Bispos de Votuporanga e Jales assinam carta sobre 2º turno que critica ‘políticas de devastação’

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Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) em agenda de campanha na quarta-feira (21/10) — Foto: Reprodução

A carta não cita nominalmente Lula nem Flávio Bolsonaro. No documento, os religiosos afirmam que “o cenário é muito grave” e que a eleição pode representar “uma mudança profunda nos rumos da nação”. Procurada, a CNBB reafirmou a defesa da democracia, do respeito aos resultados das urnas e da participação consciente dos eleitores no segundo turno.


Um grupo de 64 bispos católicos de 21 estados brasileiros divulgou, nesta quinta-feira (22.out), uma carta sobre o segundo turno das eleições presidenciais de 2026.

“O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI [Doutrina Social da Igreja], a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum”, afirma um trecho.

Intitulada “Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026”, a manifestação reúne nomes de 47 bispos, arcebispos e bispos eméritos de diferentes dioceses e arquidioceses brasileiras.

Segundo dados divulgados pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em outubro de 2026, o país tem 498 bispos, dos quais 325 estão em atividade e 173 são eméritos. Os 64 religiosos listados na carta representam cerca de 12,9% do episcopado brasileiro, considerando também os eméritos.

O texto não menciona nominalmente o presidente Lula (PT) nem o senador Flávio Bolsonaro (PL), que disputam o segundo turno.

No entanto, faz referências ao governo do pai de um dos candidatos. Ao abordar o acesso a armas, por exemplo, os religiosos afirmam que “um dos candidatos promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu Governo”.

Os religiosos afirmam que pretendem contribuir para a decisão dos eleitores católicos a partir dos ensinamentos sociais da Igreja.

“Queremos auxiliar os católicos em sua decisão, apontando alguns pontos de antagonismo entre o ensinamento social da Igreja e uma das candidaturas em disputa”, diz a carta.

O documento também faz uma comparação com experiências autoritárias do século XX e afirma que a eleição pode representar uma mudança profunda nos rumos do país.

“Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século XX deixaram cruéis e amargas lembranças”, afirmam.

Em vídeo sobre a manifestação, Dom Luiz Fernando Lisboa, arcebispo da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim/ES, também defende que os católicos considerem os ensinamentos da Igreja ao escolher o próximo presidente.

“Neste momento, não cabe hesitação. Precisamos tomar posição em nome do Santo Evangelho e da doutrina social da Igreja”, afirma o religioso.

Procurada, a CNBB reiterou o posicionamento divulgado nesta quarta-feira (21), em defesa da Constituição, do Estado Democrático de Direito, do respeito aos resultados das urnas e da participação consciente dos eleitores no segundo turno. A entidade não se manifestou especificamente sobre a carta dos 47 bispos.

“Reafirmamos a importância da defesa da Constituição, do Estado Democrático de Direito e do respeito aos resultados legítimos das urnas, expressão da liberdade de escolher os que governam. Encorajamos a participação consciente de todos neste segundo turno das eleições”, afirma a mensagem oficial.

Leia abaixo a íntegra da carta e a relação dos nomes apresentados como signatários.

CARTA DE BISPOS CATÓLICOS AO POVO DE DEUS DIANTE DO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2026.

22 de outubro de 2026

O Senhor Deus falou, quem não profetizará? (Am 3,8)

O papa Leão XIV, em sua encíclica Magnifica Humanitas, diz: “Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar ‘não ser cúmplice’” (216).

Nós, bispos católicos de diversas dioceses do Brasil em comunhão com a CNBB, alinhados com a Mensagem do Conselho Permanente ao Povo Brasileiro, de 21/10/2026, acreditamos ser necessário e urgente, aplicarmos ainda mais em nossas preces pelo País e multiplicar mensagens para ajudar nos discernimentos, já que vivemos no Brasil uma dessas situações mencionadas pelo Papa Leão XIV, diante do cenário eleitoral dado, que exige tomar posição em nome do Santo Evangelho e da Doutrina Social da Igreja (DSI).

“O anúncio do Evangelho não pode esquecer a vida concreta dos povos” (Rerum Novarum, 15). O católico e a católica devem exercer a sua cidadania inspirados pela DSI e decidir o seu voto à luz de seus ensinamentos. Devem deixar “que o Evangelho […] avalie as estruturas econômicas e políticas que, como viria a recordar São João Paulo II, podem tornar-se verdadeiras e próprias ‘estruturas de pecado’, para que nenhuma pessoa e nenhum povo sejam vistos como prescindíveis nos processos de desenvolvimento (Magnifica Humanitas, 36)

Duas candidaturas estão colocadas. Independentemente de votarmos ou não, um dos candidatos será o próximo presidente do Brasil. Mas é preciso votar. Votem para fazer a diferença. O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI, a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum. Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século XX deixaram cruéis e amargas lembranças.

Queremos auxiliar os católicos em sua decisão, apontando alguns pontos de antagonismo entre o ensinamento social da Igreja e uma das candidaturas em disputa.

As mudanças tecnológicas do mundo atual “não podem ser avaliadas apenas em termos de eficiência, mas a partir da dignidade do trabalhador, do direito a uma remuneração suficiente e da efetiva possibilidade de participar na vida social” (Magnifica Humanitas, 37). A candidatura que sempre foi contra o fim da escala 6×1 e propunha pagar o salário por hora trabalhada, não reconhece a dignidade do trabalhador e poderá voltar a este tema.

“A promoção do bem comum nunca pode ser separada do respeito pelo direito dos povos a existir […]. Qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, por isso, inaceitável (Magnifica Humanitas, 64). Um dos candidatos promete submissão do Brasil aos Estados Unidos (EUA), fez parte de uma conspiração para taxar produtos brasileiros, defende a intervenção estrangeira em nossas eleições e promete entregar nossas terras raras à exploração dos EUA.

A exortação apostólica Dilexi Te (Eu te amei, sobre o amor para com os pobres) critica os que pensam que “seria melhor deixar [os pobres] na miséria e ensinar-lhes antes a trabalhar” e que “a liberdade do mercado levará naturalmente à solução do problema da pobreza” (114). O partido de um dos candidatos sempre foi publicamente contrário aos programas sociais e de combate à pobreza, por desconhecerem as causas da miséria no Brasil, mesmo que agora o seu candidato diga que vai continuar alguns programas sociais. Estão, portanto, em contradição com a evangélica opção preferencial pelos pobres, reafirmada nos principais documentos de nossa Igreja.