Cartas abertas

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A antologia ‘Prêmio Literário Cartas 2026’ reúne 63 correspondências selecionadas na edição do concurso dedicada ao tema ‘Uma pessoa importante em minha vida’, cujas inscrições foram realizadas entre fevereiro e abril deste ano – Foto: Divulgação

Antologia do Prêmio Literário Cartas 2026 será lançada neste sábado (25), no Riopreto Shopping Center. A cerimônia, aberta ao público, terá leitura de correspondências selecionadas e exposição de fragmentos das obras.


@caroline_leidiane

Há gêneros literários que resistem justamente porque recusam a lógica da urgência. Enquanto a comunicação moderna se organiza em fragmentos breves, respostas instantâneas e mensagens que desaparecem na velocidade com que são produzidas, a carta preserva uma rara vocação para perdurar.

Ela exige tempo, elaboração, escuta e, sobretudo, entrega. Coragem para organizar o pensamento antes da palavra, para transformar lembranças em linguagem e para dirigir sentimentos a alguém cuja presença, muitas vezes, existe apenas na memória.

Ao longo dos séculos, a escrita epistolar ocupou um lugar singular na literatura e na história das ideias. Das correspondências de Rainer Maria Rilke, reunidas em “Cartas a um Jovem Poeta”, às cartas de Monteiro Lobato publicadas em “A Barca de Gleyre”, o gênero ultrapassou sua função comunicativa para converter-se em documento estético, histórico e afetivo.

Não por acaso, também foi através das cartas que Sigmund Freud elaborou parte significativa do pensamento que daria origem à psicanálise. Entre 1887 e 1904, suas correspondências com o médico Wilhelm Fliess, posteriormente reunidas em “Publicação Completa das Cartas a Wilhelm Fliess”, registram o nascimento de conceitos que transformariam a compreensão da mente humana. Em todos esses casos, a carta deixa de ser apenas mensagem: torna-se testemunho de uma época e matéria-prima da criação intelectual, quase um gesto de resistência cultural.

Idealizado como desdobramento de um projeto desenvolvido há mais de uma década na Sociedade Cultural Ítalo-Brasileira Amici d’Italia, de São José do Rio Preto, o Prêmio Literário Cartas chega a um novo capítulo de sua trajetória com o lançamento da antologia “Prêmio Literário Cartas 2026”. A iniciativa nasceu como homenagem à professora Fúlvia Tessarolo, primeira docente de Italiano da entidade, conhecida por manter intensa correspondência com familiares na Itália.

A publicação reúne 63 cartas selecionadas na edição do concurso dedicada ao tema “Uma pessoa importante em minha vida”, cujas inscrições ocorreram entre fevereiro e abril, e será lançada neste sábado (25), às 10h, no Riopreto Shopping Center, durante cerimônia aberta ao público.

As correspondências que compõem a antologia foram contempladas entre quase uma centena de textos inscritos. O elevado nível literário apresentado pelos autores tornou o processo de avaliação particularmente desafiador e levou a comissão julgadora a ampliar, de maneira excepcional, o conjunto de obras publicadas.

A organizadora do projeto, professora e escritora Rosalie Gallo, observa que é justamente essa imprevisibilidade que mantém viva a identidade da premiação.

“A cada ano, o Prêmio ganha molduras diferentes que variam de acordo com o tema proposto e com as cartas recebidas”, afirma.

Embora preserve o mesmo compromisso com a escrita epistolar, cada edição acaba produzindo frutos que extrapolam as páginas da publicação. Algumas correspondências continuam escrevendo sua própria história depois da seleção, aproximando remetentes, destinatários e leitores em encontros que dificilmente aconteceriam fora da literatura.

Rosalie Gallo, professora, escritora e idealizadora do Prêmio Literário Cartas – Foto: Milena Aurea

Na edição anterior, por exemplo, uma carta dedicada ao cantor e apresentador Rolando Boldrin motivou a participação espontânea de uma dupla de cantoras durante a cerimônia de lançamento, transformando a manhã literária em uma celebração musical.

Neste ano, novos reencontros nasceram da palavra escrita. Uma das cartas selecionadas foi endereçada por uma professora ao antigo professor de História. Localizado pela organização, ele respondeu ao texto e confirmou presença no lançamento da antologia.

Outra correspondência nasceu de forma coletiva: alunos do Ensino Fundamental de uma escola de União Paulista escreveram uma carta de agradecimento ao Centro Cultural de Monte Aprazível após uma visita pedagógica. Sensibilizada, a organização entrou em contato com os envolvidos e convidou representantes da instituição e autoridades locais para participarem da cerimônia.

