“CPI do fura-fila da Covid” naufraga na Câmara e inquérito muda para à Delegacia Seccional

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Em discurso inflamado na Câmara, vereador Renato Abdala (Patriota) disparou: “Votuporanga é a cidade das brechas suaves”; segundo o parlamentar, ele recebeu uma intimação da Polícia Civil para depor sobre suas denúncias envolvendo o caso.

Os supostos atos de fura-fila na vacinação contra a Covid-19 em Votuporanga/SP continuam repercutindo e ganhando novos contornos na Câmara Municipal, sendo motivo de um discurso inflamado por parte do vereador Renato Abdala (Patriota), durante a 14ª sessão ordinária, nesta segunda-feira (26), que disparou: “Votuporanga é a cidade das brechas suaves”, ao se referir ao assunto. 

A explosão em tom de desabafo se deu, segundo ele, após receber uma intimação da Polícia Civil para depor sobre suas denúncias envolvendo o caso no município.

Segundo Abdala, estão criando um ambiente para apontar que quem usa a verdade [se referindo a ele] está errado, ao invés de quem furou a fila. Por isso, Votuporanga é a cidade das brechas na lei: “Votuporanga é a cidade das brechas suaves. Sempre acham brechas. Brecha para fugir da máfia do asfalto, brecha para fugir da máfia das ambulâncias, brecha para fugir dos empreendimentos imobiliários ocultos, brecha para vender a alma para o diabo”, explanou o parlamentar.

Ao direcionar o discurso para uma possível reapresentação da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Casa Legislativa que averiguaria os supostos casos, Abdala falou sobre uma reunião realizada naquela manhã, onde a secretária de Saúde, Ivonete Félix, teria apresentado as contribuições realizadas ao procedimento investigatório que está em andamento e citou o vice-prefeito Cabo Valter (MDB): “Foi só fala de reviver a CPI, em colher as assinaturas, que o vice-prefeito gravou um vídeo, que montaram todo esse cinema na reunião de hoje”, finalizou. 

Nesta terça-feira (27), por telefone, Renato Abdala explicou: “como ressuscitei o assunto no início da semana, na quinta-feira o vice-prefeito fez um vídeo afirmando que já haviam entregado a documentação, que estava tudo resolvido. Na sexta-feira teve uma reunião onde não fui convidado, e na segunda-feira tivemos outra reunião com todos os vereadores e quando eu cheguei, senti que estava meio armado o negócio e o pessoal [vereadores] já falando de não assinar, de não abrir CPI. A minha indignação é que entre os slides lá apresentados ela [secretária de Saúde, Ivonete Félix] fala que sanou as irregularidades e encaminhou à Polícia e ao Ministério Público, ou seja, ela regularizou nome, data de nascimento, ortografia, grupo prioritário, duplicidades e exportação de área de vacinados e encaminhou, isso em si já comprova que haviam irregularidades ali”.

Também por telefone, a reportagem do Diário de Votuporanga falou com o Delegado de Polícia, Marco Aurélio da Silva Tirapelli, que presidia o inquérito que investiga o caso, e ele explicou que o procedimento foi repassado para à Delegacia Seccional de Polícia, sob comando do Delegado Márcio Nobuyuoshi Nosse.

À reportagem, Nosse explicou que o inquérito foi repassado para a alçada da Seccional devido uma portaria da Delegacia Geral, uma vez que existe na lista apresentada inicialmente alguns nomes que compõem o cenário político local. “Existe essa portaria que diz que quando investigação envolver mandatário político, seja prefeito, seja vereadores, esse inquérito deve ser remetido à Seccional. Em assim sendo, o Delegado Seccional, Dr. Marcos Negrelli determinou que eu presidisse doravante esse procedimento investigatório”. 

Além de explicar o motivo pelo qual ocorreu a alteração de tutela do inquérito, Nosse afirmou que já pediu a prorrogação do prazo para a investigação e que o pedido está em análise do Ministério Público: “Vou ouvir todos [se referindo à lista], claro que isso ainda levará um tempo, estamos falando de 130 ou 140 pessoas não é tão simples. Pedi a suplementação do prazo, que está em análise do Poder Judiciário e Ministério Público. Inicialmente, teríamos 30 dias para concluir a investigação, mas não foi possível, porém estamos trabalhando nisso. Tenho ao menos uma pessoa nessa lista que o setor de investigação já apontou que faleceu, mas é preciso ir até o final do inquérito para se ter respostas conclusivas”, salientou o delegado de polícia.

Nosse comentou que ouvirá em breve a secretária de Saúde, Ivonete Félix, e explicou que existe uma possível confusão quanto a interpretação do significado do termo “cuidadores de idosos” no PNI (Programa Nacional de Imunização) à cargo do Ministério da Saúde: “existe interpretações sobre ordem cronológica e a respeito de orientações sobre o termo cuidadores de idosos, estamos trabalhando para apurar esses detalhes, precisamos constatar se houve crime. Podemos vislumbrar, por exemplo, se houve uma má interpretação das orientações ou das normas da vacinação, contudo, só vamos saber ao final da investigação”, explicou. 

Questionado sobre a intimação do vereador Renato Abdala, Nosse detalhou que não determinou a intimação do parlamentar no âmbito da investigação, e que possivelmente teria sido um comando do Delegado Seccional, Dr. Marcos Negrelli, afirmando ainda que a autoridade policial estava em diligência em delegacias da sub-região. A reportagem não conseguiu contatá-lo por telefone.