Afinal, quem é essa tal psicanálise?

1
Ana Suy durante o programa da TV Cultura ‘Café Filosófico’, gravado em 2024. (foto Instituto CPFL)

Autora do best-seller ‘A gente mira no amor e acerta na solidão’, a psicanalista e escritora Ana Suy apresenta, de forma acessível, os fundamentos, limites e impasses dessa prática de escuta

Dentre as obras de Ana Suy estão: ‘A gente mira no amor e acerta na solidão’, ‘Não pise no meu vazio’, ‘As cabanas que o amor faz em nós’ e ‘A corda que sai do útero’. (foto reprodução)

@caroline_leidiane

A psicanálise voltou ao centro do debate público nos últimos anos. Seja pelo crescimento da clínica on-line, pela circulação de conceitos nas redes sociais ou pelo sucesso editorial de autores que escrevem para além do meio acadêmico, o tema passou a frequentar conversas cotidianas, colunas culturais e listas de mais vendidos.

Um dos casos mais emblemáticos é o livro “A gente mira no amor e acerta na solidão” (2022), da psicóloga, psicanalista e escritora Ana Suy, best-seller com mais de 500 mil exemplares vendidos, publicado pela Editora Planeta, pelo selo Paidós. Também conhecido como o “amarelinho”, apelido carinhoso entre os quase 600 mil seguidores da autora em seu perfil do Instagram, o livro parte do pressuposto que a solidão é uma condição para o amor.

 

O que se entende por psicanálise

O interesse crescente pela psicanálise, no entanto, também produz certos ruídos: conceitos são usados fora de contexto, práticas distintas são confundidas com o campo analítico e a própria ideia de análise, por vezes, se confunde com aconselhamento rápido ou técnica de bem-estar.

Para Ana Suy, que atua na clínica desde 2008, compreender o que define a psicanálise — e o que não é psicanálise — é um ponto de partida indispensável para distinguir acerca do tema.

Criada por Sigmund Freud no final do século XIX, a psicanálise nasce como uma investigação do inconsciente a partir da fala, da escuta e da relação estabelecida entre analisante e analista.

Diferentemente de métodos sugestivos ou diretivos, ela se sustenta na transferência — um tipo específico de vínculo que permite ao sujeito dizer algo de si que não estava previamente organizado.

 

O que não muda, mesmo com o passar do tempo

Conforme Ana Suy, essa definição não se orienta pelas tendências de cada época, mas pelos próprios fundamentos da psicanálise.

“A psicanálise é uma investigação sobre o inconsciente para alguém que tem um motivo para fazer isso. Ou seja, tem algum tipo de sofrimento implicado aí”, explica.

Segundo ela, esse trabalho acontece necessariamente na relação entre duas posições bem definidas:

“Um analisante e aquele que escuta e dirige o tratamento, que vai ser o analista.”

Ana Suy destaca que a psicanálise está ancorada na teoria freudiana e em seus desdobramentos posteriores, como os do psicanalista francês de Jacques Lacan.

“O Lacan vai elencar quatro conceitos fundamentais da psicanálise, que são: inconsciente, pulsão, transferência e repetição”, expõe.

Esses pilares funcionam como critérios mínimos para que uma prática possa ser reconhecida como psicanalítica.

 

Até onde vai a reinvenção — e onde ela não pode ir

Apesar de ser campo vivo, em constante elaboração, Ana faz um alerta: a abertura à reinvenção não autoriza qualquer mistura conceitual.

“A psicanálise, embora ela seja reinventável e vá se ressignificando, ela não pode mudar até virar outra coisa”, afirma.

Um exemplo clássico dessa distinção aparece na própria origem da elaboração. Freud iniciou seus estudos clínicos com a hipnose, mas a abandonou ao perceber que ela impedia a produção da transferência — condição fundamental da análise.

“O Freud vai dizer que a psicanálise nasce porque a hipnose é abandonada”, salienta.

Por isso, Ana é direta: “Não tem como trabalhar com psicanálise e hipnose ao mesmo tempo, porque isso vai contra o próprio fundamento freudiano da psicanálise.”

 

Como escutar o presente sem abandonar os fundamentos

Se os fundamentos não mudam, a escuta, necessariamente, se confronta com o tempo em que vive. As queixas que chegam à clínica são atravessadas por transformações sociais, tecnológicas e culturais, e ignorar esse contexto seria, segundo Ana, uma falha.

“Se um analista encontra na escuta qualquer coisa deslocada do seu tempo, não está escutando”, observa.

De acordo com ela, não existe análise fora da história do sujeito e do mundo que o cerca. Ao mesmo tempo, isso não significa utilizar teorias estabelecidas a situações novas. Ou seja, diante da leitura psicanalítica, entre termos e condições, prevalece a plasticidade e fluidez.

“A psicanálise não é aplicação de uma teoria que está pronta. Ela é constantemente a reinvenção da sua própria teoria a cada caso”, aponta.

