
Após remodelação viabilizada pelo ProAC, Museu Municipal ‘Edward Coruripe Costa’ reabre com nova expografia, recursos de acessibilidade e acervo reorganizado; durante o Fliv, espaço funciona até as 21h.
@caroline_leidiane
A história de Votuporanga ganhou, no último sábado, 8 de agosto, um novo modo de ser apresentada ao público. No dia em que o município completou 89 anos, o Museu Municipal “Edward Coruripe Costa” foi reaberto após passar por uma ampla e inédita remodelação, que alterou a expografia, reorganizou o acervo, revisou a narrativa histórica e incorporou recursos de acessibilidade e tecnologia.
Instalado no último piso do Centro de Cultura e Turismo “Marão Abdo Alfagali”, no Parque da Cultura, o museu passa a apresentar uma leitura repaginada sobre a formação e o desenvolvimento do município. A proposta foi concebida para aproximar o visitante de diferentes dimensões da história local, incluindo personagens, grupos, objetos e experiências que nem sempre estiveram representados nas exposições anteriores.
O projeto de requalificação da área expositiva foi viabilizado por recursos do Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo (ProAC), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas.
A iniciativa é a terceira aprovada pelo programa em benefício do Museu Municipal. Antes da reformulação da exposição permanente, outros dois projetos foram executados. O primeiro organizou tecnicamente a reserva do acervo; o segundo resultou no diagnóstico e no Plano Museológico da instituição.
A solenidade de reabertura reuniu autoridades, representantes de instituições culturais e convidados. O prefeito Jorge Seba participou do ato acompanhado da primeira-dama e presidente do Fundo Social de Solidariedade, Rose Seba, e do vice-prefeito Luiz Torrinha.
A secretária de Cultura e Turismo, Janaina Silva, destacou o papel da instituição na preservação da história do município e agradeceu à equipe responsável pela remodelação.
O grupo multidisciplinar foi coordenada pela museóloga e produtora cultural Petúlia dos Santos Nogueira e contou com profissionais das áreas de história, museologia, conservação e restauração, arte-educação, montagem e administração.
Em carta enviada de Manaus, Edward Costa Junior, filho do patrono, participou simbolicamente da cerimônia e relatou a relação afetiva do pai com Votuporanga. Edward Coruripe Costa viveu na cidade, onde trabalhou como chefe de gabinete de diferentes prefeitos, construiu relações pessoais e participou da comunidade. Também registrou parte dessa experiência em livros.
A cerimônia contou ainda com a presença de Carlos Henrique Ferreira, representando o secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, Jorge Lima; dos vereadores Marcão Braz e Glauber Lima; dos representantes do Comtur (Conselho Municipal de Turismo) e do Comdephaact (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico, Cultural, Turístico e Natural de Votuporanga), Alexandre Miotto e Flávio do Val; do diretor regional do Sesc São Paulo e patrono do Fliv 2026, Luiz Galina; e do escritor Reynaldo Damazio, curador do festival.

Uma exposição construída a partir da pesquisa
Para Petúlia Nogueira, que atua há duas décadas no setor cultural e tem experiência em museus e projetos de alcance nacional e internacional, a remodelação não pode ser compreendida apenas como uma intervenção no espaço físico. O trabalho envolveu pesquisa, documentação, seleção e interpretação de um acervo formado por milhares de itens e, consequentemente, decisões sobre como a cidade seria apresentada ao visitante.
A inerente ausência de uma equipe técnica permanente no Museu Municipal esteve entre os obstáculos enfrentados durante o projeto. Segundo Petúlia, essa condição concentrou responsabilidades e exigiu uma atuação intensa em diferentes frentes.
O projeto também encontrou dificuldades para contratar profissionais e empresas locais para etapas específicas da montagem, especialmente marcenaria e serralheria. De acordo com a museóloga, a disponibilidade limitada de prestadores e os valores apresentados pelo mercado, em alguns casos superiores ao orçamento previsto, exigiram adaptações e negociações para manter a execução dentro das condições estabelecidas.
O próprio acervo apresentou questões que ultrapassavam a organização física das peças. A coleção reúne fotografias, documentos, objetos de trabalho, utensílios domésticos e outros registros da vida votuporanguense, mas parte desse material ainda precisava ser identificada, catalogada e contextualizada.
