
A Rede Panapanã de Mulheres do Noroeste Paulista completa 10 anos conectando mulheres de diferentes municípios, sustentando a mobilização feminista e ampliando espaços de escuta, formação e atuação política.
@caroline_leidiane
No dia 19 de março, a Rede Panapanã de Mulheres do Noroeste Paulista completou 10 anos de fundação. Criada em 2016, o grupo nasceu da necessidade concreta de enfrentar desigualdades históricas que atravessam a vida das mulheres, especialmente em cidades do interior, onde o acesso a políticas públicas e espaços de debate ainda é mais limitado.
O nome “Panapanã”, de origem indígena (tupi), significa “um bando de borboletas” ou “uma nuvem de borboletas em migração” e traduz, para o coletivo, ideias de transformação, liberdade, diversidade e beleza como essência, não aparência.
De caráter apartidário, a rede atua na defesa dos direitos das mulheres como direitos humanos, posicionando-se contra diferentes formas de exploração, opressão e discriminação — seja por classe, raça, etnia, religião, geração, território, condição física ou orientação sexual.
Ao longo de sua trajetória, a Rede organizou e participou de diversas atividades voltadas a temas como saúde, educação, enfrentamento à violência, políticas públicas e autonomia feminina.
Entre os objetivos está a construção de conexões com mulheres de outras organizações, promovendo trocas e fortalecendo o movimento feminista. Ainda em seu primeiro ano de atuação, por exemplo, o grupo trouxe a Votuporanga as militantes históricas Amelinha Teles e Criméia de Almeida, integrantes da União de Mulheres de São Paulo, ampliando o diálogo com experiências consolidadas do movimento.
Desde a origem, a Rede Panapanã já se estruturou de forma articulada entre municípios como Votuporanga, Fernandópolis, Jales, Turiúba, Valentim Gentil e São José do Rio Preto, conectando-se também a movimentos feministas em âmbito estadual e nacional, como a Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), a rede de Promotoras Legais Populares (PLP) e Associação Mulheres pela Paz.

A fundação do coletivo está diretamente ligada à trajetória de militância de suas articuladoras. Ao lado da arquiteta urbanista e docente Terezinha de Oliveira Gonzaga, a assistente social e servidora pública Angelita Toledo traz similarmente uma experiência consolidada no movimento feminista, com atuação em diferentes estados, como Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso.
Terezinha relembra que essa bagagem foi fundamental para a construção da Rede já em diálogo com outras frentes organizadas.
“Tanto eu quanto a Angelita já atuávamos na militância em outros territórios — eu em São Paulo, desde 1975, onde fui uma das fundadoras da União de Mulheres de São Paulo, em 1981, e ela em diferentes estados. Essa vivência foi essencial para a construção da Rede Panapanã”, afirma.
Ao refletir sobre esse percurso, Terezinha contextualiza a própria formação política como parte de um processo contínuo e coletivo.
“Vivencio esses coletivos de mulheres há 51 anos, na busca por cidadania, e foi essa participação que sempre me energizou nos territórios local, nacional e internacional, ampliando minha compreensão de que é uma luta de longo prazo, pois nossa opressão foi construída ao longo de milhares de anos e criou teias muito complexas em todas as ramificações da sociedade”, recorda.
Entre conquistas e permanências
Ao completar uma década, a avaliação sobre os impactos da Panapanã é marcada por avanços, mas também pela consciência de que as transformações estruturais ainda são lentas. Segundo Terezinha, o coletivo teve papel importante na ampliação do debate público sobre as condições vividas pelas mulheres na região.
“A situação da mulher na região não foi alterada substancialmente como resultado direto da Rede Panapanã, mas contribuímos para veicular as discussões sobre essas problemáticas”, pontua.
Entre as ações concretas, está a articulação que resultou na alteração da lei do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher em Votuporanga, garantindo a participação de movimentos sociais no espaço institucional. A Rede também atuou no fortalecimento do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (Cram) e na realização de conferências e debates públicos.
A presença nas ruas sempre foi uma marca do coletivo, com oficinas, caminhadas e campanhas, como as mobilizações contra a cultura do estupro e o feminicídio. Levantamentos sobre casos de violência na região também foram realizados e apresentados em atividades públicas, ampliando a visibilidade da questão.
Formação, território e novas gerações
Ao longo dos anos, a Rede Panapanã se consolidou como espaço de formação política e troca de experiências. Atividades em escolas, universidades, eventos e praças ajudaram a ampliar o alcance das discussões, especialmente entre jovens.
A psicóloga Maira Rodrigues, integrante desde a fundação e conselheira municipal entre 2022 e 2023, destaca o impacto dessa vivência coletiva em sua trajetória pessoal e profissional.
“A Rede Panapanã é mais do que um coletivo feminista para mim — é uma família, um espaço de acolhimento, de aprendizado e de luta. As amigas que fiz, o apoio incondicional, o compartilhamento de conhecimentos e experiências… tudo isso me fez crescer como pessoa e como mulher”, relata.
Ela também ressalta o papel do grupo na conscientização sobre direitos. “As manifestações, os atos, as discussões contribuíram para que eu entendesse melhor os direitos das mulheres e a importância de lutar por eles. A Rede Panapanã me mostrou que juntas somos mais fortes, que a união é a chave para conquistar e manter nossos direitos”, conclui.
Com a pandemia, parte das ações presenciais foi reduzida, e o grupo passou a se reorganizar por meio de redes sociais e encontros virtuais. Ainda assim, manteve sua mobilização ativa, mesmo diante de mudanças na vida de integrantes, como maternidade, deslocamentos e dedicação à formação acadêmica.
