Eu, Jurado?

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Antoninho Rapassi conta a sua experiência de participar de uma comissão julgadora que durante 3 dias, tinha a desafiadora proposta para degustar e avaliar 300 garrafas, entre vinhos e cachaças.

  • Por Antoninho Rapassi-

Sim! Na manhã do dia 6 de Outubro o meu filho Gabriel levou-me ao majestoso Bourbon – Hotéis & Resorts da cidade de Atibaia, onde me instalei para participar, como jurado, no 19º Concurso de Vinhos e Destilados do Brasil.

A comissão julgadora composta por 20 integrantes tinha pela frente e durante 3 dias, a desafiadora proposta de mostrar conhecimentos para degustar e avaliar as invioladas 300 garrafas, entre vinhos e cachaças. Uma proeza olímpica bem ao meu gosto e predileção, uma vez que sou tido e havido como aplicado atleta do halterocopismo responsável. Assim, enchi os meus pulmões com o ar puro da cidade serrana, dei um alô ao fígado dizendo-lhe “é hoje, seja forte” e invoquei a responsabilidade para continuar sendo fiel na difícil missão de julgar “às cegas”, em respeito à imparcialidade sem favorecimento a quaisquer dos fabricantes.

Voltando a um passado recente, foi no ano de 2005 que se realizou o Concurso de número 5 na cidade de São Paulo, e o evento era capitaneado, então, pelo governo da Bélgica, vejam só. Uma tremenda ostentação, pontilhada por requintados roteiros até chegar-se à premiação, a cujo 1º lugar estava reservado a ambicionada medalha de ouro.

O Grand Hyatt Hotel foi o palco das solenidades, culminando com as galas no recinto parisiense do Restaurante “L´Eau”. Houve um desfile do batalhão de Maitres, Garçons e Someliers com o fito de esnobar o próprio Pantagruel, quando as pratarias reluzentes exibiam as iguarias fumegantes, os cristais translúcidos realçavam os tons cromáticos das Entradas e a profusão de taças e copos tilintavam a cada instante nas evocações festivas do “Evoé Baco”. Foi uma noite para nunca mais ser esquecida…

Assim, atarantado, é que voltei para casa. Na mão, segurava firme a medalha de ouro obtida pela minha cachaça Old, “Caldas da Rainha”, no coração um sentimento de gratidão a tantas pessoas que se envolveram nos 15 anos em que cuidei para o bom desempenho dos generosos barris de carvalho, oriundos da não menos pródiga Escócia. A seguir, vieram os jornalistas e rememorei os acontecimentos nas reportagens da revista “Gula” e outra na revista “Alta Gastronomia”. Por sua vez, os cinegrafistas levaram ao ar o auspicioso congraçamento gerenciado por um país europeu, enquanto que se multiplicaram as vozes de barítonos dos afetados locutores das emissoras de FM e AM.

Por falar em sentimento de gratidão, reservei este espaço para externar aqui uma homenagem envolvida pelos ramos de um loureiro verdejante. No centro, o perfil de um verdadeiro apóstolo que labuta para engrandecer e fragmentando os preconceitos contra a Cachaça, que finalmente jogou sua âncora pesada para fixar-se e nunca mais deixar de ser a bebida oficial do Brasil. Não se pode falar de Cachaça sem mencionar o nome de Renato Frascino, aliás, Renato Benedito Frascino.   Atiçando os organizadores dos Concursos que se repetem, orientando os magotes de garçons, dando consultorias em todos os quadrantes deste nosso país continental, Renato Frascino é a voz que comanda e corrige, é a voz que ensina, pois de conhecimentos e saberes técnicos e empíricos, eis um verdadeiro arcabouço de que ele se vale para pontificar com graça, sutileza, ironia e dogmatismos. A sagacidade luminosa de Renato Frascino, faz dele um desbravador de aromas, classificador de filigranas olfativas e sensibilidades gustativas. E ele, Renato Frascino não perdoa! Da sua boca irreverente saem corajosas comparações para beatificar a Cachaça com inéditas verdades, a ponto de acordar sonolentos degustadores ao permear humor com seriedade, dando uma martelada forte no cravo e outra, cariciosa na ferradura. Assim o nosso capitão Renato Frascino vai afrouxando resistências, ampliando o quadro dos bons apreciadores e fazendo-se respeitar a santa e boa Cachaça, na verdadeira condição que ela representa hoje, como a bebida oficial do Brasil ostentando uma posição invejável no que tange tanto ao emprego avantajado da mão-de-obra em todo o seu longo espectro conjuntural, quanto também ao faturamento bilionário da sua produção oficial e clandestina, nos confins desta pátria amada, gentil e idolatrada, salve, salve!