
Imunizante experimental chamado Calixcoca busca bloquear os efeitos da droga no cérebro. Para o psiquiatra José Rubens Naime, que atua há mais de 30 anos na área, a estratégia biológica pode auxiliar no tratamento, mas precisa estar associada a uma rede de apoio.
@caroline_leidiane
Uma vacina brasileira em desenvolvimento pode representar determina perspectiva no caminho ao enfrentamento da dependência de cocaína e crack. Batizado de Calixcoca, o imunizante terapêutico foi criado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e está prestes a avançar para uma etapa decisiva da pesquisa: os testes clínicos em humanos.
O projeto, iniciado em 2015, parte de uma estratégia diferente das abordagens tradicionais de tratamento. Em vez de agir diretamente no cérebro, a vacina estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos capazes de se ligar às moléculas da droga na corrente sanguínea. Dessa forma, a substância se torna grande demais para atravessar a barreira hematoencefálica e chegar ao sistema nervoso central, impedindo que provoque os efeitos psicoativos associados ao consumo.
A expectativa dos pesquisadores é que esse bloqueio reduza o estímulo de prazer provocado por cocaína ou crack, ajudando no tratamento da dependência e diminuindo o risco de recaídas.
Na avaliação do médico psiquiatra José Rubens Naime, a proposta do imunizante faz sentido pela visão fisiológica, pois atua diretamente no mecanismo que permite que a droga produza seus efeitos no cérebro.
“Do ponto de vista orgânico, isso é verdade. Não atravessando a barreira liquórica cerebral, não há como impregnar a sinapse cerebral nem estimular o gasto de noradrenalina, serotonina e, principalmente, dopamina, evitando, assim, a dependência e a tolerância (ou seja, aumento do uso em peso)”, reflete.
Porém, embora a inovação científica seja considerada promissora, a dependência química é um fenômeno complexo e multifatorial. Condições biológicas, emocionais e sociais influenciam tanto o início quanto a manutenção do uso de drogas.

Nesse contexto, Naime ressalta que a vacina, por si só, não resolve todas as dimensões do problema.
De acordo com ele, a recuperação envolve a reconstrução de vínculos e a compreensão das experiências subjetivas que atravessam a trajetória do adicto.
“Só o bloqueio da molécula de cocaína e crack não garante o livramento da dependência. Os fatores sociais, psicológicos e econômicos são importantes e, mais que isso, os fatores socioafetivos familiares”, esclarece.
Outro ponto é a possibilidade de alguns usuários tentarem contornar o efeito do imunizante. Em teoria, a ausência do psicoativo poderia levar a tentativas de aumentar a dose da droga ou buscar outras substâncias.
Para o psiquiatra, esse risco existe especialmente quando o tratamento não considera o contexto emocional e social da pessoa em recuperação.
Ele defende que o acompanhamento terapêutico e psiquiátrico seja parte central do processo de reabilitação.
“Se não forem considerados os fatores sociofamiliares e emocionais por meio de um atendimento humanizado que leve em conta o meio vivencial, o tipo de família e amigos, além de uma boa assistência psicológica e psiquiátrica, com certeza haverá boicotes à ação da vacina”, alerta Naime.
Caso a vacina se mostre segura e eficaz nos testes clínicos em humanos, o imunizante pode representar um avanço importante nas estratégias de enfrentamento da dependência de crack e cocaína.
Atualmente, não há medicamentos amplamente aprovados para tratar esse tipo de dependência. As opções existentes são voltadas principalmente ao controle de sintomas, como abstinência e impulsividade, enquanto os tratamentos se concentram em acompanhamento psicológico, psiquiátrico e em estratégias de reinserção social.
Ao mesmo tempo, a dependência química é considerada um fenômeno complexo, que envolve alterações neurobiológicas, além de fatores emocionais, familiares e sociais. Muitas vezes, o uso contínuo da droga compromete a capacidade de julgamento e de tomada de decisões, dificultando que o adicto reconheça a gravidade da dependência ou busque ajuda de forma espontânea.
Na avaliação do psiquiatra Naime, se os estudos confirmarem a eficácia do imunizante, os efeitos podem repercutir diretamente no enfrentamento da dependência química e nas políticas de saúde pública. Ele pondera, no entanto, que o tratamento também está ligado ao desejo do próprio usuário de interromper o consumo.
“Levando-se em consideração apenas o efeito benéfico da vacina, o impacto na saúde pública é gigantesco. Na verdade, é necessário haver interesse genuíno em deixar de usar crack e cocaína. É importante que a pessoa esteja empenhada em deixar e, com isso, bloquear o acesso às drogas por um ato de vontade”, finaliza ele.
As múltiplas faces da dependência
Apesar do reconhecimento internacional e de premiações como o Prêmio Euro Inovação na Saúde e o Prêmio Veja Saúde & Oncoclínicas de Inovação Médica, o verdadeiro teste da Calixcoca ainda está por vir: comprovar segurança e eficácia em humanos.
O debate sobre a dependência de crack e cocaína, porém, vai muito além da inovação científica. Em grandes centros urbanos, como São Paulo, cenas como as da Cracolândia revelam situações dramáticas, em que usuários perdem vínculos, dignidade e passam a viver quase exclusivamente em função da droga.
Por outro lado, há dependentes que, mesmo enfrentando o vício, conseguem manter rotinas de trabalho e relações sociais, ainda que a dependência desgaste gradualmente sua saúde, sua estabilidade financeira e seus laços afetivos.
Entre essas diferentes realidades, a busca por novas formas de tratamento evidencia a complexidade de um problema que envolve múltiplas camadas — médicas, sociais e humanas — e exige olhar atento para todas elas.
Nesse contexto, a vacina surge como uma possível ferramenta para auxiliar no duro processo de reabilitação e reduzir recaídas ao bloquear os efeitos da droga no organismo.
Ainda assim, o enfrentamento da dependência química exige demasiado mais que uma solução isolada: envolve tratamento contínuo, rede de apoio e políticas públicas capazes de acolher quem enfrenta o desafio de viver apesar do vício.




