatro popular, na dramaturgia autoral, no uso da música ao vivo como elemento dramatúrgico e na ocupação de espaços não convencionais.
Sexta-feira (24)
A programação dos dias seguintes evidencia um ecossistema teatral em amadurecimento e se concentra no Centro de Convenções, a partir das 19h30.
Na sexta-feira (24), sobem ao palco a Abayomi Cia de Teatro com “Quem tem medo de bruxa?”, o Coletivo Terceiro Ato com “O Visitante” e “Pense que você é Deus”, e o monólogo “Eu só queria um tempo”, com Osmar Nunes.
A Abayomi Cia de Teatro, com quase uma década de trajetória, integra esse circuito como uma das vozes consistentes da região, sustentando uma atuação marcada pelo compromisso com o teatro enquanto espaço de expressão e intenção cidadã.
“Fazer teatro tem sido uma trajetória de resistência e temos a preocupação em contribuir com a formação de público para o debate de questões sociais e fortalecimento da nossa identidade”, afirma a atriz e componente Esmeraldina Reis.
Esse posicionamento se articula com a motivação do Coletivo Terceiro Ato, criado em 2019 e responsável por reunir companhias como Abayomi, Experiment’Ação Cênica, Cia. Praticamente Inofensiva e Confraria Fractal.
O grupo também organiza ações como o Festival Terceiro Ato e o Festival Abril em Cena, consolidando-se como instância de mobilização e circulação das artes cênicas no município.
“O objetivo do Coletivo é manter um canal de participação democrática com os grupos de teatro da cidade e contribuir com o crescimento e a visibilidade das artes cênicas”, destaca Esmeraldina.
Sábado (25)
No sábado (25) a programação inicia no mesmo horário, às 19h30, no palco do Centro de Convenções.
Com texto e direção de Sarah Tinel, a montagem “Algumas Mulheres”, da Cia. de Tudo Um Muito, se ancora na experiência feminina para discutir desigualdade, silenciamento e autonomia.

A dramaturgia parte de uma autora em cena que tenta acessar aquilo que permanece oculto — seus próprios conflitos e os de outras mulheres — construindo uma narrativa que atravessa relações sociais, escolhas sobre o corpo e tensões entre diferentes formas de viver o feminino.
Em cena, personagens como Tarsila e Serena articulam dor, resistência e expectativa de futuro, em uma abordagem que prioriza a dimensão humana e cotidiana dessas vivências.
“Esse texto nasceu de outra obra minha que se chama ‘Ecos de Força: Mulheres que Marcaram a História’, um vídeo espetáculo que conta sobre 10 mulheres que mudam a nossa visão de mundo e mostram a força feminina. ‘Algumas Mulheres’ cita essa obra já no começo do espetáculo quando se questiona sobre ‘o que é o abismo?’”, explica a atriz Sarah.
A atriz Letícia Mirele, que participou da construção da cena, destaca a importância de abordar o tema e de buscar novas formas de comunicá-lo, como aponta o próprio texto ao propor “um novo método, maneira, um jeito para fazer com que eles entendam” que a vida de uma mulher importa — e que esse reconhecimento também precisa partir das próprias mulheres.
“O mais importante a ser tratado aqui, sobre essas obras e tudo o que expresso e penso sobre o mundo feminino e sua pluralidade cultural, não é apenas sobre a luta, mas sobre viver. Escrevo e falo todos esses textos e interpretações dançadas para que as mulheres vivam e vivam bem! Mais importante do que a causa é a vida de cada mulher. Não trago foco na violência, mas na essência de cada mulher e no que elas são e podem ser neste mundo”, pontua Sarah acerca da temática.
Ainda na mesma noite, a cena convidada “O Velho Agora”, da Cia de Tudo Um Muito em parceria com o Kasa Cultura propõe um embate direto entre gerações, tensionando a ideia de progresso.

Se o futuro se apresenta como promessa de ruptura, o passado retorna como evidência de repetição. Nesse jogo, o tempo deixa de ser linear e passa a operar como espiral — insistente, cíclico, por vezes implacável.
A dramaturgia se constrói a partir dessa fricção: memória e expectativa, experiência e utopia. O “agora” surge como território instável, uma zona de conflito onde o sujeito contemporâneo tenta se situar. A cena, ao recusar soluções fáceis, desloca o espectador para um campo de reflexão sobre suas próprias heranças e projeções.
Também completam a programação “Trashman”, da Cia. Atenas, e “Quando o amor fala em provérbios!”, com Adriano Ferreira e Carina Souza, compondo a noite com diferentes abordagens e ampliando o espectro de linguagens apresentadas.
Domingo de oficina
Encerrando a programação, no domingo (26), das 16h às 17h30, o Kasa Cultura conduz a Oficina de Iniciação Teatral, na Sala de Oficias do Centro de Informações Culturais e Turísticas “Marão Abdo Alfagali”, no Parque da Cultura.
Aberta ao público a partir de 10 anos e sem necessidade de inscrição prévia, a atividade desloca o espectador para o campo da experiência.

A proposta parte de uma compreensão ampliada do teatro: não apenas como apresentação, mas como ferramenta de desenvolvimento da comunicação, de expressão subjetiva e de cuidado com a saúde mental.
A iniciativa dialoga diretamente com públicos diversos, incluindo pessoas neurodivergentes, e reforça o caráter inclusivo da mostra.
“Nós do Kasa Cultura trazemos essa oficina de forma acessível e gratuita […] para que, além da experiência de assistir à uma peça, os interessados possam também ter a experiência de ser um ator em treinamento. Nossas expectativas são de que, através dessas e outras oficinas, a arte alcance todos cantos da cidade, abraçando a pluralidade das pessoas com o teatro”, sintetiza o oficineiro Lucas Pereira.
Kasa Cultura
A participação do Kasa Cultura amplia o alcance da mostra para além do palco. Criado em 2023, o grupo surge com uma diretriz clara: democratizar o acesso à arte em suas múltiplas linguagens — da literatura à dança, das artes cênicas à formação crítica.
Originado a partir do evento “Vem pro Half”, voltado à cultura hip-hop, o Kasa Cultura expandiu sua atuação ao longo dos anos, oferecendo eventos de dança, aulas, oficinas, mentorias artísticas, clube do livro e ensaios abertos de artes cênicas.
A proposta é construir um espaço de pertencimento, onde a arte funcione como ferramenta de encontro e transformação social.
A trupe, atualmente formada por quatro integrantes, mantém uma lógica aberta de participação, convidando novos agentes culturais a integrar suas ações.
Um território em cena
Ao reunir grupos, coletivos e iniciativas independentes, 4ª Mostra de Cenas Curtas revela a consolidação de um movimento contínuo de produção teatral em Votuporanga.
Integrada ao calendário cultural do município, a iniciativa atua como instrumento de incentivo à criação artística, à formação de público e à ampliação e democratização do acesso às artes, em uma política conduzida pela Prefeitura.
O que emerge desse conjunto é um teatro em permanente atividade, estruturado no encontro e sustentado pela sua capacidade de permanência.




