Alberto Martins Cesário, professor e escritor
@alberto.prof
Há um instante curioso na vida de todo professor que muitas vezes acontece antes do primeiro “bom dia”, antes da chamada, antes mesmo da caneta tocar a lousa. É aquele momento em que atravessamos o portão da escola carregando uma pasta cheia de planos e uma convicção que não costumamos falar, mas pensamos… hoje eu vou ensinar alguma coisa.
É um pensamento bonito e perigosamente ingênuo.
Naquele dia, entrei na sala com objetivos definidos, atividades alinhadas, perguntas estrategicamente pensadas para despertar a curiosidade da turma, sabe aquele planejamento que pedagogia aprovaria, a coordenação sorriria e até dá um arrepio no ego do professor, mas, esqueci de combinar tudo isso com a realidade.
Porque a realidade raramente consulta nosso plano de aula. Enquanto eu organizava o material, um aluno entrou cabisbaixo, não era o menino elétrico que costumava transformar a cadeira em trampolim olímpico, sentou-se em silêncio, olhando para a mochila como quem carregava um peso que nem o ser humano mais forte do mundo conseguiria carregar.
Perguntei se estava tudo bem, e, ainda cabisbaixo, respondeu:
— Hoje meu pai foi embora.
Não havia habilidade prevista na BNCC para aquele momento, também não encontrei, em nenhuma página do planejamento, uma sequência didática intitulada “Como acolher um coração de oito anos”.
Respirei, a aula de Ciências esperou, pois, naquele momento a vida pediu prioridade.
Os outros alunos perceberam o silêncio diferente e uma menina se aproximou discretamente e colocou metade do seu lanche sobre a mesa dele.
Outro mudou de lugar sem que ninguém pedisse, um terceiro, que vivia colecionando advertências por conversar demais, permaneceu calado durante toda a manhã.
Nenhuma dessas atitudes estava prevista no meu plano e, no entanto, poucas vezes vi uma turma aprender tanto sobre humanidade.
Há quem diga que professor ensina conteúdo.
Discordo.
Conteúdo, qualquer livro explica, professor tenta ensinar pessoas e o mais curioso é que são justamente as pessoas que insistem em ensinar o professor.
Demorei anos para perceber isso por achar que minha autoridade vinha das respostas que eu possuía. Hoje suspeito que ela nasce, sobretudo, das perguntas que ainda tenho coragem de fazer.
As crianças possuem uma estranha habilidade de desmontar nossas certezas sem levantar a voz, elas não fazem isso por rebeldia.
Fazem porque ainda enxergam o mundo sem o excesso de concreto que os adultos usam para cimentar suas convicções.
Outro dia uma aluna perguntou:
— Professor… adulto também chora escondido?
Sorri um daqueles sorrisos que servem apenas para ganhar tempo. Respondi qualquer coisa.
Mas passei a semana inteira tentando responder para mim mesmo.
Existe uma pedagogia silenciosa acontecendo todos os dias dentro da escola que não aparece nas avaliações externas. Ela acontece quando um estudante divide o único biscoito que trouxe e outro pede desculpas sem ser obrigado.
Quando uma criança percebe a tristeza estampada no rosto do professor e pergunta baixinho:
— Hoje o senhor está precisando de um abraço?
Nenhuma universidade prepara alguém para ouvir isso sem estremecer, porque costumamos acreditar que somos nós quem moldamos nossos alunos.
Talvez seja verdade.
Mas esquecemos que, enquanto moldamos, também somos moldados e que uma sala de aula nunca foi uma via de mão única.
Sala de aula é uma ponte onde quem atravessa por ela leva alguma coisa e quem volta nunca retorna exatamente igual.
Os documentos oficiais descrevem competências, as crianças revelam consciências. Currículos organizam conteúdo, mas alunos reorganizam pessoas.
E talvez seja por isso que ensinar seja tão cansativo. Não porque exige explicar frações, interpretar textos ou corrigir provas.
Mas porque obriga o adulto a permanecer aprendendo e aprender, depois de certa idade, dói um pouco.
Exige desmontar vaidades, revisar certezas e aceitar que um menino de oito anos pode oferecer uma lição que nenhum congresso educacional foi capaz de apresentar.
Na saída daquele dia, encontrei aquele aluno novamente que agora sorria. Correu para brincar antes que o sinal encerrasse o recreio.
Olhei meu planejamento intacto sobre a mesa, para variar, nenhuma atividade havia sido concluída, nenhuma meta havia sido cumprida, mas, ainda assim, saí da escola com a estranha sensação de ter vivido uma das aulas mais importantes da minha carreira.
Desde então, desconfio de quem acredita que professor entra na sala apenas para ensinar.
Talvez entremos todos os dias carregando livros sem perceber que, em alguma carteira do fundo, já existe um pequeno mestre esperando pacientemente pela nossa primeira lição de humildade.
E você… se pudesse revisitar todas as aulas que julgou ter dado, teria coragem de descobrir em quantas delas foi, na verdade, o aluno?





