SOBRIEDADE JÁ – TÁ DIFÍCIL FINGIR QUE TÁ FÁCIL…

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Guardar coisas que nos fazem mal é uma tortura!

Sejam as circunstâncias, sejam coisas, sejam contradições de ideias, principalmente ideias contraditórias que temos com pessoas perto de nós, pessoas que gostamos e que de certa forma nos magoam.

Ficar guardando isso, é uma tortura. Essas coisas entram dentro de nós, isso é inevitável, quase que independe de nossa vontade, agora, precisamos ver como ela sai, mas principalmente, ver se ela sai.

Quem nunca soprou uma bexiga até estourar? O estranho é que quando estoura, a gente assusta, como se não soubéssemos que estouraria; sabemos que iria estourar, mas imaginamos que ainda cabe mais um pouco de sopro. Talvez esteja faltando para nós um aparelho parecido com aqueles que calibram os pneus do carro, para medir nosso limite, pois até o pneu do carro para rodar bem, tem um limite; se passar, estoura.

Mas nós, os humanos, os tais racionais, criamos  a tal expectativa de que não existe esse limite, que não vamos estourar acabamos criando uma máscara, quase que uma personagem para esconder que o limite está perto e aí, aquilo que me é muito difícil, vivo fingindo que está fácil. Resumindo: Fica difícil fingir que está fácil.

Existem muitas formas da gente se trair nesse nosso desejo de dilatar limites.

Por exemplo dizer “sim”, quando eu preciso dizer “não”.

Quando faço isso parece que eu estou dando mais valor para o outro do que para mim mesmo. É um não se respeitar. É o mesmo que dizer que a minha vontade, ou que eu sinto, a minha opinião, vale menos do que o do outro e que o outro pode sim passar por cima das minhas vontades, ou das minhas convicções.

Gente, dizer “não” é uma arte!

As pessoas que verdadeiramente se importam conosco vão entender; elas entendem aquilo que eu falo e entendem aquilo que eu calo. Às vezes nosso “sim” acaba sendo até um descuido do “não”; o “não” se descuidou e a gente acabou falando “sim”.

O outro precisa ver que não se trata de uma simples negativa nossa; é o meu limite, é o meu direito. Eu posso chamar isso até de dignidade. Os outros vão saber respeitar nosso “não” quando for sincero, penso que até muito mais do que um “sim” inseguro; aquele “sim” que acabou sendo só para agradar?

Muitas vezes nos quebramos para manter os outros inteiros…

Tem uma famosa frase, acho que do ex-presidente dos EUA, John Kennedy, que diz mais ou menos assim: “Eu não sei o segredo do sucesso, mas com certeza o segredo do fracasso é querer agradar a todo mundo!”. Pode ter certeza: as pessoas que dão certo, não são unanimidade, não adianta querer ser unanimidade, essa máscara para ser aceito é um grande ponto de estresse. O tal “politicamente correto” chega uma hora que cansa.

Vamos aguentando, vamos fingindo que está tudo normal, o sorriso na cara fingi que está fácil, mas por dentro só a gente sabe que o limite está por um fio.

Essa tal “arte de agradar” acaba se tornando a “arte de enganar”.

Sim quando você esconde a realidade para agradar alguém, você e o outro saem enganados.

Ser paciente é diferente de ser tolerante.

Sabia que reagir e não só tolerar pode ser uma expressão de amor próprio?

Então é preferível, celebrar a tristeza da verdade, do que a alegria da mentira. Porque sinceramente, o que agrada normalmente engana.

Forte isso né? Parece até contraditório, mas o que agrada pode ter lá no fundo uma mentira, uma falsidade, algo pronto para te enganar.

Tem uma frase do Nelson Rodrigues, naqueles seus contos amorosos que diz assim: “Minta por misericórdia!” Eu digo: “Reaja por misericórdia!” por misericórdia de você mesmo.

Sinceridade com todos, principalmente com você.

As tradições, as circunstâncias, a opinião pública, muitas vezes são um enorme “cala boca” para nós a gente acaba obedecendo e se calando; eu me calo, tolero, finjo que está tudo bem, para você continuar gostando de mim.

A gente vai aceitando as circunstâncias para ser simpático, companheiro, mas sem perceber, viramos cúmplice, e quando menos se percebe viramos comparsa.

Tem coisas que não merecem um “até amanhã”, ou um “até breve”; existem coisas que merecem um: “até quando você mudar”.

Que o digam as famílias das pessoas que acolhemos aqui no NOVO SINAI. Quantos resultados positivos se deram quando a família disse o “até você mudar”; romperam relações e forçaram uma situação de mudança.

Aceitar a mediocridade dos outros aumenta a sua mediocridade.

É duro dizer isso, mas tem pessoas do nosso lado que não querem que a gente melhore; elas querem que a gente permaneça onde elas estão.

Pessoas que não nos ajudam a subir, vão acabar nos ajudando a descer. Normalmente sufocam nossos sonhos, e até nos fazem confundir estar sendo amado por estar sendo usado.

Supere suas carências. Tenha coragem de se despedir de pessoas e situações que lhe fazem mal. Pare de fingir que está fácil.

Veja bem, nunca confunda aceitar uma pessoa exclusivamente como ela é com amor. Não isso pode ser somente tolerância.

Amar alerta sobre os pontos fracos do outro, mostra o que se sente e principalmente ajuda o outro a mudar.

A nossa formação cristã nos ensinou a perdoar, e isso é obvio, claro, indiscutível, a essência do cristianismo, mas você sabe: segurar rancor, ódio, falta de perdão, vai te fazer encher, e estourar logo. Confundimos perdoar com tolerar, parece que esqueceram de nos ensinar o “deixa prá lá”, o abandonar mesmo.

Sei que de certa forma falar assim pode parecer uma intolerância, e estamos vendo muita intolerância por aí: racial, social, política, mas é bom que entendamos que a tolerância cega não é assim tão boa. Caso fosse possível relações sem tolerâncias e sem intolerâncias, fosse relação perfeita, mas será que existe?

Temos nossos limites. Para tudo há limites; só não há limite para a eternidade prometida por Deus.  Não uma eternidade com relação ao tempo, mas uma existência sem limite, sem preconceitos, sem medos de não ser aceito. Aí sim, nessa eternidade vamos ver os limites abertos e o amor verdadeiro realmente vai fluir.

Tem um raciocínio interessante de Santo Agostinho: Diz que temos hoje lembranças presentes das coisas passadas, visão presente das coisas presentes, e esperança presente das coisas futuras.

Veja então que tudo está no presente. Deixe pesos do passado no passado, pesos do futuro no futuro, e ficará bem mais leve viver o presente sem ter que por causa de passado e do futuro viver um presente difícil fingindo que tá fácil…

Por Carlinhos Marques

Presidente Fundador da Comunidade Terapêutica Novo Sinai, que acolhe dependentes químicos desde 2005 de forma voluntária e gratuita, idealizador do projeto “Sobriedade Já”

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