
Desafios, técnica e precisão marcam o trabalho da maquiadora Ariane Farrapo que, em parceria pedagógica com o Senac São Paulo, assina a maquiagem da comissão de frente da Mocidade Alegre, campeã do Carnaval de São Paulo 2026.
@caroline_leidiane
Há um instante na avenida em que tudo se decide no detalhe. A pluma, a engrenagem do carro alegórico, o giro milimetricamente ensaiado da Comissão de Frente. E, no rosto, a expressão que precisa atravessar metros de distância, luzes, suor e sombra. No Carnaval de São Paulo 2026, a pele também desfilou como argumento estético e técnico — e foi decisiva na construção de um espetáculo que culminou em apoteose.
A Mocidade Alegre, uma das mais tradicionais escolas da capital paulista, escreveu mais um capítulo luminoso em sua trajetória ao conquistar o título do Carnaval deste ano, superando agremiações como a Gaviões da Fiel. A vitória é a 13ª no Grupo Especial e consolida a força de uma escola que transformou excelência em assinatura.
Fundada no bairro do Limão, a Mocidade Alegre construiu ao longo de mais de cinco décadas uma trajetória marcada por enredos grandiosos, rigor estético e comissões de frente que articulam dramaturgia e impacto visual.

Neste ano, o desfile evidenciou essa vocação ao unir narrativa simbólica, força plástica e precisão técnica — elementos que renderam nota máxima no quesito Comissão de Frente.
Dentro dessa engrenagem de excelência, a maquiagem teve papel estratégico. A assinatura foi da maquiadora e professora Ariane Farrapo, profissional há 16 anos e docente há 11, convidada pelo Senac São Paulo para liderar a criação em uma parceria estruturada como prática pedagógica.
“O convite surgiu a partir da Gerência de Desenvolvimento do Senac São Paulo, que fez uma parceria com a escola de samba Mocidade Alegre. Como a instituição é voltada à metodologia de ensino ativa, busca sempre proporcionar práticas pedagógicas em que insere os alunos em situações reais do mercado de trabalho. E, nesse caso, uma situação campeã”, afirma Ariane.

O diálogo com a escola começou a partir de referências visuais e orientações enviadas pela equipe artística. A criação das maquiagens dos destaques — entre eles o médico e ex-Big Brother Brasil 23 Fred Nicácio — partiu de uma leitura de beleza pensada para palco, com definição suficiente para ser percebida à distância e resistência capaz de atravessar o ritmo intenso da apresentação.
“Utilizei técnica de beleza para o palco, pois as maquiagens precisavam ser vistas a distância. Tive também a preocupação de construir uma maquiagem resistente à água. Essas maquiagens logo foram aprovadas”, explica ela.
A segunda etapa exigiu outro tipo de elaboração: a maquiagem artística que dialogaria com a fantasia de serpente. O desafio não era apenas criar um rosto impactante, mas garantir que ele existisse sob a sombra projetada pela cabeça da indumentária.
“Precisei fazer alguns testes com a fantasia, pois, como a cabeça criava uma sombra no rosto da pessoa, a maquiagem poderia não funcionar. A intenção aqui era compor a fantasia”, detalha.
O processo criativo, segundo Ariane, foi atravessado por uma postura de escuta e reverência à história da escola e ao trabalho coletivo envolvido na construção do desfile.
“Acredito que olhei para tudo com muito respeito. Respeito à história da escola, ao enredo, aos artistas que trabalharam durante um ano inteiro para construir a magnitude que foi o desfile”, elucida a profissional.
Embora a maquiagem não some pontos diretamente no julgamento da Comissão de Frente, qualquer falha pode resultar em penalização. A consciência dessa responsabilidade determinou escolhas técnicas rigorosas.
“Nesses anos de carreira pude trabalhar em grandes eventos nacionais e internacionais, mas acredito que esse trabalho foi o que mais exigiu atenção, cuidado e responsabilidade. Fiz muitos testes para garantir a durabilidade e o melhor acabamento”, pontua.
A lógica era objetiva: assegurar que nada comprometesse o desempenho do grupo. “O critério que mais pensei foi: se a maquiagem borrar, a comissão de frente perde pontos. A partir daí testei diversos produtos para garantir essa resistência”, descreve ela sobre a responsabilidade posta em suas mãos.
Os testes com a fantasia foram decisivos. Três ensaios foram realizados até a versão final.
“No primeiro teste, o rosto ficou muito escuro e perdemos a leitura da maquiagem. No segundo, a maquiagem não conversou 100% com a fantasia e faltou um fator de brilho. No terceiro, alinhamos os pontos que estavam falhos e a maquiagem foi aprovada!”, especifica Farrapo sobre o processo.
No dia do desfile, o trabalho mobilizou nove alunos — oito do curso de Maquiagem Artística e um do curso de Maquiador — responsáveis por 14 maquiagens artísticas, além de duas ex-alunas que fizeram sete maquiagens dos destaques. A equipe atuou por cerca de três horas. A médica e campeã do Big Brother Brasil 20 Thelma Assis não foi maquiada pelo grupo, optando por seu próprio profissional.

