“Se vires um sábio, madruga para estar com ele”

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Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz – 

O saber e o sabor estão intimamente ligados na língua e na vida. É muito bom viver a vida com sabedoria, pois dá um sabor diferente aos nossos dias e consegue traçar um itinerário seguro nesta grande viagem.

Em tempos de pandemia e chegando ao número inacreditável de 400 mil mortos pela Covid-19, só aqui no nosso país, temos a certeza de que é muito importante buscarmos sabedoria para enfrentarmos esses monstros modernos da nossa sociedade.

Mesmo diante de tantas incertezas e sofrimentos, ainda vai demorar um pouco para percebermos a importância de deixarmos de lado o egoísmo e nos unirmos a uma única causa: salvar a humanidade do caos.

Parece até soberbo demais pensarmos assim, mas, se pararmos um pouco para analisar os fatos, chegaremos à conclusão de que ou mudamos rapidamente de rumo ou não teremos muito tempo para nos livrar da ruína.

Para nós, cristãos, ao analisarmos a criação do ser humano, percebemos que o Criador nos deu a capacidade extraordinária do livre arbítrio.

Saber fazer as escolhas certas na vida faz a grande diferença no mundo de hoje. Ter a convicção de qual caminho tomar, e quais as consequências das nossas escolhas, ameniza os erros que, por ventura, possamos cometer.

Ontem, mais uma vez, recebi um vídeo mostrando uma senhora idosa recebendo a vacina contra a Covid-19. A cena era assim: a profissional de saúde pegava o vidrinho com o imunizante, preparava a seringa, mostrava para a mulher, passava álcool no local da aplicação, introduzia a agulha no braço daquela pessoa vulnerável que estava à sua frente, e, com a maior naturalidade, não completava a ação, deixando a vacina no recipiente, sem injetar no organismo daquela senhora. Simplesmente tirou a agulha, colocou um algodão, parabenizou a mulher por ter chegado a sua vez e disse: “Se tiver dor, tome um analgésico”.

Confesso que já havia visto outros casos parecidos, mas não consigo me acostumar com esse tipo de atitude, e, depois de ver este vídeo algumas vezes, tentei compreender a mente humana quando resolve fazer mal para outro ser humano.

Como pode uma pessoa, em sã consciência e de livre escolha, fazer o mal a alguém indefeso? Somos todos feitos da mesma carne e corre em nós o mesmo sangue. Somos irmãos, interdependentes, responsáveis uns pelos outros. Realmente não consigo compreender como chegamos a este descaso pelo outro.

Se acontece esse tipo de atitude nas relações interpessoais, imagine nas esferas sociais, como, por exemplo, nas estruturas de governo onde os indivíduos são eleitos para administrar o bem público e cuidar dos mais vulneráveis. Como confiar em homens e mulheres encarregados de legislar, executar as leis, julgar os atos, quando percebemos que o princípio mais básico, que é o respeito para com o outro, não é colocado como prioridade.

Fico pensando em como fica a consciência do professor que não ensina, do médico que não olha nos olhos do seu paciente, do religioso que não ora pelo seu povo. Que raios está acontecendo conosco? Onde queremos chegar com esse tipo de comportamento?

De que adiante um país ficar imunizado e outro exposto ao vírus e morrendo à míngua? De que adianta eu ter minha mesa farta e o outro mendigar por um prato de comida? De que adiante o templo abrir as portas se o meu coração continua fechado para as dores da humanidade?

Eu era bem jovem quando li pela primeira vez uma frase atribuída ao filósofo Sêneca: “Sê escravo do saber, se queres ser verdadeiramente livre!”. A ideia de buscar o saber passou a fazer parte das minhas prioridades. Aos poucos fui descobrindo algumas coisas interessantes, por exemplo, que o primeiro nome do Sêneca era Lúcio, como o meu segundo nome. Minha família me chama de Lúcio, e meus amigos mais antigos também. O som desse nome me remete à minha memória afetiva. É como se alguém que me chama assim tivesse descoberto quem realmente sou, a minha essência. Sêneca e essa frase tornaram-se companheiros da minha caminhada em busca do saber.

Descobri ainda que Sabedoria vem de Deus, que Ele criou o ser humano não só a sua imagem, mas também a sua semelhança. Imagem é dom, é graça, é gentileza de Deus para conosco. Já semelhança é tarefa, é esforço pessoal, é gentileza nossa para com Ele. No livro de Eclesiástico 6,36, encontramos um conselho muito interessante: “Se vires um sábio, madruga para estar com ele, e que o teu pé desgaste os degraus de sua porta”.

Precisamos nos aproximar de pessoas sábias, não nos importando de onde elas são, que profissão exercem e que crença possuem. Sabemos que há uma carência de pessoas assim, sábias, que buscam uma sabedoria que vem do alto, mesmo tendo os pés na terra, e possuem uma preocupação em querer transformar este mundo num mundo melhor. Mesmo assim, precisamos procurar por essas pessoas e, de maneira ainda mais profunda, devemos ser uma delas.

Dois elementos que não podem passar despercebidos deste conselho: é preciso acordar cedo para buscar a sabedoria e é preciso ter perseverança ao encontrá-la. O interessante é que são dois movimentos que não são muito apreciados hoje. Vivemos num mundo do imediatismo, da falta de paciência e da inversão de valores, o que é bom é visto como algo ruim e vice-versa. O que fazer com tudo isso?

Um dia, as pessoas que seguiam Jesus perceberam que suas palavras eram duras demais e que não era fácil segui-lo. O Senhor então reuniu os seus discípulos e disse: “Não querem também vocês ir embora?” Simão Pedro olhou bem nos olhos de Jesus e disse: “Senhor, a quem iremos? Tens palavra de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,67-69).

A vida só será realmente saborosa se buscarmos o saber que vem de Deus. Não há outro caminho para nós, basta apenas acreditarmos e nos unirmos a essa bela causa.

 

  • Padre Djalma Lúcio Magalhães Tuniz, scj – Reitor do Convento SCJ / Taubaté-SP