Convite à pausa poética

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Renata Roman, criadora de ‘Poemas Sussurrados’, intervenção que nasceu em 2012 a partir de sua pesquisa sobre a escuta e de sua trajetória como artista, arte-educadora, contadora e mediadora de leitura – Foto: arquivo pessoal

Intervenção itinerante ‘Poemas Sussurrados’, de Renata Roman, integrou a programação do Fliv nos dias 8 e 9 de agosto, aproximando o público da literatura por meio de uma experiência intimista.


@caroline_leidiane

Há experiências artísticas que não dependem de palco, grandes estruturas ou multidões para provocar deslocamentos. Em “Poemas Sussurrados”, a artista e arte-educadora Renata Roman reduz a distância entre obra e espectador. A poesia ganha uma dimensão intimista quando uma voz se aproxima e o poema é compartilhado ao pé do ouvido.

A intervenção itinerante, que circulou pelos espaços do Festival Literário de Votuporanga (Fliv) no sábado (8) e no domingo (9) de agosto, propõe uma escuta poética e musicalizada, capaz de ampliar repertórios, aproximar diferentes públicos da literatura e estabelecer uma relação demasiadamente sensorial com a palavra.

A iniciativa nasceu em 2012, a partir de interesses que já permeavam a trajetória de Renata. Leitora e escritora de poemas, ela também atua na contação de histórias e na mediação de leitura, além de trabalhar como arte-educadora na formação de leitores. A pesquisa sobre a escuta em sua prática artística foi o ponto de partida para a criação da intervenção.

Poesia em segredo

O elemento central da intervenção é um cone com uma pequenina e delicada caixa de música acoplada. Durante a recitação, Renata dá corda no mecanismo, criando uma trilha sonora delicada que acompanha o sussurro e contribui para afastar, ainda que por instantes, os ruídos do entorno.

“Inicialmente, eu só usava a caixinha de música. Mas a aproximação não era suficiente. Eu senti que precisava de isolamento acústico para que a experiência fosse melhor, pois os sons do entorno interferiam, dispersando a atenção. Então tive a ideia de criar algum aparato e, após tentar alguns recursos, o cone foi o que funcionou perfeitamente. Eu acoplei a minha caixinha de música e assim a experiência se tornou mais imersiva e potente”, explica.

A escolha dos poemas é parte intrínseca na construção da experiência. A coleção, apresentada de memória e com recitação tênue, é formada a partir de estudos embasados em textos que remetem a sentimentos positivos.

“O repertório foi sendo e é ainda construído com muito cuidado e muita pesquisa. Por ser uma ação imersiva e intimista, eu considero que o impacto deva ser suave e forte ao mesmo tempo. Os poemas que sussurro são poemas que eu gosto muito e que me provocam encantamento, sobretudo. Não é uma tarefa simples, pois eu quero que as pessoas se sintam bem depois da escuta, que elas também se encantem, se suavizem e desacelerem”, ressalta ela.

Maurício Movio aceitou o convite de Renata e recebeu, ao pé do ouvido, um poema de Cecília Meireles – Foto: Leidiane Caroline

A experiência artística de Renata é essencial para a maneira como a intervenção é conduzida, especialmente por se tratar de um ato que a aproxima diretamente da outra pessoa.

“Penso que a minha formação como atriz ajuda na leitura para saber o momento das pausas, o tom da voz e a técnica nos processos para memorização dos poemas escolhidos”, revela.

A pergunta que inaugura cada encontro é singela, contudo, carrega a delicadeza que sustenta toda a vivência sensorial: “Posso sussurrar um poema para você?”. A partir do consentimento, o espaço público parece se recolher dando lugar a uma imersão breve e particular.

“Normalmente, as pessoas reagem com um delicado espanto e curiosidade, depois se entregam, fechando os olhos. Pouquíssimos resistem a fechar os olhos. No entanto, invariavelmente, se encantam com a experiência”, conta Roman.

É nas reações do público que Renata encontra algumas das respostas mais contundentes para a potência de seu trabalho. Ao longo dos anos, ouviu de participantes que o poema sussurrado parecia ter chegado no momento exato, como se aquelas palavras correspondessem uma mensagem endereçada pontualmente.

“Para mim, todos os encontros foram especialmente marcantes nesses anos de trajetória do projeto. Talvez alguns tenham se destacado por devolutivas mais empolgadas e elaboradas. O que é marcante sempre é a percepção da força que a delicadeza tem. Algo que se repete é a percepção de muitos participantes de que eu sussurrei um poema que era exatamente o que ele precisava escutar naquele dia, naquele momento de sua vida. E não sei bem como explicar, mas todos os rostos se modificam após participarem, parece que um pouco de sol iluminou tudo por dentro. Acho que pela força da poesia em expandir o imaginário, como se abrisse as nossas janelas internas para o sol entrar”, retrata.

A artista observa que a intervenção representa uma aproximação recíproca.

“Para mim, é um momento mágico, porque entrego um poema e também o recebo. É um encontro com o universo de um poema, com a poética de autores diferentes. É uma experiência sensível de escuta compartilhada. Eu espero tocar o outro com alguma beleza, propondo uma espécie de ruptura da velocidade, dar um tempo ao tempo. E cada um vai viver essa experiência a seu modo, mas vai sair com um pouco mais de beleza”, reflete ela.

Ao transformar a leitura em uma experiência de proximidade, a intervenção reposiciona a poesia: não como objeto distante ou necessariamente associado ao silêncio solitário de um livro, mas como acontecimento vivo, mediado pela voz e pelo corpo.

Um poema pode durar poucos minutos, mas, na abordagem de Renata Roman, esse breve intervalo é suficiente para interromper a velocidade cotidiana e suspender a urgência das ações, permitindo contemplar o alívio de um respiro na bagagem da vida.