
Bebê nasce em menos de duas horas após entrada na Santa Casa de Votuporanga, em parto natural que evidencia a escolha da mãe e reacende o debate sobre a predominância das cesarianas no Brasil.
@caroline_leidiane
O dia 10 de março amanheceu especial para a família de Jaqueline Alves, de 38 anos. Moradora de Sebastianópolis do Sul, ela celebrou a chegada da pequena Ivy Alves Barbosa, nascida na Santa Casa de Votuporanga, com 3,080 kg e 47 centímetros, em um parto natural rápido, conduzido no tempo do próprio corpo.
As primeiras contrações começaram ainda na madrugada. Pouco antes das 2h, Jaqueline deu entrada na unidade hospitalar já na fase ativa do trabalho de parto. “Cheguei na Santa Casa com seis a sete dedos de dilatação”, relata.
Seguindo orientação médica, ela caminhou e utilizou o chuveiro para auxiliar a evolução do trabalho de parto. A água morna ajuda no relaxamento e no alívio da dor, contribuindo para o conforto e favorecendo a progressão natural das contrações.
O nascimento aconteceu menos de duas horas após a chegada ao hospital. “Fiquei no chuveiro por cerca de 30 a 40 minutos, até o momento do nascimento. Foi rápido e intenso”, afirma.
Ivy nasceu às 3h50, em um parto natural realizado no próprio ambiente do quarto PPP (Pré, Parto e Pós-parto), com acompanhamento da equipe de enfermagem, incluindo a enfermeira Rainéria Souza, que auxiliou no parto, e a profissional James Oliveira, amiga da família, que, por estar de plantão naquele momento, acompanhou os primeiros cuidados com a recém-nascida.
“Fui muito bem atendida pela equipe da Santa Casa de Votuporanga, que foi maravilhosa, e isso torna aquele momento delicado, intenso e especial um pouco mais leve”, destaca ela, que torcia para que a filha nascesse durante o plantão da amiga.
Mãe de Júlia, de três anos, Jaqueline já havia optado pelo parto natural na gestação anterior e manteve a escolha nesta gravidez.
“Penso que é uma forma menos invasiva para a mulher e que proporciona melhor recuperação após o parto. Tive boas experiências nos dois partos e indico para quem tem a possibilidade de vivenciar esse momento único”, afirma.
A trajetória da maternidade também é atravessada por desafios. Antes do nascimento das filhas, Jaqueline enfrentou a perda de um bebê na primeira gestação, o que torna a chegada de Ivy ainda mais significativa para a família.
O cenário do parto no Brasil
A experiência de Jaqueline acontece em um contexto nacional em que o parto cirúrgico se tornou predominante. Dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, apontam que cerca de 60% dos partos no Brasil são cesarianas. O índice está muito acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que orienta taxas entre 10% e 15% quando há indicação médica.
Os números também se refletem na realidade local. Na Santa Casa de Votuporanga, levantamento aponta que, entre janeiro e fevereiro de 2026, dos 335 partos realizados, 273 foram cesarianas — proporção que supera a média nacional e evidencia a predominância dos procedimentos cirúrgicos.
Diante desse panorama, relatos como o de Jaqueline reacendem a importância do acesso à informação e ao cuidado adequado durante a gestação. Ela realizou o pré-natal pelo sistema público de saúde em Sebastianópolis do Sul, com a médica Fernanda Christie, e também participou do grupo de gestantes do Cras do município — fatores que contribuíram para mais segurança ao longo de todo o processo.
Para a mãe, embora reconheça que cada caso exige uma avaliação individual, o parto natural pode ser uma alternativa positiva quando há condições favoráveis.
“É uma dor que você sente naquele momento e, após, você já está firme e ativa. Já na cesárea, você pode não sentir dor no parto, mas sim depois, quando a recuperação pode ser mais difícil. Mas, claro, há casos e casos”, pondera.
A recuperação rápida permitiu que Jaqueline recebesse alta já no dia seguinte ao nascimento. De volta para casa, ela inicia uma nova fase ao lado das duas filhas e do marido, Valter Ezequiel, com o sentimento de que a família agora está completa.
As formas de nascer
O parto natural, o parto normal e a cesariana são formas distintas de nascimento, cada uma com suas particularidades.
O parto natural ocorre sem o uso de intervenções médicas, como anestesia ou medicamentos para indução, respeitando o tempo do corpo da mulher e o ritmo do bebê.
Já o parto normal é o termo mais amplo para o nascimento por via vaginal, podendo incluir recursos como analgesia e o uso de ocitocina para auxiliar na condução do trabalho de parto.
A cesariana, por sua vez, é um procedimento cirúrgico indicado em situações específicas, quando há riscos para a mãe ou para o bebê, embora, no Brasil, tenha se tornado frequente mesmo sem necessidade clínica.
A escolha do tipo de parto deve considerar as condições de saúde, a orientação médica e, sempre que possível, o desejo da gestante, garantindo segurança e respeito ao processo de nascimento.




