Hospitais do interior de SP trabalham acima da capacidade; pacientes com Covid-19 morrem à espera de leitos

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Santa Casa de Fernandópolis/SP, por exemplo, possui 180% de ocupação nos leitos de Unidade de Terapia Intensiva. Em Votuporanga/SP, Santa Casa está trabalhando com 100% de ocupação nos leitos de UTI.


Hospitais da região noroeste paulista registram alta taxa de ocupação em leitos destinados para tratamento de pacientes com suspeita ou diagnóstico confirmado de Covid-19. A situação preocupa as autoridades da área da saúde e, consequentemente, começa a refletir diretamente no atendimento a moradores infectados. 

Em março deste ano, ao menos cinco pacientes morreram à espera de um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) nos municípios de Nova Granada, Tabapuã e Irapuã. 

Em todos os casos, as prefeituras disseram que as vagas haviam sido solicitadas por meio da Central de Regulação do Estado (Cross), mas que os pedidos não foram atendidos. 

Em Catanduva, o hospital Emílio Carlos precisou negar, somente na noite de terça-feira (9), 167 pedidos de transferência. 

“Não é mais uma catástrofe. É uma calamidade pública. São 167 pessoas que não estão com atendimento devido nesse momento. A situação é muito triste”, disse a diretora de Saúde da Fundação Padre Albino (FPA), Renata Rocha Bugatti. 

O motivo para os pacientes não serem transferidos é a falta de vagas disponíveis de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e de enfermaria para tratamento da doença. 

Atualmente, o Hospital Emílio Carlos está com 115% de ocupação em leitos intensivos. Na enfermaria, o índice é de 112%, um pouco menor, mas extremamente preocupante. 

O fato de o hospital ultrapassar os 100% de ocupação é possível porque, quando o limite é atingido, as pessoas começam a ser atendidas em outras alas. Porém, isso evidencia que a lotação é uma realidade. 

“Até o momento, a Fundação sempre publicou a todos que não tem condições devido a dificuldades de contratação de RH e aquisição de equipamentos”, disse Renata. 

“Porém, a regional de Saúde vai transferir os pacientes das enfermarias não Covid-19 para outros hospitais da região. Assim, conseguiremos colocar esses profissionais para atender na UTI Covid-19. Nós conseguiremos criar 15 novos leitos de terapia intensiva”, completou. 

O hospital particular São Domingos também trabalha com índices preocupantes, com 13 dos 14 leitos intensivos ocupados. Na enfermaria, a taxa é de 44%. 

Outra questão que chama a atenção é a situação da Unidade de Pronto Atendimento (UPA). A unidade possui dez leitos para pacientes que estão em acompanhamento e que aguardam transferência para outros hospitais. Desses dez pacientes internados, nove precisam ser transferidos. Porém, não encontram vagas. 

Para a secretária de Saúde de Catanduva, Claudia Monteira Ferrazzi Ferreira, a taxa de contaminação da Covid-19 precisa diminuir nos próximos dias, o que só será possível com o apoio dos moradores. 

“A saúde não dará conta. Profissionais cansados, estrutura no limite da capacidade de ampliar. O que nós precisamos é conter o vírus. Nós estamos tendo uma alta taxa de contaminação. As pessoas estão se agravando muito rápido. Estamos vendo jovens morrerem em UTI’s”, disse. 

Além da situação crítica dos hospitais, o que preocupa as autoridades de saúde é que o os pacientes estão chegando às unidades com um grave mais grave, como explica o pneumologista Ricardo Domingues Delduque. 

“Além da incidência da doença estar muito mais alta do que antes, a gravidade também está. Muita gente antes tinha uma evolução boa, hoje, qualquer faixa etária tem risco de ir para terapia intensiva ou até mesmo morrer.” 

Região de Votuporanga 

Trabalhar acima da capacidade máxima não é apenas uma realidade enfrentada por Catanduva. A Santa Casa de Fernandópolis (SP), por exemplo, registra 180% de ocupação em leitos de Unidade de Terapia Intensiva. 