Essa posição recoloca o analista em uma cadeira desconfortável de aprendizado contínuo e perene.

“A cada caso que o analista recebe, ele não vai aplicar uma teoria que já está pronta. Ele vai aprender de novo a teoria através daquilo que o paciente conta”, explana ela.

 

Quem forma um psicanalista?

É nessa tensão entre fundamentos basilares e escuta singular que a psicanálise encontra sua atualidade. Em diálogo com essa questão, está a formação do psicanalista, que não se organiza como um percurso fechado ou meramente acadêmico, mas como um processo contínuo, sustentado pelo chamado tripé psicanalítico: a análise pessoal, o estudo teórico rigoroso e a supervisão clínica.

No Brasil, a psicanálise não exige graduação específica em Psicologia, por exemplo, nem se limita a formações universitárias formais — ainda que existam cursos livres e especializações.

O que define o analista é, sobretudo, o reconhecimento ético e clínico entre seus pares, em um campo que se sustenta menos por títulos e mais pela “atenção flutuante” (em suma: técnica de escuta desprendida de julgamentos ou preconceitos) diante da palavra do analisante.

 

E quando o encontro acontece pela tela?

A pandemia da Covid-19 acelerou um processo que já estava em curso: a consolidação da clínica on-line. Hoje, em muitos contextos, a análise mediada por telas deixou de ser exceção. Do ponto de vista psicanalítico, essa mudança permanece em elaboração.

“Ainda é uma coisa nova, embora a gente já tenha cinco, seis anos disso”, aponta Ana. Ela destaca, porém, que a tecnologia ampliou o acesso à análise para pessoas que, de outra forma, não chegariam à clínica. “Tem análises que não aconteceriam se não fosse a tela.”

Entre os motivos estão a ausência ou escassez de analistas em cidades pequenas, o receio de exposição em contextos de proximidade social, a dificuldade de sair de casa por inibição e até o primeiro contato com a psicanálise pelas redes sociais.

“Descobre-se que existe psicanálise porque segue um psicanalista que fala disso e, a partir disso, fica com vontade de fazer análise”, exemplifica.

Quanto aos limites, Ana evita generalizações.

“Acho que a gente tenta muito no caso a caso. Não acho que seja possível dar uma resposta coletiva a respeito disso”, reflete.

 

Psicanalista ou psicólogo: dá no mesmo?

Outra confusão recorrente diz respeito às diferenças entre psicólogos que atuam a partir da psicanálise e psicanalistas propriamente ditos. Segundo Ana Suy, a distinção não é apenas formal, mas ética, como abordado em parágrafos acima.

“O psicanalista é alguém que vai se dedicar há muitas horas de análise pessoal e estudo teórico.” Fazer análise, lembra ela, implica um envolvimento profundo com a própria história. “Isso não é sem consequências”, declara.

Já o psicólogo que atua a partir da psicanálise pode estar em um percurso de formação, reconhecendo que ainda há um caminho a percorrer.

“São pessoas cuidadosas para não se dizerem psicanalistas sem que tenham reconhecimento entre seus pares e sem que tenham avançado o suficiente na análise e nos estudos”, esclarece.

Ana reconhece que essa é uma visão otimista, mas afirma que é o que observa em seu entorno profissional.

 

Muda o lugar, muda o sofrimento?

Ao pensar o sofrimento psíquico fora das grandes metrópoles, a psicanalista relativiza as diferenças geográficas. Em sua avalição, embora os contextos mudem, a experiência humana permanece atravessada por impasses semelhantes.

“O ser humano sofre, ama, se deixa doer, se defende para não se deixar doer”, explicita ela.

Segundo Ana, os centros urbanos tendem a mascarar esses conflitos com excesso de demandas, falta de tempo e estímulos constantes, mas isso não elimina o mal-estar. “Independente de onde se está, continua sendo problemático”, relativiza.

 

Por que, afinal, isso ainda importa?

Diante de um mundo demasiadamente orientado por respostas rápidas, soluções biológicas e inteligências artificiais, Ana Suy não vê a psicanálise ameaçada. Ao contrário:

“Uma vez que a gente se depara com a existência do inconsciente, é impossível se desfazer disso”, avalia.

Nesse contexto, ela reflete sobre a dimensão da psicanálise perante o conflito psíquico na civilização contemporânea.

“Quanto mais o mundo fica muito demandante de respostas que sejam excessivamente biológicas, ou quanto mais a gente fica tomado pela existência de inteligências artificiais, por exemplo, que são coisas do nosso tempo, mais a gente vai sentindo necessidade de encontros com seres humanos. A gente vai sentindo necessidade de reconhecer o encontro com o limite de cada um, e eu acho que a psicanálise é muito amigável à nossa humanidade. No sentido do limite de cada um, das faltas de cada um, dos impossíveis de cada um. Então, eu acho que a gente vive um mundo muito carente e vai precisar de psicanálise por um tanto quanto de tempo ainda”, finaliza ela.