Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Na terça-feira passada, às 7h12 da manhã, alguns minutos depois do sinal tocar, uma criança vomitou no corredor. Não por doença era por ansiedade.
A inspetora correu atrás de papel-toalha, a merendeira apareceu com um copo d’água, a diretora tentou acalmar a mãe pelo telefone e eu fiquei ali, segurando a mochila do menino como quem segura uma granada emocional prestes a explodir.
Dentro da mochila havia um caderno sem capa, um estojo vazio e um bilhete amassado que dizia: “Professor, ele anda muito nervoso.”
Hoje em dia, pensei, quase todos andam.
A escola virou uma espécie de pronto-socorro da alma brasileira, chegam crianças com fome de comida, fome de atenção, fome de silêncio. Algumas chegam já cansadas e outras chegam aceleradas como se tivessem tomado café com algoritmo.
E nós recebemos todas. Recebemos a menina que dorme às duas da manhã vendo vídeo curto porque a mãe trabalha em dois empregos e ninguém percebeu que infância também precisa de interrupção, o menino que fala gritando porque em casa todo mundo só consegue existir no volume máximo, a criança que nunca ouviu uma história inteira sem alguém interromper com uma notificação.
Outro dia pedi que escrevessem uma frase simples.
“Neste fim de semana, eu…”
Um menino ficou olhando o lápis por quase dez minutos, pensei que fosse dificuldade de escrita, mas, depois percebi que era dificuldade de memória afetiva. Ele nunca tinha tido um final de semana interessante.
A pedagogia da universidade não prepara a gente para certos silêncios.
Na teoria, alfabetizar é apresentar hipóteses de escrita, ampliar repertório linguístico, desenvolver consciência fonológica. Tudo muito bonito nos congressos educacionais com ar-condicionado e coffee break de pão de queijo gourmet.
Agora na prática, alfabetizar às vezes é convencer uma criança de sete anos de que ela merece ser escutada até o fim da frase.
E isso muda tudo, digo isso porque ensinar alguém a ler não é só juntar letras. É dizer, de maneira delicada e persistente que ela existe e que sua voz cabe no mundo.
O problema é que o mundo anda sem paciência para vozes em construção e então a escola vira depósito.
Depósito de ausências, frustrações sociais, depósito emocional de famílias esmagadas pelo cansaço, de políticas públicas que nunca chegaram em fim, depósito daquilo que ninguém mais conseguiu sustentar.
E enquanto isso seguimos ouvindo… “Precisamos melhorar os índices.”
“Precisamos bater as metas.” “Precisamos inovar.”
Inovar virou uma palavra curiosa, geralmente ela significa fazer milagres com internet ruim e crianças emocionalmente quebradas.
Outro dia participei de uma reunião pedagógica sobre “metodologias ativas para potencializar resultados”. Muito interessante, slides lindos, gráficos coloridos. Palavras em inglês circulando pela sala como se resolvessem alguma coisa.
Atualmente temos uma eficiência impressionante no modo como aprendemos a ignorar o colapso.
A verdade é que o professor contemporâneo virou uma espécie de canivete suíço emocional. A gente alfabetiza, separa briga, escuta desabafo, limpa nariz, preenche planilha, identifica sinais de violência, media conflito familiar, aprende três plataformas novas por semestre e ainda precisa sorrir na foto do projeto institucional com o tema “Escola que acolhe”.
Acolhe, uma ação que vem se tornando pesada.
Às vezes a escola acolhe tanto o mundo que sobra pouco espaço para ensinar substantivo próprio, e talvez essa seja a tragédia mais silenciosa da educação atual, o ensinar ter virado detalhe burocrático dentro da própria escola.
Os professores andam cansados de um jeito que não aparece em atestado. É um cansaço simbólico, um desgaste de quem passa o dia tentando costurar humanidade em tecido rasgado.
Tem professor funcionando por pura teimosia.
E ainda assim… acontecem coisas estranhas.
Na quarta-feira, o menino da mochila-granada conseguiu ler sozinho uma palavra inteira.
“Borboleta.”
Leu devagar, como quem atravessa um rio segurando pedras no bolso, a sala inteira ficou em silêncio.
Porque quem vive escola pública sabe, há palavras que pesam mais quando finalmente conseguem nascer.
Eu olhei para ele tentando esconder a emoção pedagógica, essa esperança profissional que nos faz acreditar em milagres pequenos e perguntei:
“Gostou da palavra?”
Ele sorriu de canto e respondeu… “Parece nome de coisa que consegue fugir.”
Fiquei pensando nisso o resto da semana.
Talvez a escola esteja exatamente tentando fugir enquanto pedem que ela carregue cada vez mais peso.
Ou talvez sejamos nós, professores, esses sujeitos estranhos que continuam acendendo fósforos no meio da tempestade, mesmo sabendo que quase ninguém percebe a fumaça.
Porque no fim, entre uma planilha e uma criança chorando no banheiro, entre um protocolo e um caderno rasgado, ainda existe alguém aprendendo a escrever o próprio nome pela primeira vez.
E talvez seja justamente isso que impeça o desabamento completo.
Mas até quando uma escola consegue continuar sendo abrigo de tudo sem deixar de ser lugar de aprendizagem?
E quando a última palavra finalmente se cansar de nascer, quem vai perceber primeiro, a escola ou o país?