“O acervo é amplo e muito interessante, mas boa parte de sua coleta não foi estruturada conforme critérios museológicos, o que dificulta a identificação e a contextualização de vários objetos”, explicou a coordenadora durante o processo de requalificação.
A revisão da narrativa também levou a equipe a ampliar o olhar sobre a formação do município. A proposta passou a considerar diferentes grupos, trajetórias e experiências, além dos personagens e acontecimentos tradicionalmente associados à história local.
Essa escolha, conforme Petúlia, envolve uma responsabilidade particular para quem trabalha com museus. “Um museu não é apenas um espaço onde objetos são expostos; ele também participa diretamente da construção da memória e da maneira como uma comunidade compreende a própria história”, enfatiza.
Foi a partir dessa perspectiva que a equipe avaliou quais histórias deveriam ser apresentadas, quais personagens e objetos poderiam representar determinados períodos e como estabelecer relações entre diferentes experiências.
“Procuramos, então, construir uma narrativa mais ampla, contextualizada e responsável, entendendo que o museu não deve apresentar uma única versão da história, mas criar possibilidades para que o visitante conheça, reflita e estabeleça suas próprias relações com esse patrimônio”, descreve.
O trabalho de pesquisa também alterou a percepção da equipe sobre o próprio acervo. Para a museóloga, objetos que poderiam parecer pouco relevantes inicialmente adquiriram novos significados quando relacionados às pessoas, acontecimentos e práticas cotidianas às quais estavam associados.
“Mais do que uma única descoberta, o que me surpreendeu foi perceber a quantidade de possibilidades existentes dentro do próprio acervo”, relata.
A nova exposição, portanto, procura apresentar a história de Votuporanga a partir de diferentes escalas. Os grandes acontecimentos permanecem, mas dividem espaço com registros do cotidiano, fotografias, documentos e experiências de grupos sociais que ajudam a compreender a formação da cidade.

Um museu reaberto, mas ainda em construção
A remodelação também introduziu uma nova concepção expográfica, com linguagem contemporânea, recursos tecnológicos, conteúdos interativos, materiais táteis e dispositivos voltados à acessibilidade. A proposta inclui ainda novos fluxos de circulação, sinalização, audiodescrição e legendas expandidas.
Na avaliação de Petúlia, o resultado alcançado corresponde, em grande medida, ao museu projetado no início do trabalho. O que considera mais significativo, entretanto, está relacionado à mudança na maneira de apresentar o espaço e seu acervo.
“O que mais me satisfaz é perceber que conseguimos dar uma nova leitura ao espaço e ao acervo, tornando a experiência do visitante mais organizada, acessível e significativa. Também fico muito satisfeita com o processo de pesquisa e de revisão da narrativa. Foi um trabalho que exigiu olhar novamente para o acervo, questionar algumas certezas e compreender que cada objeto pode ganhar novos significados quando é devidamente contextualizado”, comemora ela.
A museóloga ressalva, entretanto, que a reabertura não encerra o processo.
“Acredito que um museu nunca está completamente pronto. Ainda há muito a avançar, especialmente na documentação e catalogação integral do acervo, na conservação, na criação de uma estrutura técnica permanente e na continuidade das ações educativas e de pesquisa. A requalificação representa um importante ponto de partida, mas a manutenção e o desenvolvimento do museu precisam ser permanentes”, pontua.
Durante entrevista concedida em novembro de 2025, Petúlia já havia chamado atenção para essa questão.
“A ausência de uma equipe fixa compromete a continuidade do trabalho e a manutenção dos procedimentos museológicos conquistados. A estruturação e o fortalecimento desses três eixos — gestão, educação e quadro técnico — são imprescindíveis para que todo o investimento realizado não se perca ao término do projeto”, frisou ela no início do projeto.
Durante os dias de realização do Fliv, até 16 de agosto, o Museu Municipal permanece aberto até as 21h, ampliando a possibilidade de visitação durante o festival. Após esse período, o funcionamento regular será de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 17h, e aos sábados e domingos, das 15h às 20h.
A nova exposição também poderá ser conhecida em visitas guiadas. A primeira ocorreu no sábado, após a cerimônia de reabertura, e outra foi realizada no domingo (9), às 10h.




