
O ‘Oscar Ticka Ticka Bum’ transforma histórias do interior em reconhecimento público. Com o tema ‘Doe Vida e Seja Feliz’, o evento idealizado por Waliz Tomenasci chega a mais uma edição em Votuporanga, reunindo homenagens, livro de memórias e um gesto pessoal que amplia o debate sobre doação e ciência.
@caroline_leidiane
Em uma cena que remete ao glamour do cinema, mas desloca o foco para narrativas anônimas, o Oscar Ticka Ticka Bum volta a ocupar o palco cultural de Votuporanga com uma proposta que transborda a própria encenação: transformar vidas reais em histórias dignas de premiação.
Criado há oito anos pelo escritor e radialista Waliz Tomenasci, o evento se consolidou como uma espécie de ritual simbólico de reconhecimento, onde o protagonismo não está na fama, mas na trajetória.
A origem da iniciativa nasce de uma percepção quase intuitiva. Em uma conversa com amigos, Waliz identificou o potencial dramático das histórias locais.
“Eu estava reunido com o cantor Lucas Pessoa e a minha amiga, estudante de Direito, Reginalda Simone. Nós falávamos sobre a importância de homenagear as pessoas, porque a vida de muitas pessoas de Votuporanga e região dava enredo de filme”, recorda ele.
A ideia inicial de registrar essas trajetórias em livro rapidamente se expandiu para um formato mais performático.
“Eu disse: ‘não, tem que ser um Oscar de verdade’. As pessoas precisam se vestir, passar pelo tapete vermelho, receber a estatueta e dizer para quem dedicam aquele prêmio”, explica Tomenasci.
O que começou como uma ação local ganhou dimensão regional ao longo das edições. A presença de nomes como a colunista Cida Caran, o jornalista Roberto Cabrini e a apresentadora Patrícia Poeta ampliou a visibilidade do projeto. Ainda assim, a lógica do evento permanece inalterada: não se trata de prestígio financeiro, mas de densidade narrativa.
“O nosso Oscar não visa a condição financeira das pessoas, mas sim a história delas. Já homenageamos desde serviços gerais até médicos, empresários, comerciários e artistas”, resume o idealizador.
A curadoria das histórias segue um critério deliberadamente subjetivo: o impacto humano. Relatos são ouvidos por um grupo organizador e selecionados pela capacidade de mobilizar, inspirar ou provocar identificação.
É nesse espaço que trajetórias improváveis encontram ressonância pública — como a de participantes que redirecionaram suas vidas após perdas, recomeços ou descobertas tardias.
No palco, o efeito ultrapassa o instante da homenagem. Segundo Waliz, o reconhecimento reverbera de maneira concreta na vida dos participantes.
“A autoestima é uma das principais transformações. Tem gente que nunca tinha recebido uma homenagem na vida. A pessoa passa a reconhecer o valor da própria história”, relata.
Em alguns casos, esse reconhecimento se converte em reposicionamento social — comerciantes exibem o título conquistado, enquanto outros encontram motivação para retomar projetos interrompidos ou reconstruir vínculos afetivos.

As narrativas viabilizadas para o Oscar Ticka Ticka Bum se constroem a partir de uma curadoria que nasce de histórias vinculadas ao interior paulista. As pessoas que serão homenageadas são convidadas a escrever suas tramas pessoais, apresentando quem são, de onde vêm e quais trajetórias as atravessam.
O processo desloca o protagonismo para os participantes e revela verdadeiros longas metragens que dificilmente ganhariam visibilidade em circuitos culturais centralizados.
“Nós fazemos as pessoas se tornarem escritoras de suas próprias histórias”, afirma Waliz.
Esses relatos não se encerram no palco. Após cada edição, os homenageados passam a integrar uma publicação — que neste ano leva o título “Os Expoentes: Oscar Ticka Ticka Bum”. O método parte de uma lógica de fidelidade radical ao relato original.
“O livro é um registro fiel das histórias. É como se fossem cartas — elas contam quem são, e o livro nasce a partir disso. Eu faço apenas ajustes básicos, mas preservo a essência”, descreve Tomenasci.
A programação desta edição amplia o caráter simbólico do evento. Um desfile assinado pela Layde Alta Costura incorpora visualmente o tema do ano, enquanto homenagens póstumas introduzem uma dimensão de memória coletiva. Entre os nomes lembrados, está a madrinha in memoriam, dona Isaura Ribeiro Pinto, reconhecida por sua contribuição ao projeto.
Do corpo à causa: a doação como gesto público
Se a identidade do Oscar Ticka Ticka Bum está na valorização das histórias, a edição deste ano incorpora um elemento que desloca o evento para o campo da intervenção social.
Durante a cerimônia, Waliz oficializa a decisão de doar o próprio corpo para estudos científicos, em parceria com a Unifev – Centro Universitário de Votuporanga.
A escolha está diretamente ligada a uma experiência pessoal marcada pela frustração no sistema de saúde. Após anos na fila por um transplante de córnea, ele não conseguiu realizar o procedimento.
“Fiquei esperando muito tempo e acabei desistindo”, relata.
A decisão, no entanto, não se limita a um gesto individual. Ela estrutura o eixo conceitual do evento, sintetizado no tema “Doe Vida e Seja Feliz”. Para Waliz, a doação ultrapassa o campo biológico e assume um sentido ampliado de solidariedade.
“Quero que as pessoas doem vida — não só órgãos ou corpo, mas tempo, atenção, cuidado”, afirma.
Ao transformar a própria experiência em narrativa pública, o idealizador tensiona questões relacionadas ao acesso à saúde, à formação médica e ao papel da ciência na transformação social.
“Eu estou doando o meu corpo para a ciência, mas cada um pode doar aquilo que tem. Não precisa ser dinheiro. Se com a minha morte eu puder contribuir para curas e avanços, isso já me faz feliz”, diz, sintetizando a temática.
A realização do Oscar Ticka Ticka Bum é de Waliz Tomenasci com coapresentação de Bruno Borges e Juliana Moraes. O evento tem como patrono o vereador Jean Dornelas, enquanto a madrinha desta edição é dona Isaura Ribeiro Pinto, homenageada in memoriam. Também participam como paraninfos o engenheiro Marcelo Zeitune e a dentista Dra. Milena. O casal anfitrião será Toninho Figueiredo e Maria Cantoria Figueiredo, com apoio do prefeito Jorge Seba, do vice Torrinha, do presidente da Câmara, Daniel David, e da primeira-dama Rose Seba. A cerimônia é aberta ao público.
8ª edição do Oscar Ticka Ticka Bum
- Data: terça-feira (5), às 19h
- Local: sala de cinema do Parque da Cultura
- Entrada gratuita




