O trabalho “AINDA” constrói o caráter?

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Christiano Guimarães é consultor de empresas, professor e escritor – Foto: Reprodução

Outro dia fiquei pensando em uma cena curiosa.

Enquanto uma empresa colocava uma placa procurando funcionários, do outro lado da rua uma fila se formava para entregar currículos. O empresário reclamava que não conseguia contratar. Um pai dizia que o filho ainda estava “procurando algo que faça sentido”. Uma mãe explicava que “ele não nasceu para qualquer serviço”. Um rapaz recusava uma vaga porque precisava acordar às sete da manhã. Outro achava o salário incompatível com seu potencial. Potencial esse que, curiosamente, ainda aguardava a primeira experiência profissional para se manifestar.

Parece piada.

Mas é terça-feira.

Nunca tivemos tanta gente querendo oportunidade e, ao mesmo tempo, tantas vagas esperando alguém disposto a começar. Existem pessoas que aceitariam qualquer trabalho digno para colocar comida na mesa. Existem outras esperando o emprego perfeito, o chefe perfeito, o horário perfeito e, se possível, a sexta-feira já no primeiro dia de trabalho.

Talvez a pergunta seja outra.

Quando foi que trabalhar deixou de ser visto como construção e passou a ser tratado como opção?

Durante muito tempo, nossos pais repetiam que o trabalho formava caráter. Não porque todo emprego fosse maravilhoso. Muitos eram pesados, cansativos e pagavam pouco. Mas ensinavam algo que hoje parece ter saído de moda: compromisso. Horário. Responsabilidade. Respeito. Frustração. Ninguém voltava para casa apaixonado pela segunda-feira. Mas voltava um pouco mais preparado para a terça.

Em algum momento, sem que ninguém percebesse, essa conversa mudou. O trabalho deixou de ser visto como uma escola da vida e passou a ser avaliado quase exclusivamente pela comparação entre esforço e recompensa. Se exigir demais, não serve. Se pagar pouco, não serve. Se começar cedo, também não. E, dependendo da distância, talvez seja mais fácil continuar dizendo que “o mercado está difícil”.

É claro que existem empresas que oferecem pouco, exigem muito e depois se espantam quando ninguém aparece. Elas também precisam fazer a própria reflexão. Mas existe uma conta que continua impossível de fechar: como alguém pretende adquirir experiência sem passar pela inconveniência de começar?

Talvez por isso tenha se tornado tão comum ouvir justificativas. Algumas fazem todo sentido. Outras parecem ter sido produzidas por um departamento especializado em evitar segunda-feira. Sempre existe um motivo para esperar mais um pouco. O curso que ainda vai começar. A oportunidade que vai aparecer. O salário que ainda não chegou. A vaga ideal que, curiosamente, também continua procurando o candidato ideal.

Enquanto isso, o tempo faz o que sempre fez.

Passa.

E leva junto oportunidades que dificilmente voltam.

O curioso é que quase ninguém calcula quanto custa adiar o primeiro passo. Todo mundo faz conta para saber quanto vai ganhar no primeiro mês. Poucos calculam quanto deixam de conquistar nos próximos dez anos. Porque experiência não cai do céu. Confiança não acompanha o crachá. Respeito não vem no holerite. Tudo isso se conquista trabalhando.

No fim das contas, talvez trabalhar nunca tenha servido apenas para pagar boletos. Sempre serviu para construir pessoas. É ali que aprendemos a ouvir “não”, resolver problemas, conviver com diferenças e descobrir capacidades que nem imaginávamos ter.

E talvez seja justamente por isso que essa pergunta continue fazendo tanto barulho.

Quando foi que trabalhar deixou de ser parte da formação de uma pessoa e passou a ser apenas mais uma alternativa no cardápio da vida?

Porque dinheiro paga as contas.

Mas é o trabalho que, quase sempre, ensina a cuidar da própria vida.

 

Christiano Guimarães

Consultor de empresas, professor e escritor.