Um percurso histórico em movimento
A trajetória da Rede Panapanã se insere em um movimento mais amplo de conquistas feministas no Brasil, marcado por avanços históricos — entre eles: o direito ao voto feminino, instituído em 1932; a criação das primeiras Delegacias de Defesa da Mulher, em 1985; a institucionalização de políticas públicas com a criação da Secretaria de Políticas para as Mulheres, em 2003; a promulgação da Lei Maria da Penha, em 2006, como marco no enfrentamento à violência doméstica e, em 2015, a aprovação da Lei nº 13.104, que tipifica o feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio.
Mais recentemente, ampliaram-se os debates e as garantias no campo dos direitos reprodutivos e da participação política.
Interseccionalidade e novos desafios
A atuação da Rede Panapanã reage intrinsecamente aos debates contemporâneos do feminismo, incorporando a interseccionalidade como princípio estruturante. Questões de raça, classe, território e orientação sexual atravessam as pautas e manifestações do coletivo, assim como temas ligados à saúde, educação, moradia e autonomia econômica.
Nos últimos anos, novas frentes de atuação foram incorporadas, como o enfrentamento à violência política de gênero e à violência obstétrica — temas que ganharam visibilidade no cenário nacional, mas ainda encontram resistência institucional e social.
Terezinha chama atenção para o contexto atual, marcado por tensionamentos e disputas de narrativa.
“Nos últimos 10 anos, grupos masculinistas têm nos atacado, inclusive fisicamente em alguns contextos do país. Tivemos que ampliar nossas bandeiras para enfrentar a violência política contra mulheres e também a violência obstétrica, que ainda é questionada por setores da sociedade”, conta.
Integrante da Rede, a jornalista, fotógrafa e feminista Ester Alkimim Zanco Rodella amplia essa leitura ao sublinhar que, apesar dos avanços históricos, os direitos das mulheres seguem sob constante ameaça.
“A Rede Panapanã nasceu com a proposta de amplificar as lutas, anseios e conquistas das mulheres e também de propor ações que as posicionem como protagonistas na sociedade. Se hoje temos direitos em áreas como saúde e educação, por exemplo, é importante saber que muitos deles foram obtidos através das lutas de mulheres (e de homens também) que vieram antes de nós. Mas por que ainda existe tanta violência contra as mulheres? A luta é contínua e, conforme a sociedade se transforma, seja cultural ou tecnologicamente, novas demandas surgem, que requerem ações tanto do poder público como da população, já que todos são impactados”, explana.
A partir de dados recentes, ela adverte para o cenário de retrocessos e a fragilidade na implementação de políticas públicas.
“Toda conquista é passível de perda; é muito difícil avançar em um direito, mas é fácil perdê-lo. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de 2023, mostra que, a partir da primeira década dos anos 2000, o avanço do neoconservadorismo no Legislativo brasileiro e, posteriormente, no Executivo, promoveu um desmonte na agenda de lutas das mulheres. Outro relatório, do Tribunal de Contas da União (TCU), de 2025, chamado ‘Revisão de Políticas Públicas para Equidade de Gênero e Direitos das Mulheres’, aponta que, entre 2019 e 2022, foram autorizados R$ 68,22 milhões para enfrentamento da violência contra a mulher, mas apenas R$ 35,34 milhões foram aplicados. Em 2022, o crédito autorizado foi de R$ 950 mil, sem nenhuma execução, o que comprometeu inclusive campanhas públicas sobre o tema”, analisa.
Diante desse contexto, Ester ressalta a importância da mobilização contínua.
“Isso tudo é só uma pequena parte dos inúmeros estudos que apontam para essa onda de retrocessos. É urgente cobrarmos nossos representantes na política e no Judiciário e nos mobilizarmos para essa luta que parece não ter fim, mas que é tão necessária”, finaliza.
Presente e futuro: permanência como estratégia
Mesmo diante dos desafios, a Rede Panapanã mantém como horizonte a continuidade da luta e a ampliação do diálogo com a sociedade. A defesa da criação de uma Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres em Votuporanga, por exemplo, segue como uma das principais reivindicações do grupo.
Para Terezinha, o futuro exige persistência.
“O futuro nos pertence. Precisamos continuar nossa caminhada firmes e fortes, ampliando os debates com a sociedade e fortalecendo nossas propostas para a consolidação dos direitos femininos”, projeta.

Posicionamento político
Em meio à efervescência do debate nacional, o grupo se manifesta sobre temas de interesse público e marca posição. Sobre a eleição da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara, ocorrida no dia 11 deste mês, o coletivo foi enfático:
“A Rede Panapanã se posiciona de forma firme em apoio à deputada Erika Hilton na presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. Sua trajetória é marcada por coragem e por uma atuação concreta: são dezenas de propostas voltadas às mulheres, com destaque para o combate à violência de gênero, os direitos reprodutivos e a proteção de mulheres em situação de vulnerabilidade. Reduzir sua legitimidade ao fato de ser uma mulher trans é uma falácia que tenta apagar sua construção política e seu compromisso com os direitos das mulheres. Causa preocupação, inclusive, que parte da população se posicione contra sua presidência sem sequer conhecer a importância da Comissão. Para nós, sua liderança é indiscutível: Erika é uma mulher que enfrenta, propõe e não recua — exatamente o tipo de representação que precisamos”, manifestam as integrantes.
Neste aniversário, a Rede Panapanã não recua e reafirma, com vigor, sua identidade coletiva — a beleza da resistência de um coletivo feminino que segue reivindicando, construindo, transformando e conquistando, sustentando sua presença mesmo em meio às tensões.




