Tecnologia, ciência e preservação histórica

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No Museu de Paleontologia de Fernandópolis, o biólogo Daniel Constantino, o professor e curador Carlos Eduardo Maia de Oliveira e o estudante Paulo Vítor Mazuque Lima - Foto: arquivo pessoal

Ferramenta desenvolvida por Paulo Mazuque, estudante do IFSP Votuporanga, organiza agendamentos, gera relatórios estatísticos, digitaliza parte do acervo científico e amplia o acesso a informações sobre as peças do Museu de Paleontologia de Fernandópolis.


@caroline_leidiane

A produção acadêmica desenvolvida no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP) – Câmpus Votuporanga ganhou aplicação prática no Museu de Paleontologia de Fernandópolis “Cristovão Souza de Oliveira”. Desenvolvido pelo estudante Paulo Vítor Mazuque Lima, do terceiro ano de Bacharelado em Sistemas de Informação, um recurso digital passou a auxiliar a gestão de público da instituição.

Disponível desde 18 de abril, a plataforma centraliza o agendamento de visitas de escolas, universidades, entidades e grupos organizados, substituindo etapas que antes dependiam de registros manuais.

A tecnologia também produz automaticamente gráficos, planilhas e relatórios estatísticos, oferecendo informações que auxiliam a equipe na análise do perfil de frequências e no planejamento de ações futuras.

A iniciativa surgiu dentro do projeto de extensão “Atividades de Extensão em um Museu de Dinossauros”, coordenado pelo professor de biologia Carlos Eduardo Maia de Oliveira, também conhecido como Cadu, que atua como curador do museu.

O que inicialmente foi concebido como uma experiência acadêmica do IFSP Votuporanga acabou se transformando em uma solução prática para atender às demandas que surgiram com a estruturação do museu.

“O que começou como um teste passou a ter impacto direto no dia a dia da instituição, facilitando e agilizando tanto o agendamento quanto o acompanhamento das visitas”, conta Paulo.

Antes da implantação do sistema, parte significativa das informações era registrada manualmente em livros e fichas físicas. O novo modelo permitiu centralizar processos e reduzir etapas operacionais que exigiam levantamento constante de dados. Para Cadu, a mudança trouxe ganhos imediatos para a rotina do museu.

“O sistema é de fácil utilização e bem intuitivo, eliminou um trabalho hercúleo de levantamento de dados em fichas e livros de assinaturas”, avaliou o docente.

Paulo Mazuque durante atividades no Museu de Paleontologia de Fernandópolis – Foto: arquivo pessoal

Um acervo que ultrapassa as paredes do museu

A plataforma criada por Paulo Mazuque vai além da organização administrativa. O projeto inclui um acervo digital que reúne fotografias, vídeos, fichas técnicas e informações científicas sobre as peças expostas, ampliando as possibilidades de pesquisa, consulta e difusão do conhecimento.

Entre os recursos desenvolvidos está a integração de QR Codes instalados junto aos fósseis. Por meio do próprio smartphone, os visitantes podem acessar conteúdos complementares durante o percurso pelo museu.

“Quando o acervo é catalogado digitalmente, ele deixa de existir apenas dentro das paredes do museu e passa a poder ser consultado de qualquer lugar”, destaca Paulo.

A digitalização também trouxe desafios relacionados à gestão de dados. Embora o museu já utilizasse um livro físico para registrar informações dos visitantes, como nome, idade e cidade de origem, o sistema precisou transformar esses registros em informações estruturadas, capazes de gerar relatórios e estatísticas sem comprometer a privacidade do público. O objetivo era criar um fluxo simples para os funcionários e útil para o planejamento das atividades da instituição.

Outro diferencial está na acessibilidade da ferramenta. Toda a plataforma funciona diretamente pelo navegador, sem necessidade de instalação ou equipamentos específicos.

“Quem trabalha no museu só abre o navegador, digita o endereço, faz login e já começa a usar de qualquer tipo de dispositivo”, detalha o estudante.

Quando a Geologia encontra a programação

A construção do sistema também reflete uma trajetória acadêmica pouco comum. Antes de ingressar em Sistemas de Informação, Paulo formou-se em Geologia, experiência que acabou se tornando decisiva para compreender as necessidades científicas do museu.

O conhecimento sobre classificação de fósseis, catalogação e organização de acervos permitiu que ele dialogasse diretamente com pesquisadores e curadores durante o desenvolvimento da plataforma, transformando demandas técnicas em soluções digitais.

“A Geologia me ajudou a entender o que construir, e a SI me ensinou como construir. Foram áreas complementares, não concorrentes”, salienta Mazuque.

Esse olhar interdisciplinar foi fundamental para estruturar um sistema que não se limita à recepção de visitantes, mas também auxilia a curadoria científica do espaço.

O acervo

O Museu de Paleontologia de Fernandópolis “Cristovão Souza de Oliveira” reúne atualmente mais de 180 fósseis de vertebrados, invertebrados e plantas encontrados principalmente no noroeste paulista, além de exemplares provenientes de outras regiões brasileiras.

Entre as peças de maior relevância está um fóssil de Baurusuchus pachecoi, com aproximadamente 80 milhões de anos, descoberto em Fernandópolis e posteriormente estudado na Universidade de Brasília (UnB) antes de retornar à cidade.

Descoberto em Fernandópolis, o fóssil de Baurusuchus pachecoi, com aproximadamente 80 milhões de anos, está entre os principais destaques do acervo do museu – Foto: arquivo pessoal

Tecnologia com impacto regional

O interesse despertado pelo projeto já indica possibilidades que ultrapassam os limites do museu. A Prefeitura de Fernandópolis solicitou estudos para avaliar a adaptação da ferramenta a outros equipamentos culturais do município.

“O sistema foi desenvolvido de forma modular justamente pensando em escalabilidade. A estrutura de agendamentos, fluxo de visitantes, acervo digital e relatórios é bastante genérica e pode ser adaptada para diferentes tipos de instituição”, elucida Paulo.

A possibilidade de expansão inclui bibliotecas, centros culturais, teatros e instituições que necessitam administrar público, organizar acervos e produzir indicadores de atendimento.

“O projeto de extensão pode ter um escopo local, mas o potencial de impacto é muito maior. O fato de o sistema funcionar pelo navegador, sem necessidade de instalação, facilita ainda mais essa expansão”, comemora o autor da plataforma.

A iniciativa demonstra como a tecnologia pode contribuir para a preservação e a difusão do patrimônio histórico, cultural e científico. Desenvolvido em uma instituição pública de ensino e aplicado à rotina de um museu, o projeto evidencia a capacidade da educação de gerar conhecimento com impacto concreto na sociedade.

Nesse encontro entre inovação e memória, ferramentas digitais passam a desempenhar papel estratégico em pesquisa, preservação de acervos e democratização do acesso ao conhecimento.