Ideal irreal: o descompasso entre expectativa e experiência materna 

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Atuando na área da saúde mental há 12 anos, a psicóloga Marceli Estela de Lima dedica-se ao cuidado emocional da mulher, com atenção especial ao período da maternidade - Foto: arquivo pessoal 

A partir da clínica, a psicóloga Marceli Estela investiga os tensionamentos entre a imagem construída da maternidade e a vivência cotidiana, e reúne no e-book ‘Resgate-se, Mãe’ reflexões dirigidas a mulheres nesse período.


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No encerramento de março — período em que o Dia Internacional da Mulher evidencia debates sobre direitos, equidade e condições de existência e segurança — a maternidade se apresenta como um dos territórios mais complexos da experiência feminina.

Distante de uma narrativa uniforme de realização, ela envolve atravessamentos psíquicos, reorganizações subjetivas e pressões sociais que nem sempre encontram elaboração ou reconhecimento.

Quando o sofrimento deixa de ser exceção

No campo da saúde pública, esse cenário vem sendo progressivamente delineado por organismos internacionais e pesquisas acadêmicas. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em materiais sobre saúde mental materna, indicam que transtornos psíquicos durante a gestação e o período pós-parto atingem cerca de 10% das mulheres em países de alta renda e podem alcançar aproximadamente 20% em contextos de média e baixa renda.

Antes de tudo, é importante situar que a depressão pós-parto é um transtorno mental que pode surgir durante o puerpério — fase marcada por intensas transformações físicas, emocionais e sociais. Nesse período, oscilações de humor, cansaço extremo e sentimentos ambivalentes fazem parte da experiência de muitas mulheres, especialmente diante das mudanças impostas pela chegada de um bebê.

No entanto, a proximidade entre essas manifestações e os sintomas do transtorno pode dificultar a identificação do quadro, sobretudo quando a mulher e sua rede de apoio não dispõem de informação suficiente. Os primeiros meses — e, em alguns casos, os primeiros anos — implicam rearranjos profundos na rotina, na identidade e nas relações, o que pode produzir alterações emocionais significativas.

No e-book ‘Resgate-se, Mãe’, Marceli Estela de Lima propõe uma escrita breve e acolhedora, pensada para mulheres que vivenciam o cansaço físico e emocional dos primeiros tempos da maternidade – Foto: Divulgação

No Brasil, estudos conduzidos por pesquisadores vinculados à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a outras instituições de pesquisa apontam prevalência de depressão pós-parto que pode chegar a cerca de 25% das mães, a depender do recorte populacional e metodológico adotado. 

Ainda assim, o acesso ao cuidado especializado permanece desigual, marcado por limitações estruturais, condições socioeconômicas e barreiras simbólicas que dificultam a nomeação do sofrimento.

Quando essas emoções se tornam intensas, persistentes e passam a comprometer a capacidade da mulher de atender às demandas básicas do cotidiano, o acompanhamento profissional deixa de ser uma possibilidade e passa a ser uma necessidade. A busca por cuidado especializado, nesse contexto, é decisiva.

Embora o esgotamento seja uma dimensão frequente da experiência materna, ele não deve ser naturalizado como condição permanente. A construção de uma rede de apoio — envolvendo familiares e pessoas próximas — e a possibilidade de pequenos gestos de autocuidado constituem elementos fundamentais para a preservação da saúde mental. 

Reconhecer limites, nesse processo, não fragiliza o exercício da maternidade; ao contrário, implica responsabilidade consigo e com o cuidado oferecido ao bebê.

O que chega ao consultório

É nesse cenário que se insere o trabalho minucioso da psicóloga clínica Marceli Estela de Lima, formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e com 12 anos de atuação. Sua trajetória começa na clínica geral, atendendo diferentes perfis e demandas, até que um padrão passa a se repetir demasiadamente no consultório.

“A minha trajetória começa na clínica geral, mas foi impossível ignorar um padrão que se repetia com força: mulheres profundamente sobrecarregadas, especialmente após a maternidade, chegando ao consultório já em estado de esgotamento emocional”, explica.