Quando a correspondência ultrapassa o destinatário

Se toda carta nasce para alcançar alguém, a literatura lhe confere um destino mais amplo. Ao ser publicada, a correspondência deixa de pertencer exclusivamente à intimidade entre remetente e destinatário e passa a dialogar com leitores desconhecidos, capazes de reconhecer, nas experiências alheias, fragmentos de suas próprias histórias.

É nesse deslocamento — do privado para o coletivo — que reside uma das forças da antologia do Prêmio Literário Cartas, que ultrapassa fronteiras geográficas, linguísticas e culturais.

A edição de 2026 evidencia esse movimento ao reunir narrativas provenientes de diferentes regiões e culturas. Em meio a centenas de inscrições, figuram textos enviados por autores de cinco estados brasileiros — Bahia, Pará, Pernambuco, Rio Grande do Sul e São Paulo —, além do Distrito Federal, e de quatro países: Cabo Verde, França, Grécia e Moçambique.

A diversidade, entretanto, não foi o único elemento observado pela comissão julgadora. Segundo Rosalie, a qualidade literária apresentada nesta edição elevou significativamente o nível da disputa e tornou o processo de seleção um dos mais complexos desde a criação do prêmio.

“Houve muitos empates e foi decidido, ao final, mantermos os empatados, o que elevou o número de publicações de 50 textos para 63. A cada ano costumo trocar um dos jurados. Os que permanecem desde a primeira edição comentaram que tiveram grande dificuldade para avaliar em relação aos anos anteriores devido à elevação da qualidade literária apresentada”, comenta.

A decisão de ampliar o número de textos publicados rompeu, pela primeira vez, o limite inicialmente previsto pelo regulamento. Não se tratou de uma flexibilização de critérios, mas do reconhecimento de que determinadas cartas apresentavam qualidades estéticas equivalentes, tornando artificial qualquer tentativa de exclusão.

Para a organizadora, a ampliação do repertório cultural representado na antologia também dinamiza a própria identidade do prêmio, que deixa de refletir apenas uma realidade regional para dialogar com diferentes modos de compreender a experiência humana.

“Um dos aspectos apontados foi a diversidade cultural apresentada em linguagens específicas, pois recebemos cartas de outros estados e países. Esse contato com culturas diversas enriquece muito a antologia, empresta maior credibilidade ao Prêmio e oferece ao leitor um grau muito elevado de fruição literária”, explica ela.

Ainda que escritas a partir de vivências particulares, as correspondências acabam compondo um amplo painel de afetos universais. Há textos atravessados pela saudade, outros pela ausência, pelo reconhecimento, pela gratidão ou pela necessidade de dizer aquilo que permaneceu silenciado durante anos. O destinatário pode mudar; a condição humana permanece.

Rosalie observa que, embora algumas narrativas dialoguem diretamente com questões do presente, o sentimento predominante desta edição encontra suas raízes na memória.

“Algumas, sim, remetem ao momento atual. Entretanto, a tônica das cartas, pelo tema, na maioria, é de lembrança e de gratidão a pessoas que marcaram o passado do remetente”, expõe.

A própria estrutura da carta favorece uma forma de elaboração que dificilmente encontra espaço na comunicação cotidiana. Distante da velocidade das mensagens instantâneas, o gênero epistolar permite que o pensamento amadureça antes de se converter em palavra, abrindo espaço para uma sinceridade frequentemente adiada nas relações presenciais.

Ao refletir sobre esse aspecto, Rosalie identifica uma das razões pelas quais a escrita de cartas continua produzindo narrativas de intensa carga emocional.

“O gênero literário epistolar tem a magia de criar um diálogo à distância física e temporal, o que favorece ao remetente uma abertura de expressão que a realidade muitas vezes bloqueia, impedindo uma manifestação direta. É mais fácil escrever a alguém do que dizer pessoalmente, não acha?”, indaga ela.

Da esquerda para a direita, o jornalista e editor Deodoro Moreira, o publicitário Cyrineu Massucatto e Rosalie Gallo, durante o lançamento da antologia de 2025 – Foto: Milena Aurea

Um arquivo dos afetos do tempo presente

Desde a criação da proposta, o Prêmio Literário Cartas propõe um exercício que ultrapassa o incentivo à escrita. Ao reunir correspondências produzidas em diferentes lugares, por autores de distintas gerações e trajetórias, a iniciativa vem constituindo um acervo singular da sensibilidade vigente.

São textos que registram não apenas relações pessoais, mas formas de compreender o afeto, o tempo, a saudade, a perda, a rotina e a memória em uma sociedade que, paradoxalmente, nunca produziu tantas mensagens e tão poucos intercâmbios verdadeiramente demorados.

