Psicóloga do SanSaúde relata sobre as consequências de um ano de pandemia

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Analine Gomes explicou o que são transtornos mentais, suas implicações e quando pedir ajuda.


A pandemia do Coronavírus completou um ano. E como ficam as emoções? Controladas? Você está ansioso? Com medo? Deprimido? Preocupado? Neste período, muita coisa aconteceu e é impossível ficar inerte a tudo isso. Mudança na rotina, isolamento social, permanecer em casa, sem conviver com os demais. Mais do que isso, lidar com o luto, com a doença.

Infelizmente, você perdeu ou conhece alguém que morreu de COVID-19. A rápida disseminação do Coronavírus por todo o mundo, as incertezas sobre como controlar a doença e sobre sua gravidade, além da imprevisibilidade acerca do tempo de duração da pandemia e dos seus desdobramentos, bem como a expectativa de cura caracterizam-se como fatores de risco à saúde mental da população em geral. 

A psicóloga do SanSaúde, Analine Pereira da Silva Gomes, deu algumas dicas valiosas, entre elas, de estimular compartilhamentos positivos, exemplos de solidariedade de determinados grupos, seja do bairro, cidades de outros municípios, estados ou países. “Essas informações aumentam o sentimento de esperança e o enxergar o lado bom a vida!”, afirmou. 

Analine contou que a forma como cada pessoa responde às situações de extremo estresse depende de características individuais, tais como sexo, idade, histórico de doenças crônicas e/ou de transtornos mentais, crenças, traços de personalidade, além de fatores sociais, como renda familiar, acesso a serviços, quantidade de pessoas com quem convive, suporte social e a própria história de vida. 

Transtornos mentais 

São um conjunto de interações entre vulnerabilidades biológicas, que têm alta determinação genética, e fatores ambientais.  “O intenso estresse pelo risco da infecção pela COVID-19 está associado ao aumento e ou agravamento dos transtornos mentais mais comuns como ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, transtorno bipolar, transtorno obsessivo compulsivo, esquizofrenia, transtornos alimentares, somatização, dentre outros. Contudo, pacientes previamente diagnosticados podem ser os mais afetados na pandemia”, afirmou. 

A presença ou agravamento de transtornos mentais exige uma avaliação diagnóstica criteriosa baseado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e Classificação Internacional de Doenças (CID-11), bem como acompanhamento terapêutico com Psicólogo e tratamento medicamentoso com Psiquiatra. 

Estudos sobre implicações da pandemia 

Embora ainda escassos, por se tratar de fenômeno recente, pesquisas apontam para repercussões negativas importantes. Alguns sobreviventes relataram medo de morrer, de infectar outras pessoas, de se afastar ou sofrer abandono nas relações com familiares e amigos, bem como estigmatização social. “Já os profissionais da saúde, por outro lado, reportaram sobretudo medo de contrair a doença e, ainda, transmiti-la a seus familiares, bem como sofrimento por estarem afastados de seus lares, estresse, sensação de perda de controle e de desvalorização, além de preocupação com os recursos da saúde pública e o tempo de duração da pandemia”, disse. 

Alguns quadros comuns frente a suspeição da doença por possível contágio ou medidas de proteção são: 

 – Sintomas obsessivo-compulsivos, como a verificação repetida da temperatura corporal, necessidade de comprar produtos para estoque, uso constante do álcool em gel mesmo estando em casa quando se pode utilizar água e sabão; 

 – A ansiedade em relação à saúde também pode provocar interpretação equivocada das sensações corporais, fazendo com que as pessoas se confundam com sinais da doença e se dirijam desnecessariamente a serviços hospitalares; 

 – Depressão pelas medidas de isolamento de casos suspeitos, medo de contagiar outros e de julgamentos, fechamento de escolas, universidades, comércio; distanciamento social de idosos e outros grupos de risco; 

 – Outro importante estressor que ocasiona muita tristeza e ansiedade pela quarentena são as diminuições das conexões face a face, interações sociais rotineiras e o senso de liberdade de forma geral; 

Quando é hora de pedir ajuda? 

Analine reforçou que é preciso procurar ajuda sempre que houver emoções e/ou pensamentos descompassados, persistentes e intensos tais como, medo constante de ser contaminado ou de morrer, perder as pessoas próximas, reações fisiológicas tais como choro sem aparente motivo, taquicardia, sudorese, intestino funcionando fora do ritmo, formigamento em alguma parte do corpo, sensação de gelo, angústia/sufocamento; comportamentos repetitivos, dentre outros podem caracterizar alguns sinais de alerta. Lembrando que não precisa esperar os sintomas se agravarem ou intensificarem para procurar ajuda de um profissional.

Luto 

Uma das consequências é o grande número de pessoas sofrendo a perda de parentes e amigos e, muitas vezes, são simultâneas. “Embora a morte é um processo natural da vida, nesse contexto, a discussão sobre o luto ganha especial relevância e recomenda-se uma abordagem preventiva e muito cuidadosa, uma vez que os rituais de despedida são extremamente importantes para elaboração do luto saudável, bem como o suporte social, e ambos estão limitados pela situação imposta pela pandemia”, ressaltou. 

Os cuidados podem se iniciar, primeiramente, ao identificar os pacientes em risco de deterioração. “Deve-se sempre haver suporte para os familiares antes, durante e após a perda, para prepará-los sobre a situação real de saúde do seu familiar/ente querido, e para acolher as reações emocionais frente a dor. Um contato posterior, por vídeo ou telefone, seria recomendável. O aspecto mais importante é assegurar a possibilidade de contar com um suporte e acolhimento ao longo do processo, e que apesar da dor, essa pessoa ou grupo familiar não está sozinha”, frisou. 

O que fazer no lockdown? 

  • Estruturar rotinas diárias equilibradas entre demandas de trabalho, estudo e momentos prazerosos e gratificantes;
  • Estabelecer hábitos saudáveis, considerando medidas de higiene do sono e boa alimentação;
  • Organizar rotina de atividade física em casa;  
  • Reduzir exposição excessiva a notícias, ou mesmo conteúdo em redes sociais, que causam medo, ansiedade ou sofrimento;  
  • Não se isole, mantenha-se sempre em contato por telefone, videochamadas ou redes sociais com familiares e amigos;  
  • Fale sobre o que você está sentindo e pensando;
  • Manter relações sociais e conexões com rede de apoio, tais como familiares, amigos, grupos religiosos, profissionais que validem suas emoções e favoreçam o sentimento de pertencimento, esperança e bem-estar;
  • Tente entender o que você pode ou não controlar;  
  • Buscar reconhecer os próprios limites, procurar ajuda quando necessário, e aceitar de forma realista aquelas situações que não podem ser modificadas;
  • Perceba no que a sua situação difere da condição dos outros;
  • Respeite o tempo de ficar em casa e também quando for possível, respeite também a sua retomada, cada um tem seu tempo. Entenda quais pensamentos, emoções e reações comportamentais você está tendo;
  • Preocupar-se é normal, se acolha, valide suas reações emocionais;
  • Evitar a automedicação ou o uso exagerado de ansiolíticos;  
  • Introduzir práticas de relaxamento ou meditação