Esse movimento não se configura apenas como uma escolha profissional, mas como uma necessidade clínica diante de um sofrimento que, segundo a psicóloga, apresenta perfil singular e ainda pouco reconhecido.

“Essa virada foi uma necessidade clínica. Eu passei a perceber que havia um sofrimento específico, com características muito próprias, que não estava sendo nomeado nem acolhido como deveria”, salienta. 

Na atuação, o que ela evidencia é um quadro recorrente de solidão, culpa e desconexão subjetiva — elementos que aparecem de forma insistente na escuta clínica. 

“Na prática, o que mais me chamou atenção foi o quanto essas mulheres se sentiam sozinhas, culpadas por sofrer e desconectadas de si mesmas”, pontua.

A engrenagem invisível da sobrecarga

De acordo com Marceli, o adoecimento emocional na maternidade não se sustenta em uma única causa. Ele é estruturado a partir de diferentes camadas que se entrelaçam. No nível individual, há uma sobrecarga mental intensa, acompanhada de uma tentativa constante de dar conta de múltiplas demandas e de uma autocobrança elevada, frequentemente associada a um ideal de mulher e de mãe socialmente construído.

No campo relacional, a ausência de rede de apoio, a sobrecarga na divisão de tarefas e a invisibilidade dentro da própria família ampliam esse cenário. Já no plano cultural, persiste uma idealização da maternidade que não abre espaço para o sofrimento real.

“O adoecimento emocional das mulheres, especialmente na maternidade, é multifatorial. A maternidade não adoece por si só, o que adoece é a solidão, a sobrecarga e o silêncio imposto sobre essa mulher”, esclarece.

O peso de um ideal que não existe 

A construção da chamada “maternidade ideal” opera como um parâmetro silencioso, mas profundamente normativo. A imagem de uma mãe sempre disponível, paciente e realizada não corresponde à experiência concreta — e é justamente nesse descompasso que o sofrimento se intensifica. 

Segundo a psicóloga, no consultório, isso aparece como culpa constante, sensação de insuficiência e uma tentativa exaustiva de alcançar um padrão inalcançável. 

“Essa cobrança silenciosa vai, aos poucos, desgastando a saúde mental. O sofrimento começa quando a mulher tenta ser a mãe ideal e, nesse processo, deixa de ser uma pessoa real”, destaca.

Uma escrita possível no meio do caos 

A partir dessa escuta, Marceli desenvolveu o e-book “Resgate-se, Mãe”, disponibilizado na plataforma Hotmart. O material é voltado especialmente para gestantes e mães nos primeiros meses após a chegada do bebê, período marcado por intensas transformações físicas, emocionais e identitárias. 

“O e-book foi pensado para a realidade de uma mulher que está cansada emocionalmente e fisicamente”, direciona.  

Para ela, a elaboração de um manual prático partiu justamente da consideração dessas questões: a exaustão, a fragmentação do tempo e a dificuldade de concentração. O objetivo é que a leitura não se torne mais uma exigência, mas um espaço possível de acolhimento. 

“A proposta é que ela se sinta vista, compreendida e, principalmente, que comece a se reconectar consigo mesma, mesmo em meio ao caos. Esse material não exige tempo da mulher, ele respeita o pouco tempo que ela tem e ainda assim cuida dela”, descreve.

Entre a experiência e a escuta

A experiência de Marceli como mãe de duas meninas perpassa seu trabalho, porém sem jamais comprometer o rigor técnico e ético da psicologia. 

“A minha experiência como mãe não substitui a técnica — mas ela amplia a minha escuta”, declara. 

Esse atravessamento permite reconhecer nuances emocionais com maior sensibilidade, sem perder de vista a singularidade de cada paciente e o compromisso com o conhecimento científico. 

“Ser mãe me aproxima, ser psicóloga me responsabiliza”, delimita. 

Ao final de um mês marcado por debates sobre a vivência feminina, a maternidade se apresenta, assim, como uma experiência plural — permeada por ambivalências, exigências e deslocamentos.  

Nomear o sofrimento implicado nesse processo não é reduzi-lo, mas permitir que seja reconhecido como parte legítima de uma experiência que se constrói no encontro — nem sempre estável — entre expectativa e realidade.