Oficialmente, o hospital possui 10 vagas intensivas, mas, atualmente, 18 pessoas estão internadas. Já na enfermaria, 19 dos 20 leitos estão ocupados, o que representa uma taxa de 95%. 

No começo da semana, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou a abertura de 11 novos hospitais de campanha no estado. Um deles será instalado na Unidade de Reabilitação Lucy Montoro de Fernandópolis. 

A Secretaria Estadual de Saúde não informou a quantidade de leitos que serão abertos e quais foram os critérios para escolher o município. Porém, disse que mais detalhes sobre o assunto serão divulgados nos próximos dias. 

Já na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Jales, pacientes aguardam para serem transferidos desde o último final de semana, pois a Santa Casa não tem mais vaga intensiva. 

Na comparação com o mês passado, o número de atendimentos de moradores que procuraram a Unidade de Pronto Atendimento com sintomas da doença mais do que dobrou. 

“Estou com um paciente entubado desde sábado. Pode ser que o quadro dele se agrave. A gente está muito preocupado. A Santa Casa de Jales também está lotada”, diz o administrador da Unidade de Pronto Atendimento de Jales, José Roberto Pietrobon. 

A cerca de 40 minutos de Jales, a história se repete. A Santa Casa de Votuporanga abriu, de forma emergencial, diversas vagas nos últimos dias. No entanto, está trabalhando com 100% de ocupação nos leitos de Unidade de Terapia Intensiva. 

Região de Araçatuba 

Na tarde desta quarta-feira (10), a Santa Casa de Araçatuba/SP atingiu 100% de ocupação em leitos intensivos. Na enfermaria, a taxa é de 90%, restando apenas sete vagas. 

A rede particular também enfrenta lotação. Ao longo da pandemia, o Hospital Unimed precisou abrir mais leitos de Unidade de Terapia Intensiva. Antes, eram 10. Atualmente, existem 30. O problema é que 29 deles estão ocupados, porque, infelizmente, um paciente morreu. 

“Nós chegamos ao limite dos nossos leitos. Daqui para frente, vamos ter de fazer várias adaptações. Esse é o pior momento. Estou com muito medo da doença”, disse o Presidente da Unimed de Araçatuba, Flávio Garbelin. 

Na Santa Casa de Birigui e Penápolis também não há mais leitos intensivos para atender pacientes que precisarem de atendimento. 

“Realmente estamos em um estado crítico. Passamos de dez leitos ocupados. E não temos mais o que fazer. Não tem mais vagas. Agora acabou de verdade”, disse. 

“Estamos colapsando geral. Se cuidem. Estamos fazendo loucura para tentar salvar as pessoas que estão chegando sem ar”, complementou o presidente da Irmandade da Santa Casa de Penápolis, Francisco Firmino. 

Região de Rio Preto 

O Hospital de Base de São José do Rio Preto, responsável por atender mais de 100 municípios da região noroeste paulista, está com todos os 133 leitos de Unidade de Terapia Intensiva ocupados. 

No dia 8 de março, a Fundação Faculdade Regional de Medicina de Rio Preto (Funfarmeinformou que recebeu solicitação da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo para ampliar o número de leitos. 

Em resposta, a diretoria disse que há condições de acrescentar mais 25 vagas. Contudo, ainda não há informações sobre quando os leitos estarão disponíveis para atender os moradores. 

Na Santa Casa, 100% das vagas intensivas estão ocupadas. Já na enfermaria, restam apenas quatro leitos desocupados. 

O secretário de Saúde de Rio Preto, Aldenis Borim, anunciou a abertura de novos leitos. Porém, o município enfrenta dificuldades para encontrar equipamentos, como explica a gerente da Saúde da Família de Rio Preto, Paula Sodré. 

“Nós temos vários equipamentos que estamos precisando para abertura de novos leitos. Precisamos de bomba de infusão para medicações, macas, camas elétricas, carrinho para oxigênio, termômetros, monitores cardíacos, escadinha e bombas de infusão”, disse. 

*Com informações do g1