O MAIOR LADRÃO DO TEMPO É A ESPERA
O maior ladrão do tempo não é o relógio. É a espera.
Essa mania elegante de empurrar com a barriga, de adiar a vida enquanto chamamos o medo de “prudência”. A gente diz: quando tiver mais dinheiro, mais preparo, mais certeza, mais fé, quando o medo sair de férias. Só que o medo não tira férias. Ele faz plantão.
Enquanto esperamos o cenário ideal, o tempo não espera. Ele passa, passa rápido e sem pedir licença. A procrastinação é educada, fala baixo, senta-se ao nosso lado e cochicha: “Calma, pensa melhor.” Mas, na maioria das vezes, isso é só o medo usando gravata e tentando parecer responsável.
Existe uma verdade libertadora: errar tentando dói menos do que se arrepender por nunca ter tentado. Quem age pode cair, mas quem espera demais cria raiz no lugar errado. A espera infinita vira zona de conforto disfarçada de sabedoria. E conforto demais, a longo prazo, vira prisão.
Coragem não é ausência de medo; é decidir apesar dele. Talvez hoje não seja o dia perfeito, mas é o dia real. E a vida acontece aqui, não no “depois”.
“Para tudo há um tempo determinado.” (Eclesiastes 3,1)
RECALCULANDO A ROTA
Esses dias, indo para um evento numa cidade que eu nunca tinha visitado, liguei o GPS. Confiança total. Depois de uns cinquenta quilômetros, ele avisou: caminho errado. E o mais interessante não foi o erro, foi a reação. O GPS não disse: “Você errou, acabou, volte pra casa, fracassou.” Não. Ele disse, com serenidade quase pastoral: “Recalculando a rota.”
Duas palavrinhas que são uma aula espiritual. Na vida, a gente vai errar caminhos, escolhas, pessoas e até intenções. Errar não é exceção, é parte do trajeto. O problema não é errar; é transformar o erro em ponto final, quando ele deveria ser apenas um ponto-e-vírgula.
Recalcular é reconhecer, ajustar e continuar. Não é negar o erro nem o romantizar. É respirar fundo, aceitar o desvio, aceitar a nova rota, e seguir. Deus não cancela a viagem porque você errou uma saída. Ele também recalcula, e melhor como o GPS, traça novamente o caminho certo.
Tenha essa grandeza: olhar para a própria história e dizer, com coragem teimosa e fé insistente: errei, mas não desisto da viagem da vida.
“O justo cai sete vezes, mas torna a levantar-se.” (Provérbios 24,16)
AH, EU SOU DIFÍCIL MESMO
Tem gente que diz até com certo ar de orgulho: “Ah, eu sou difícil mesmo.” Fala como quem assina um manifesto: o mundo que se adapte. A pessoa conhece seus limites, seus defeitos, suas arestas, mas trata tudo como se fosse charme de personalidade.
Existe uma contradição curiosa aí. Diz que não muda para preservar a autenticidade, mas no fundo é medo de se encarar a realidade e receio de errar ao se dispor a mudar. Eu sei, mudar dá trabalho. Mudar exige humildade. E humildade não combina com o ego inflado.
O problema é que quem insiste em ser “difícil mesmo” acaba sendo difícil de conviver, difícil de escutar e, principalmente, difícil de evoluir. É uma resistência embrulhada num pacote de orgulho e autoengano.
Admitir limites não diminui ninguém. Pelo contrário, amadurece. Admitir e mudar é como abrir a janela de uma casa abafada: o ar entra, a luz revela, e a alma respira. Mais difícil do que mudar, é viver preso numa versão antiga de si mesmo achando que isso é virtude.
“Criai em mim, ó Deus, um coração puro.” (Salmo 50,12)
PODER E NÃO FAZER: PIOR DO QUE NÃO PODER
É difícil quando a gente quer e não consegue. Isso dói, frustra, humilha o ego. Mas sabe o que é pior? Poder e não fazer.
Quem não pode sofre pelo limite. Quem pode e não faz sofre pela escolha.
Poder e não fazer corrói a alma aos poucos. É a dor silenciosa do talento guardado na gaveta, do pedido de perdão engasgado no orgulho, do abraço adiado, da palavra que nunca foi dita. O medo sempre ganha por W.O.
O adiamento constante parece inofensivo, mas uma hora grita. E quando a gente percebe, o “amanhã” virou “depois”, e o “depois” virou “nunca”. Deus não cobra de nós o impossível, mas não deixa de perguntar o óbvio: por que você não fez o que podia?
O peso maior nem sempre e pela falta de oportunidade, mas pelo excesso de desculpas.
“A quem muito foi dado, muito será pedido.” (Lucas 12,48)
DA FOME DO CORPO À FOME DA ALMA
O uso de drogas não é algo novo. Séculos antes de Cristo já existiam relatos ligados a rituais místicos e religiosos, que faziam uso de substâncias alucinógenas. Mas o grande boom aconteceu quando a droga deixou de ser rito e passou a ser mercadoria. Lucro acima da vida.
Nos anos 90, a principal droga entre adolescentes e crianças pobres era a cola de sapateiro. Por uma lógica cruel: a cola inibia a fome. Lembro de crianças na Praça da Sé cheirando cola porque não tinham o que comer. Era fome no estômago.
Hoje a fome mudou de lugar. As drogas prometem prazer, anestesia, fuga. Já não enganam apenas estômagos vazios, mas almas vazias. É fome de sentido, de pertencimento, de limite, de amor. Uma busca desesperada por prazer tentando preencher um buraco que não é químico, é existencial.
A fome da alma não se resolve com prazer, mas com presença. E essa presença tem nome, Deus.
“Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim jamais terá fome.” (João 6,35)
Por: Carlinhos Marques
Presidente Fundador Instituto Novo Sinai, idealizador projeto “Sobriedade Já”
@novosinai
@carlinhosmarques_novosinai
www.novosinai.org.br




