Uma árvore não cai para qualquer lado…

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

Foi no desenho de The Lorax, que escutei essa frase, “a árvore não cai para qualquer lado, ela cai para onde se inclina”, pode parecer uma frase simples, quase infantil, dessas que passam rápidas entre uma cena e outra. Mas algumas frases não acabam quando o filme termina, elas ficam, crescem por dentro e criam raízes. E talvez poucas expliquem tão bem a vida de um professor quanto essa, porque o professor contemporâneo vive inclinado todos os dias.

Inclinado sobre cadernos que ninguém imagina o peso, os planejamentos feitos na madrugada, alunos que chegam carregando mundos inteiros dentro da mochila… ansiedade, abandono, fome, violência, medo, excesso de telas, ausência de diálogo, carência de afeto e uma solidão barulhenta escondida atrás de um celular.

E ainda assim, no dia seguinte, ele entra na sala e diz:
— “Bom dia, turma!”

Como quem acredita que o mundo ainda pode ser salvo às sete da manhã de uma terça-feira.

O problema é que ensinar hoje não é mais apenas ensinar. Professor já não é apenas professor, virou psicólogo improvisado, mediador de conflitos, produtor de conteúdo, animador de plateia, digitador de plataforma, burocrata de planilhas, especialista em tecnologia, conselheiro emocional e, em muitos momentos, o único adulto disposto a ouvir uma criança de verdade.

Enquanto isso, a sociedade continua cobrando resultados como quem cobra números de uma empresa. Notas altas, desempenho, disciplina, inovação, alunos protagonistas, educação emocional, inclusão, enfim, querem tudo. Mas quase ninguém quer saber quem está cuidando de quem ensina.

E é aí que a frase do Lorax ganha outro sentido.

A árvore cai para onde se inclina.

O professor também, se ele se inclina apenas para o peso, desaba, se inclina apenas para a cobrança, endurece, se inclina apenas para sobreviver, esquece por que começou.

Há professores que chegam em casa e permanecem em silêncio por horas porque gastaram toda a voz tentando manter os alunos atentos por cinquenta minutos, outros professores choram dentro do carro antes de entrar na escola e muitos choram depois que saem dela.

Há os que pensaram em desistir e aqueles que desistiram. E os que continuam mesmo cansados, porque descobriram que educar não é profissão para quem está inteiro o tempo todo.

É justamente o contrário, muitas vezes, é um trabalho feito aos pedaços.

O mundo contemporâneo acelerou tudo.
A infância, informação, violência, comparação, esgotamento, mas acabou desacelerando uma coisa essencial, a escuta.

Hoje, um vídeo de quinze segundos prende mais atenção que uma explicação construída com carinho durante horas. O professor disputa espaço com notificações, algoritmos e uma cultura que transformou a pressa em estilo de vida.

E ainda assim tentamos transformar conteúdo em significado, ensinar matemática para quem chegou sem tomar café, leitura para quem nunca viu os pais lendo, respeito em um mundo que banalizou a agressividade.

Tentamos ensinar esperança enquanto estamos cansados, quase desesperançados.

Talvez o maior milagre da educação moderna seja esse, o professor continuar acreditando.

Porque acreditar, hoje, virou ato de resistência na sala que mais parece um campo de batalha.

Conversas paralelas, indisciplina, desinteresse, falta de apoio, projetos interrompidos, salários insuficientes, estruturas precárias, cobranças infinitas.

Mesmo assim, em algum momento da aula, algo acontece. Um aluno entende, outro sorri, um levanta a mão pela primeira vez, outro descobre que consegue.

E naquele pequeno instante, o professor se lembra de que árvores também florescem para o lado em que se inclinam.

É por isso que muitos continuam.

Não pelo reconhecimento, porque ele quase nunca vem, não é pelo salário, porque ele raramente compensa, pelos aplausos muito menos, porque a educação virou um palco onde criticam mais do que agradecem.

Eles continuam porque, apesar de tudo, ainda enxergam um futuro onde muita gente já desistiu de procurar.

O professor vive cercado por contradições, pedem que ele forme cidadãos, mas desvalorizam sua palavra, exigem criatividade, mas entregam exaustão, querem inovação, mas não oferecem tempo nem estrutura, pedem humanidade, mas esquecem que ele também é humano.

E talvez seja exatamente aí que mora sua maior superação.

O professor contemporâneo aprende a florescer mesmo em terrenos secos aprendendo a celebrar pequenas vitórias que quem vê de fora talvez ache pouco, mas quem vive na escola sabe que há batalhas gigantes vencidas em detalhes invisíveis.

A educação nunca mudou o mundo de uma vez, ela muda pessoas e pessoas mudam mundos.

Por isso, a frase continua ecoando… a árvore cai para onde se inclina.

Então cuidado, professor, para onde sua alma está se inclinando.

Incline-se para quem acredita em você, para os alunos que ainda enxergam abrigo na sua voz, para os colegas que seguram sua mão nos corredores, para os pequenos resultados que ninguém vê, para a certeza de que seu trabalho não termina na aula de hoje.

Porque existem adultos que um dia sobreviveram graças a um professor que nem imagina o impacto que teve. Num mundo cada vez mais artificial, veloz e indiferente, talvez o educador seja uma das últimas profissões que ainda trabalha diretamente com esperança.

E esperança também cria raízes mesmo cansada, ferida e em tempos difíceis, porque algumas árvores, antes de cair, decidem crescer.