SOBRIEDADE JÁ: DEPENDÊNCIA AFETIVA

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Quando se refere a dependência, normalmente nos remetemos à ideia da dependência química, e aí outras dependências podem até passar despercebidas por nós.

Uma delas é a dependência afetiva.  Relativamente pouco falada, mas comum, muito mais comum do que se imagina.

Usamos com frequência a palavra dependência para explicar a intensidade e descontrole no uso de álcool, de drogas, de remédios, cigarro… e por aí vai…, mas e essa tal dependência afetiva?

De forma mais direta é a dependência que as pessoas tem de umas pelas outras, não apenas a pessoa em si, mas ao afeto da outra pessoa.

A partir de um pensamento lógico, a essência do ser humano faz-nos depender um do outro; antes de nascermos já dependemos de outras pessoas.

Mas de novo, como na dependência química, a diferença entre o remédio e a droga, está na dose!  A intensidade com que isso acontece, a dependência que isso gera.

Existe uma ideia de que já nascemos com um conteúdo psíquico e emocional, mas acredito que a maioria da nossa estrutura emocional acaba sendo construída e formada conforme o meio, acaba sendo ele, o meio um elemento forte a nos direcionar.

Em um relacionamento afetivo sadio a gente se sente protegido, amado, queremos essa companhia e temos a certeza também de que o outro quer a nossa companhia…

Mas o que acontece quando alguém se relaciona de modo a depender afetivamente quase que de forma doentia da outra pessoa? Do marido, da esposa, da namorada, dos pais? Casos assim são chamados então de dependência afetiva.

Pode parecer até um pouco pesado usar a analogia do termo dependência para esse tipo de caso, mas como em dependentes químicos que ficam alterados quando estão longe da substância, o dependente afetivo também pode entrar em estado de desespero diante da possibilidade de não ter por perto esse alguém; transforma o outro ser humano quase em uma substância psicoativa, um “ser humano tarja preta”.

Um dependente afetivo na maioria das vezes não consegue ter autonomia enquanto indivíduo. Não consegue ter autoconfiança e claro, sem autoconfiança, sem autonomia tem sérios transtornos, sérios problemas na vida.

O dependente afetivo é alguém que depende do outro para se sentir seguro.

A dependência pode começar com a simples satisfação com a opinião positiva do outro, mas pode evoluir, e chegar a casos bem mais graves.

Sabe aquela frase: “Eu não vivo sem você?” Tão fácil de ser encontrada nas canções românticas… seria a síntese da vida do dependente afetivo. Ele acredita que não consegue viver sem aquela outra pessoa específica.

Muitos chamam isso de amor, nas músicas românticas principalmente, quando na verdade não tem nada a ver com amor; tem mais a ver com egoísmo do que com amor, cria-se uma necessidade própria, uma dependência mesmo.

Aliás é muito comum essa confusão sobre amor. Imagina-se que amor é quando vou atrás daquilo que me satisfaz. E não é isso! Definitivamente, dependência afetiva não tem nada a ver com amor. Não quero passar aqui uma imagem fria de relacionamento. Mas a necessidade exagerada da presença do outro, do afeto do outro, da afirmação do outro, pode significar sim uma patologia.

Existem alguns aspectos que fazem a gente identificar o nível de dependência de alguém em relação a nós, e de nós em relação a outros.  Veja bem: Concordância com tudo que o outro diz, por medo de se contrariar, por medo de ser rejeitado, então concordo com tudo o que a pessoa faz e diz; dificuldade em tomar decisões próprias; um enorme desconforto quando está longe da pessoa. Muitos se sujeitam a situações humilhantes, constrangedoras, na expectativa de manter a pessoa por perto.

Muitas carências afetivas do ser humano chega ao ponto que o mais importante é o outro estar disponível, do que o que o outro realmente é!

Muitos são vítimas de violências, físicas, morais, e mesmo assim continuam presos a pessoa. Provavelmente você conhece alguma história assim: Esposas que são agredidas e permanecem junto, muitas vezes a dependência financeira faz a afetiva se tornar maior ainda.

A carência afetiva, faz a pessoa enxergar aquilo que criou e não a realidade.

Veja que estamos falando de dependência afetiva de pessoas a outras pessoas. Mas existe também dependência afetiva com objetos. Quem não conhece pessoas que são extremamente ligadas a carros, roupas, viagens, trabalhos, lazer… seria vamos chamar assim: uma “neodependência” extremamente atual. E a dependência da tecnologia, da internet?  Essa aí, olha, daria para fazermos um artigo só falando sobre dependência tecnológica.

Veja outro detalhe interessante: Eu não consigo determinar o comportamento do outro, então automaticamente o meu humor, a minha paz, vai depender exclusivamente do outro, quando essa dependência se instala, coloco as rédeas a condição para que eu seja feliz, na mão do outro.

Relacionamentos não devem durar pela carência, mas por cumplicidade, por compatibilidade. Não pode deixar que seja dominado somente por teores românticos, pela empolgação momentânea, carências, medo de solidão.  Isso tornam cegas as decisões.

Olha, pode parecer um pouco frio isso, até antirromântico, mas talvez esteja faltando sim mais razão nos relacionamentos, um pouco de raciocínio lógico, de bom senso, de verdade.

Muitos fazem diagnósticos diversos sobre essa dependência, mas penso, e isso é bem pessoal: Todos temos, nossa história, nosso ponto frágil, nossas manias, nossos apegos. É preciso coragem para entrar em contato consigo mesmo e conhecer mais a seu respeito, sua história, seus sentimentos, encontrar dentro de si valores, e usar esses valores que já estão dentro de você como fonte de realização, e não os terceirizar.

E veja isso: Como na dependência química, aqui também existe o personagem codependente, aquele que convive junto, aquele que acaba sendo o manipulado pela condição gerada por aquele que criou essa dependência.

Esse codependente pode ser um de nós, que sem perceber estamos sendo o objeto de dependência do outro.

O amadurecimento afetivo, emocional, depende de vários fatores, e como uma depressão, por exemplo, não envolve somente o querer ou o não querer; é preciso compreensão de si, do outro, do meio, do que sente, e do que provoca o que se sente.

Veja, perceber o que se sente é importante, mas perceber o que provoca o que se sente, é fundamental.

E assim como qualquer outra dependência, o dependente afetivo também precisa reconhece-la, e depois procurar acompanhamento psicológico e até médico, e lógico, o apoio de amigos e de familiares.

A liberdade afetiva é muito mais prazerosa do que outro prazer forçado. A posse do outro, como objeto de prazer, torna a pessoa insensível, instintiva demais, quase desumana.

 

Por Carlinhos Marques

Presidente Fundador da Comunidade Terapêutica Novo Sinai, que acolhe dependentes químicos desde 2005 de forma voluntária e gratuita, idealizador do projeto “Sobriedade Já”

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