Alberto Martins Cesário, professor e escritor
@alberto.prof
Cheguei cedo. Professor experiente aprende que alguns minutos antes do sinal equivalem a uma pequena vantagem contra o caos, uma ilusão necessária.
A mochila pesava mais de expectativas do que de cadernos. O planejamento estava impecável. Objetivos alinhados à habilidade, habilidade alinhada à competência, competência abraçada pelo currículo, currículo de mãos dadas com a avaliação. Tudo organizado em cores diferentes, até o tempo das perguntas espontâneas havia sido calculado.
Olhando para aquelas folhas, eu quase acreditava que a educação podia ser dobrada ao meio e guardada numa pasta transparente.
Na teoria, às oito em ponto, iniciaríamos uma discussão brilhante, às oito e quinze, atividade em dupla, oito e quarenta, socialização, nove horas, sistematização e às nove e vinte, fechamento inspirador.
Mas, às oito e dois, a realidade entrou na sala sem pedir licença dizendo que o colega estava chorando. Antes que eu descobrisse por quê, outra voz atravessou a sala.
— Professor, acabou a água do bebedouro!
Na sequência bilhete da secretaria dizendo que haveria uma mudança de horário e para fechar um funcionário apareceu para dizer que faltaria energia por alguns minutos devido a uma manutenção.
Na escola pública, “alguns minutos” pertence à mesma categoria de “rapidinho” em reforma de casa, ninguém sabe exatamente quanto tempo significa.
Enquanto eu reorganizava mentalmente o cronograma, uma menina levantou a mão e disse que a sua mãe tinha ido embora de casa. Naquele instante, meu planejamento perdeu para uma frase de seis palavras.
Não existe metodologia capaz de competir com a vida quando ela resolve entrar pela porta da sala.
Os livros chamam isso de flexibilização pedagógica, a realidade chama de dia letivo.
Há uma crença curiosa de que o professor controla a aula como um maestro conduzindo uma orquestra, bonita imagem, pena que, na escola, cada instrumento acorda em um tom diferente, um violino chega sem corda, o trombone esqueceu a partitura, alguém derruba o estandarte da banda e, no meio da apresentação, entra um comunicado urgente avisando que amanhã todos deverão vir de camiseta azul por causa de uma atividade que ninguém sabia que existia até cinco minutos atrás.
Ainda assim, espera-se harmonia.
Planejar é necessário, sempre foi e continuará sendo. O problema começa quando confundimos mapa com território.
O planejamento é uma bússola, nunca foi o caminho, porque sala de aula não é fábrica de parafusos, ela é um rio.
E rios têm uma irritante mania de descobrir novos caminhos justamente quando acreditamos conhecer todas as curvas.
Os documentos oficiais descrevem a aula como quem desenha jardins vistos de um drone. Tudo parece geométrico, sequências didáticas elegantes, tempos previstos, estratégias cuidadosamente encadeadas. Indicadores, rubricas, evidências.
Então você abre a porta da sala, encontra vinte e oito crianças, uma dormiu pouco porque o irmão passou a madrugada tossindo, outra não tomou café, uma terceira descobriu hoje que os pais vão se separar.
Um aluno que esteja elétrico de felicidade porque ganhou um cachorro e outro quem não consiga copiar uma linha porque a ansiedade resolveu fazer prova antes d professor.
Nenhuma dessas informações aparece no plano de aula, mas, todas entram na aula.
Costumamos preencher o planejamento como arquitetos desenhando uma casa perfeita só que esquecemos de combinar com o terreno.
E terreno de escola pública tem desnível, barro, chuva inesperada, muro rachado, goteira, interrupção, barulho da quadra, ventilador que resolve aposentar justamente em um dia de muito calor e uma campainha que toca sempre no momento exato em que alguém finalmente faz aquela pergunta maravilhosa que valeu toda a manhã.
Existe também a burocracia.
Ah, essa criatura elegante que adora formulários impecáveis, tabelas e verbos no infinitivo.
Às vezes tenho a impressão de que certos planejamentos são escritos para convencer o papel de que a aula acontecerá exatamente como foi imaginada.
O papel acredita, as crianças, felizmente, não.
Elas possuem um talento extraordinário para lembrar que educação não é preenchimento de campos obrigatórios.
Educação é encontro, conversa, conflito, silêncio, riso fora de hora. É o aluno que transforma uma pergunta aparentemente “fora do tema” na melhor discussão do semestre.
Sabe, em todos estes anos como professor, as aulas que mais me ensinaram quase nunca foram aquelas em que tudo saiu conforme o previsto.
Foram justamente as que deram errado, ou, melhor dizendo, errado segundo o planejamento.
Porque foi numa atividade interrompida que uma turma aprendeu a ouvir, foi durante um apagão que inventamos histórias usando apenas a luz da janela, foi depois de uma briga no recreio que discutimos respeito com uma sinceridade que nenhum livro didático conseguiria produzir.
Abandonando uma sequência impecável foi que encontrei uma aprendizagem impossível de planejar e talvez sejamos por isso somos menos engenheiros da certeza e mais jardineiros do inesperado, plantamos intenções e regamos possibilidades.
Mas quem decide a velocidade das flores continua sendo a vida.
No fim do dia, recolhi o planejamento cheio de riscos, setas, observações nas margens e horários completamente desobedecidos e curiosamente, nunca esteve tão bonito. Porque, afinal, papel sem marcas conta apenas o que pretendíamos ensinar, já as rasuras contam o que realmente vivemos.
E talvez seja essa a maior ironia da profissão, passarmos horas planejando a aula perfeita e descobrir, todos os dias, que a educação prefere escrever à mão, nas margens do nosso roteiro, aquilo que jamais caberia em qualquer formulário.
Então me diga… Se a melhor aula é justamente aquela que nos obriga a abandonar o caminho sem perder o destino, será que o verdadeiro planejamento está no papel que levamos para a escola, ou na coragem com que voltamos para casa dispostos a escrevê-lo outra vez?