A publicação anual da antologia insere essas vozes em um patrimônio literário que preserva experiências individuais sem lhes retirar a dimensão universal. O que inicialmente foi escrito para alcançar um único destinatário passa a integrar um conjunto de narrativas capaz de permear por gerações e oferecer ao leitor diferentes modos de perceber a subjetividade humana.

A passagem da correspondência íntima para o espaço público ganha forma igualmente durante a cerimônia de lançamento. As cartas premiadas são lidas integralmente diante dos presentes, enquanto trechos das demais compõem uma exposição que convida o visitante a percorrer fragmentos de vidas desconhecidas. O gesto originalmente privado converte-se, então, em experiência coletiva.

De acordo com Rosalie, esse deslocamento não descaracteriza a natureza da carta; ao contrário, amplia seu alcance simbólico.

“A ausência de seu interlocutor, no circuito da comunicação, propicia uma liberdade muito maior para a expressão de sentimentos represados. Participar de um Prêmio como este, que tem jurados de alto nível literário, e ter trecho de seu texto exposto é recompensa pela coragem de se expor e pela libertação da emoção que esteve escondida por timidez ou falta de melhor oportunidade de expressão”, explana.

A organizadora, que conduz o projeto ao lado do jornalista e editor Deodoro Moreira e do publicitário Cyrineu Massucatto, recorda que a ideia de expor trechos das cartas surgiu por sugestão de Massucatto e acabou surpreendendo pelo comportamento espontâneo do público.

“Quando o Prêmio estreou, estávamos céticos e ansiosos pela reação do público. Cyrineu deu a ideia de fazer uma exposição de trechos das cartas e deixá-la no shopping para observarmos se os frequentadores paravam. Foi surpreendente. As pessoas liam atentamente os trechos e se interessavam em conhecer o conteúdo integral de algumas cartas que as tocavam mais de perto. Mantivemos a exposição desde então”, conta.

Fragmentos das cartas selecionadas na edição de 2025 integraram uma exposição que convidou o público a conhecer parte das narrativas reunidas pelo Prêmio Literário Cartas – Foto: Milena Aurea

Na próxima edição, os organizadores planejam acrescentar uma nova camada de intimidade à experiência do leitor. Os fragmentos expostos deixarão de ser apenas impressos e passarão a reproduzir a caligrafia dos próprios autores, aproximando ainda mais quem escreve de quem lê.

“No ano que vem pretendemos implantar uma novidade: as cartas premiadas terão seus trechos apresentados de forma manuscrita pelo próprio remetente. Acredito, particularmente, que ver a letra manuscrita de uma pessoa é um elo a mais na relação autor/leitor”, adianta Rosalie.

Ao olhar para o futuro do projeto, ela afirma que o principal compromisso permanece inalterado: preservar a escrita de cartas como espaço de elaboração da linguagem e da experiência humana, independentemente do resultado obtido pelos participantes.

“Ter a possibilidade de expor sentimentos, demonstrar a coragem de se expor, resgatar emoções de afeto e até de desafetos, qualquer que seja o motivo que levou o remetente a participar do Prêmio, para nós, é de importância fundamental. Respeitamos cada um dos participantes, selecionados ou não, premiados ou não. Todos já são vitoriosos por vencerem a timidez atual, que bloqueia os relacionamentos humanos”, enaltece.

Em sua análise sobre as transformações da linguagem e das relações sociais, a organizadora observa que a comunicação moderna passou a exigir um constante cuidado com as interpretações, circunstância que, em muitos casos, acaba limitando a espontaneidade da expressão.

“Infelizmente, na atualidade, temos que ter muito cuidado com o que falamos e escrevemos para que o outro não se sinta ofendido, atingido ou desmerecido. O que há anos era demonstração de carinho hoje soa como preconceito; o que se falava de um certo modo, hoje tem conotação diferente e proporciona interpretação avessa à originalmente dada. O objetivo principal do Prêmio é resgatar a escrita de cartas, e a catarse pessoal fica no âmbito de cada um que se liberta para poder falar, ainda que à distância, com quem gostaria que soubesse de seus sentimentos e de suas ideias”, elucida.

O Prêmio Literário Cartas testemunha a permanência da escrita epistolar, distante de qualquer ideia de obsolescência. Em tempos velozes e frenéticos, no qual a urgência da comunicação reduz o espaço da reflexão, a carta continua oferecendo aquilo que lhe é basilar: a possibilidade de permanecer, de se estender para além do instante. Não apenas como mensagem dirigida a alguém, mas como testemunho sensível de uma época e de seus modos de sentir, lembrar e existir.

A lista completa dos cinco primeiros colocados, dos autores selecionados para integrar a antologia e outras informações sobre a iniciativa podem ser consultadas no site oficial do concurso premiocartas.com.br.