
Segunda edição do Hevea Day reuniu produtores, especialistas e representantes do setor em Votuporanga para debater produtividade, rastreabilidade, acesso a mercados e os principais desafios da heveicultura.
@caroline_leidiane
A busca por maior produtividade, sustentabilidade e competitividade na cadeia da borracha natural pautou a segunda edição do Hevea Day, realizada nesta quinta-feira (11), em Votuporanga.
Promovido pelo Sebrae-SP, Instituto Agronômico (IAC) e Sindicato Rural de Votuporanga, o encontro reuniu produtores rurais, pesquisadores, técnicos e representantes do setor para debater estudos, tecnologias e estratégias voltadas ao futuro da heveicultura.

A programação teve início com a apresentação dos serviços oferecidos pelo Sebrae-SP ao agronegócio e seguiu com palestras sobre certificação, rastreabilidade, melhoramento genético e perspectivas de mercado.
Um dos destaques foi a visita ao campo experimental do IAC, onde os participantes conheceram de perto clones desenvolvidos pelo instituto e os resultados obtidos em décadas de pesquisa.

Segundo a analista de negócios do Sebrae-SP, Roberta Zuculoto, a programação desta edição foi construída a partir de demandas apontadas pelos próprios participantes no ano passado.
“Uma coisa bem legal é que, na edição anterior fizemos uma avaliação de satisfação com espaço para sugestões. Então pegamos o que eles deixaram para nós, o que gostariam que tivesse, e trouxemos neste segundo encontro a questão da certificação. Vamos falar sobre o cenário da seringueira, sobre como valorizar o produto para depois ter um ganho maior e como certificar o seringal”, explicou.

A aproximação entre desenvolvimento científico e campo também esteve no centro das abordagens. Responsável pelos trabalhos conduzidos pelo IAC em Votuporanga, o pesquisador Dr. Erivaldo José Scaloppi Júnior apresentou os avanços obtidos pelo programa de melhoramento genético da seringueira, que desenvolve materiais adaptados às condições brasileiras.
De acordo com o ele, os novos clones lançados pelo instituto têm proporcionado ganhos expressivos de produtividade e redução no tempo necessário para o início da exploração comercial.
“Já temos vários casos reais de produtores iniciando a sangria com cinco anos. Quando você reduz esse período de maturidade, antecipa o retorno do investimento. Esses materiais vêm apresentando, em média, mais de setenta por cento de produção de borracha em relação aos materiais tradicionais”, afirmou.

Scaloppi destacou ainda que a heveicultura paulista se consolidou a partir de décadas de estudos científicos voltados à sustentabilidade e ao aprimoramento da cultura, e que o trabalho atual representa a continuidade de um processo iniciado nos anos 1990.
Hoje, segundo o pesquisador, o Estado conta com materiais genéticos desenvolvidos especificamente para as condições climáticas locais, ampliando a eficiência produtiva e econômica dos seringais.
Outro tema que ganhou protagonismo durante o evento foi a certificação ambiental como estratégia para incorporar valor à produção e ampliar o acesso a novos mercados.

Coordenador de compras da Noroeste Borracha e consultor da Hevea Ambiental, Renato Arantes apresentou aos produtores as oportunidades ligadas à certificação FSC (Forest Stewardship Council), sistema internacional que atesta práticas sustentáveis de produção.
“É uma certificação muito antiga que existe no mundo inteiro, e essa certificação é originalmente para madeira. Agora, nós estamos adaptando no Brasil para a seringueira. A ideia é que os produtores consigam agregar valor ao produto, tendo uma borracha rastreada, com origem comprovada, produzida em áreas sem desmatamento e que cumpram todas as legislações ambientais e sociais. Existe um mercado que remunera muito bem esse tipo de produto e que cresce a cada dia”, esclareceu. Conforme Renato, a proposta é compartilhar com os produtores possíveis soluções para os desafios enfrentados atualmente pela atividade.

Além da valorização comercial, a certificação exige adequações que contribuem para a organização da propriedade rural e para o cumprimento de exigências relacionadas a questões trabalhistas, ambientais e de governança.
A busca por alternativas diante das mudanças no setor permeou a consistência do evento. Nesse contexto, o produtor rural Gilson Pinheiro de Azevedo avaliou que a certificação pode abrir novas oportunidades para a atividade, especialmente diante da crescente concorrência internacional.

“O mercado brasileiro tem mudado de dois anos pra cá. Setenta por cento dos pneus que rodam no Brasil são chineses. A entrada desses produtos diminuiu a produção nacional de borracha natural produzida aqui. Por isso, precisamos abrir novas oportunidades e adequar nossa produção às exigências internacionais. O objetivo principal não é apenas agregar valor, mas garantir escoamento para a produção”, avaliou.
Pinheiro frisou que a certificação e a rastreabilidade podem abrir portas para exportação, especialmente para mercados que exigem comprovação de origem e práticas sustentáveis.
Entre o diálogo dos participantes, esteve a dimensão social da cadeia produtiva. Um dos exemplos foi trazido pelo presidente da Unihevea, cooperativa sediada em Prata (MG), Celso Carvalho. Ele compartilhou experiências voltadas à capacitação profissional, geração de renda e estímulo a novos plantios.

A cooperativa, criada em 2021, reúne atualmente centenas de cooperados entre produtores e sangradores e movimentou cerca de 11 milhões de quilos de borracha na última safra. Uma das iniciativas em andamento está o projeto direcionado à agricultura familiar, com distribuição de mudas e incentivo ao cultivo consorciado.
“A seringueira é uma cultura economicamente muito viável, principalmente para a agricultura familiar. Ambientalmente, traz muitos benefícios e, socialmente, ajuda a fixar as pessoas no campo, melhorar a renda familiar e proporcionar qualidade de vida. É um trabalho de formiga, mas que vai evoluindo aos poucos”, ressaltou.
Para o presidente do Sindicato Rural de Votuporanga, Pedro Stefanelli Filho, eventos como o Hevea Day cumprem um papel estratégico ao aproximar conhecimento técnico dos produtores e estimular a diversificação das atividades rurais.
“Quanto mais informação e pesquisa chegarem ao produtor, melhor será a tomada de decisão no campo. Precisamos mostrar às novas gerações que a agricultura oferece oportunidades e que existe espaço para empreender e construir um futuro dentro da atividade rural”, disse.
A expectativa das entidades organizadoras é que o Hevea Day se consolide como um espaço permanente de difusão tecnológica para uma cadeia produtiva que segue investindo em inovação, sustentabilidade e novas oportunidades de mercado.