Coordenar o processo sob a pressão do tempo e da avenida exigiu preparo técnico e maturidade emocional.
“Foi uma experiência muito especial assinar a minha primeira comissão de frente representando uma instituição em que acredito e ter a equipe formada por alunos e ex-alunos que passaram pela minha sala de aula. Fiquei muito orgulhosa da equipe, que conseguiu contornar situações adversas e executar o trabalho com excelência. Acredito que esse preparo vem sendo construído na sala de aula, no nosso dia a dia, na relação de confiança que vamos desenvolvendo. Meus alunos entendem que, se estão nessa prática real, é porque estão preparados para isso e que, se algo não acontecer como deve, estarei lá para ajudá-los”, reconhece a maquiadora.
Quando os jurados anunciaram as notas máximas para a Comissão de Frente e, posteriormente, o título da escola, o resultado transbordou a própria encenação. “Com certeza foi muito emocionante ver a vitória da Mocidade Alegre. Os alunos estão radiantes por terem participado desse momento histórico. Foi incrível ver a Comissão de Frente receber 10 em todos os quesitos!”, celebra Ariane.
Enredo da Mocidade Alegre homenageia Léa Garcia
No sábado (14), a Mocidade Alegre transformou o Sambódromo do Anhembi em território de memória e ancestralidade com o enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”, homenagem à trajetória de Léa Garcia, símbolo de resistência e protagonismo na cultura brasileira.
A narrativa percorreu a vida da artista no teatro, no cinema e na televisão, celebrando sua influência sobre gerações.
Logo na abertura, a comissão de frente arrancou aplausos ao recriar o início da carreira de Léa no Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias do Nascimento.
A médica e apresentadora Thelma Assis representou a atriz. Filha de Oxumaré, surgiu com as cores do arco-íris — referência ao orixá do movimento, da renovação e da dualidade, simbolizado pela serpente e pelo arco-íris. Já Fred Nicácio interpretou Abdias, reforçando em cena o elo entre arte e militância negra.
Entre as alegorias mais comentadas esteve o carro “Benção Yabás – Saudação às Deusas Negras nos Estúdios”, inspirado em um filme de 1978 protagonizado por Léa Garcia, no qual interpretou a orixá Iemanjá.
A estrutura exibia uma imagem monumental da rainha do mar, de onde despencava uma cascata que se espalhava pela avenida, criando o efeito de uma piscina a céu aberto — um dos recursos visuais mais impactantes do desfile.
O samba-enredo da Mocidade Alegre é assinado pelos compositores Aquiles da Vila, Fabiano Sorriso, Lucas Donato, Marcos Vinícius, Márcio André, Fabian Juarez, Fábio Gonçalves, PH do Cavaco, Salgado Luz, Tomageski, Mingauzinho e Chico Maia.
Entre os versos que ecoaram com mais força na avenida, destaca-se o refrão que abre a narrativa como saudação e manifesto: “Laroyê! Ê mojubá! A Deusa Negra é ela!” — síntese da reverência à ancestralidade e à potência feminina que conduziu todo o desfile.




