Quem vai ensinar o futuro, se ninguém quer mais ser professor? 

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Por Alberto Martins Cesário, professor e escritor 

A um tempo atrás ouvia que ser professor era vocação, depois de um tempo virou missão e, hoje, parece resistência. Em meio a telas luminosas, promessas fáceis e um mundo que corre demais, a sala de aula segue tentando sobreviver, com canetões, afeto e uma coragem que não cabe no salário… 

Outro dia, na fila da padaria, ouvi um pai orgulhoso contar que o filho queria ser youtuber. A moça do caixa sorriu, o padeiro concordou com a cabeça e alguém ainda completou, na minha época todos queriam ser professor, agora ninguém quer mais isso, né? 

A frase caiu no chão como pão amanhecido, ninguém recolheu e eu recolhi por dentro afinal, sou desses que ainda acordam cedo para enfrentar sala cheia, quadro gasto, canetão sem tinta e uma esperança teimosa que insiste em não mudar de profissão. 

Não é que ninguém queira ser professor, é que, aos poucos, ensinar virou um ato de resistência. Antes, o professor era autoridade, depois, virou referência, mas hoje, muitas vezes, virou ruído. Um som baixo tentando competir com vídeos de 15 segundos, filtros de cachorro e gurus que ensinam tudo em três passos infalíveis inclusive aquilo que nunca estudaram. 

A profissão perdeu prestígio como quem perde o horário do ônibus, chegou atrasada à modernidade, mas ninguém avisou que o trajeto havia mudado e o professor continua carregando livros, planejamentos, provas e sonhos, enquanto a sociedade exige resultados imediatos, sem conceder tempo, voz ou escuta. Querem alunos críticos, mas professores obedientes, exigem uma educação transformadora, mas tratam o educador como peça substituível. 

Na sala de aula, disputamos atenção com um universo que cabe na palma da mão, o celular vibra mais alto que a curiosidade e as notificações são mais sedutoras que uma pergunta bem feita.  

E lá estamos nós, professores, tentando convencer que aprender exige silêncio interno, espera, erro e tentativa tudo aquilo que o algoritmo não entrega. Não é uma disputa justa, nunca foi e nunca será e estamos nesta arena para lutar sozinhos e despreparados. 

Falta política pública que enxergue o professor como intelectual do cotidiano, como alguém que forma pessoas, não apenas repassa conteúdo. Falta formação contínua que dialogue com o mundo real da escola, falta escuta, falta confiança.  

O professor ainda é visto como quem “dá aula”, quando, na verdade, sustenta relações humanas frágeis, acolhe dores que não cabem no currículo e empresta palavras a quem ainda não sabe nomear o que sente. 

E há dias em que a sensação é exatamente essa, de estar buscando soluções sozinho. Como se cada professor fosse um náufrago pedagógico, construindo sua jangada com cartolina, boa vontade e café frio. A sociedade da superficialidade naturalizou a ideia de que professor não é prioridade. Naturalizou, mas não tornou justa, porque não há transformação humana e social sem quem ensine a pensar, a sentir e a conviver. 

Ainda assim, resistimos, pois, no meio do caos, acontecem pequenas vitórias. Por exemplo quando um aluno que finalmente lê em voz alta sem medo, uma criança dos anos iniciais que descobre que sabe escrever o próprio nome e sorri como quem ganhou o mundo aquele encontro com um aluno que te abraça e diz, “Professor, queria tanto fazer o quinto ano de novo, só para ter aula com o senhor”. São nesses instantes mínimos que o prestígio perdido reaparece, não no salário nem no status, mas no sentido. 

Ser professor hoje é escrever poesia em papel reciclado ou se preferirem, plantar árvores sabendo que talvez outro sente à sombra, mas o que realmente sinto é que ser professor é insistir na profundidade em tempos rasos.  

Talvez ninguém queira ser professor porque a profissão exige demais e oferece de menos, ou talvez porque esquecemos de contar que, apesar de tudo, ainda vale a pena, porque há um tipo de riqueza que não aparece no contracheque nem cabe em plano de carreira, algo tão poderoso que aparece no instante em que alguém aprende algo que muda sua forma de olhar o mundo e, quase sempre, esse alguém aprende porque um professor insistiu quando seria mais fácil desistir. 

Ser professor ainda é bom porque é uma das poucas profissões que testemunham o nascimento de futuros. Temos o prazer de ver ideias engatinharem, opiniões aprenderem a andar e sonhos tropeçarem antes de correr.  

É um ofício que permite acompanhar pessoas em processo, em construção, em erro e isso, num mundo que só aplaude o pronto, o rápido e o perfeito, é um privilégio silencioso. 

Mesmo cansado, o professor carrega uma espécie de alegria discreta que aparece quando a sala finalmente entende um conceito difícil, quando uma criança perde o medo da leitura, quando um adolescente percebe que sua voz importa.  

São momentos pequenos, quase invisíveis para quem olha de fora, mas gigantes para quem vive dentro da escola. É ali que a profissão se justifica, mesmo quando tudo ao redor parece dizer o contrário. 

A pergunta que fica e que deixo aqui, como quem fecha o jornal devagar, é esta:  

Quando foi que decidimos que quem forma o futuro podia viver sem tempo, sem voz e sem prestígio… e até quando vamos fingir que isso não nos diz respeito?