Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Antes de começar o conselho de classe, alguém sempre pergunta se o café está pronto.
É curioso.
Passamos meses discutindo aprendizagem, desenvolvimento, habilidades, competências, avaliações diagnósticas, intervenções pedagógicas e planos de recuperação. Mas, quando chega o fim do bimestre, o que realmente sustenta a escola parece ser o café, talvez porque ele seja a única coisa que ainda consegue ser quente em meio a tanta cobrança.
Nesta semana, minha mesa desapareceu, foi soterrada. Primeiro vieram as provas, depois os relatórios, em seguida, as planilhas, mais tarde, os formulários e , por fim, aqueles sistemas digitais que prometem facilitar a vida do professor com a mesma eficiência de um guarda-chuva feito de papel.
Entre uma tela e outra, encontrei uma pilha de avaliações esperando correção, foi ali que a pergunta apareceu:
– Será que estou corrigindo provas ou corrigindo expectativas?
Peguei a avaliação de um menino que conheço bem, na questão de interpretação, a resposta estava errada, objetivamente errada.
O gabarito não perdoaria.
Mas eu me lembrei de que aquele mesmo menino havia chegado atrasado quase todos os dias daquele mês porque acompanha a irmã até a outra escola antes de chegar até a escola que ele estuda, lembrei que ele divide um único celular com três irmãos e que, na semana da prova, faltou porque precisou cuidar da irmã menor.
A resposta estava errada, mas, vida ao redor dela, porém, parecia explicar muita coisa.
Mais algumas folhas e encontrei uma aluna que havia deixado metade da prova em branco.
Meses atrás, ela chorava ao tentar escrever o próprio nome, agora conseguia registrar frases inteiras. A nota seria baixa, mas a travessia tinha sido gigantesca.
E então percebi algo desconfortável que me incomodou muito, as provas são um espelho rachado.
Mostrava fragmentos, nunca a criança inteira, tinha o resultado, mas, escondia o percurso, fazia o registrava o ponto de chegada ignorando os quilômetros percorridos.
Enquanto isso, os relatórios aguardavam preenchimento.
Existe uma beleza involuntária nos relatórios escolares, pois, é uma tentativa sem fim de encaixar seres humanos em quadradinhos, transformando descobertas em indicadores.
Traduzimos medos, avanços, inseguranças e sonhos em frases objetivas.
“O aluno apresenta avanços parciais”, ou “necessita ampliar estratégias” e ainda “encontra-se em processo de consolidação.”
Às vezes imagino um extraterrestre lendo nossos documentos pedagógicos, provavelmente concluiria que as crianças são máquinas com pequenos defeitos de fabricação.
A verdade é que nenhuma planilha consegue registrar a menina que finalmente levantou a mão depois de meses em silêncio, nenhum gráfico mostra o garoto que aprendeu a dividir depois de acreditar que era incapaz e nenhuma porcentagem consegue medir o tamanho da coragem necessária para algumas crianças simplesmente chegarem à escola.
Mas seguimos preenchendo.
Porque os prazos também precisam ser alimentados e logo chega o conselho de classe, um ritual curioso da vida escolar.
Sentamos ao redor de uma mesa para discutir trajetórias humanas enquanto observamos números.
Às vezes ele parece uma reunião pedagógica, outras vezes lembra um tribunal de expectativas.
Ali comparecem todos os fantasmas, metas da secretaria, cobranças da gestão, expectativas das famílias, promessas dos documentos oficiais e, silenciosamente, as frustrações dos professores.
Porque ninguém entra numa sala de aula para fracassar.
Ninguém dedica horas planejando atividades esperando que elas não funcionem, muito menos escolhe ensinar porque gosta de colecionar derrotas.
Mas há dias em que o resultado não chega.
Há crianças que avançam milímetros quando o sistema exige quilômetros e os professores remando contra tempestades enquanto recebem ordens para manter o barco impecavelmente pintado.
E isso cansa.
Cansa de um jeito que se torna um desgaste invisível, um adoecimento simbólico e uma sensação permanente de que nunca foi suficiente.
De que sempre falta uma intervenção, uma estratégia, um registro, uma evidência, uma justificativa.
Enquanto isso, a vida continua entrando pela porta da sala de aula sem pedir autorização, entra na mochila rasgada, no caderno incompleto, na fome escondida, no sono acumulado, na ausência dos pais que trabalham o dia inteiro…
No excesso de telas que oferecem estímulos infinitos e concentração cada vez mais rara.
Entra antes mesmo do primeiro sinal tocar e, muitas vezes, chega antes da aprendizagem.
A teoria educacional costuma ser elegante, nos livros, os processos parecem organizados as sequências didáticas funcionam, os tempos são respeitados, as intervenções acontecem no momento exato.
Na escola real, porém, a alfabetização acontece enquanto alguém chora, outro se distrai, um terceiro falta e o professor tenta equilibrar afeto, currículo, burocracia e esperança.
Ainda assim, insistimos.
Talvez porque ensinar seja uma forma sofisticada de acreditar quando os números não ajudam e os gráficos decepcionam, quando os resultados chegam menores do que os sonhos.
Acreditar porque alguém precisa continuar enxergando possibilidades onde o mundo só vê estatísticas.
Agora é noite e a escola está silenciosa. Sobre a mesa resta a última prova, fecho a pasta e antes de guardar os papéis, meus olhos param sobre um nome escrito no canto da folha.
A letra ainda é insegura e torta em alguns traços.
Bonita justamente por isso.
Fico pensando que passamos boa parte da vida escolar tentando medir o quanto as crianças alcançaram nossas expectativas.
Mas raramente paramos para perguntar se nós conseguimos alcançar as delas.
E, enquanto apago a luz da sala e levo para casa mais uma pasta cheia de números, relatórios e dúvidas, uma pergunta permanece sentada na cadeira ao lado…
Quando uma criança não alcança aquilo que esperávamos dela, será que conseguimos perceber tudo aquilo que ela esperava de nós?




