
Aos 18 anos, o pianista rio-pretense Paulo Arnaldo Duarte trocou uma vaga em Medicina pela dedicação integral à música. Agora, conquista lugar na prestigiada Escola Superior de Música de Münster, na Alemanha, após alcançar desempenho considerado excepcional em uma das seleções mais concorridas da Europa.
@caroline_leidiane
Existem decisões que se impõem não por cálculo, mas por convicção. Aos 18 anos, enquanto muitos jovens ainda tateiam possibilidades profissionais, o pianista rio-pretense Paulo Arnaldo Duarte já atravessou escolhas que poucos enfrentam ao longo de uma vida.
Há apenas seis anos dedicado ao estudo do piano, ele foi aprovado em primeiro lugar no curso de Piano da Universidade de São Paulo (USP) e, diante de uma vaga em Medicina na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), decidiu seguir a vocação artística.
A escolha o conduziu a uma conquista de dimensão internacional. Em outubro, Paulo embarca para a Alemanha após ser admitido na Escola Superior de Música de Münster (Hochschule für Musik Münster), uma das mais prestigiadas instituições de formação musical do país.
O ingresso exige um rigoroso processo seletivo, centrado na performance artística dos candidatos, submetidos a provas práticas, avaliação teórica e, no caso de estrangeiros, exame de proficiência em alemão.
Na audição, o brasileiro alcançou 24,5 pontos — resultado considerado extraordinário, já que notas superiores a 22 são classificadas como excepcionais pela banca avaliadora.
Filho da cantora Fabiana Colturato Duarte e do músico e procurador Frederico Duarte, Paulo cresceu em uma casa onde a música era presença constante. A convivência com repertórios, ensaios e apresentações moldou uma relação precoce com o piano, que, aos poucos, deixou de ser apenas uma atividade de formação para tornar-se um projeto de vida.
Embora a rotina seja dedicada prioritariamente ao aperfeiçoamento técnico, o jovem já divide seu tempo entre os estudos e apresentações públicas.
“No meio musical, as duas coisas caminham em paralelo. Atualmente, o meu foco é nos estudos, mas concilio com recitais e concertos, que também são parte do desenvolvimento profissional”, afirma.

A definição pela carreira artística surgiu gradualmente, acompanhando o amadurecimento musical e a experiência adquirida em competições voltadas ao piano. À medida que o repertório se ampliava e as vivências nos palcos se multiplicavam, a vocação tornou-se evidente.
“Acredito que foi quando comecei a participar de concursos de piano e a estudar mais seriamente. Notei que gostava muito de estudar e de tocar, e que aquilo poderia ser um possível caminho profissional”, explica o jovem.
O rigor da tradição europeia
As instituições superiores de música da Alemanha figuram entre as mais rigorosas do mundo nos processos seletivos. A avaliação não se restringe ao domínio técnico do instrumento; procura identificar maturidade interpretativa, repertório consistente e potencial de desenvolvimento artístico.
Na audição, o pianista escolheu interpretar obras de Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven e Franz Liszt, reunindo compositores de diferentes épocas cuja execução exige linguagens musicais e abordagens interpretativas distintas.
Ao explicar a dinâmica da seleção, Paulo revela que o exame ultrapassa a execução das obras escolhidas.
“O processo seletivo consiste numa prova prática, numa prova de teoria musical e, como sou estrangeiro, numa prova de alemão. São requisitadas três obras contrastantes, de diferentes períodos. Escolhi Bach, Beethoven e Liszt. Acredito que, além do que é apresentado na prova, a perspectiva e as possibilidades de evolução e de desenvolvimento do candidato são fatores que pesam na avaliação da banca”, analisa.
O desempenho alcançado foi precedido por um longo período de preparação contínua. Em vez de limitar o estudo ao ambiente doméstico, Paulo levou o repertório repetidamente ao palco, submetendo-o às condições reais de apresentação pública e ao olhar crítico de músicos experientes.
“Além de, claro, muito estudo, foi muito importante treinar a performance das peças em recitais e em masterclasses, bem como apresentar o repertório para colegas e para professores”, conta.
Ao longo desse percurso, o incentivo familiar permaneceu constante. Crescer cercado por profissionais da música significou contato permanente com a prática artística, circunstância que acabou influenciando sua escolha profissional.
“A música sempre esteve muito presente na minha vida. Minha família foi fundamental nesse processo e sempre me apoiou, de todas as maneiras, a seguir essa carreira desde que tomei essa decisão”, expressa.

Uma identidade brasileira diante do mundo
Reconhecida entre as instituições de maior prestígio da Alemanha, a Escola Superior de Música de Münster reúne professores de projeção internacional e oferece intensa circulação artística entre universidades, salas de concerto e festivais europeus.
Para Paulo, esse ambiente representa uma oportunidade de ampliar horizontes interpretativos e estabelecer contatos decisivos para sua trajetória.
“É uma das faculdades de música de maior destaque na Alemanha, especialmente quando se trata de piano, tanto pela infraestrutura quanto pelos professores. Acredito que ela abre oportunidades e permite contatos que não existiriam no Brasil, e espero que eu possa aproveitá-las para ter o maior desenvolvimento possível”, almeja.
A decisão de abrir mão de uma carreira tradicional em favor da música costuma provocar questionamentos, sobretudo em um país onde a profissão artística frequentemente convive com instabilidades. O pianista, entretanto, trata a escolha como consequência natural da própria vocação.
“Acredito que devemos seguir uma carreira correspondente à nossa vocação. Penso que o sucesso vem como uma consequência disso, portanto dificilmente teria sucesso numa carreira que não me desperta um interesse genuíno”, salienta.
Apesar da mudança para a Europa, seus planos permanecem conectados ao Brasil. A experiência internacional é vista como uma etapa de aperfeiçoamento, cuja intenção é retornar ao país para compartilhar o conhecimento adquirido.
“Espero aproveitar esse período para me desenvolver e me aperfeiçoar ao máximo como pianista. No futuro, gostaria de atuar no Brasil como pianista e professor”, projeta o jovem.
Embora o repertório apresentado na audição pertença à tradição clássica europeia, Paulo acredita que sua identidade musical foi construída a partir das referências culturais brasileiras. Na avaliação do pianista, essa herança constitui um elemento singular diante de um cenário internacional dominado por candidatos europeus e asiáticos.
“A cultura e a música brasileira possuem características muito próprias, que certamente influenciam minha forma de tocar mesmo o repertório clássico europeu. Isso certamente se torna um diferencial numa avaliação em que a maioria esmagadora dos candidatos é de asiáticos e europeus”, revela.
Ao embarcar para Münster, Paulo leva consigo muito além da técnica adquirida ao longo dos anos. Carrega uma formação construída no Brasil, uma compreensão própria da linguagem musical e a convicção de que a excelência artística nasce do encontro entre disciplina, repertório e identidade cultural.
Em outubro, Paulo inicia uma nova etapa da carreira na Alemanha. Ao receber a confirmação da aprovação, contudo, o primeiro impulso não foi olhar para o futuro, mas revisitar a própria trajetória.
“Quando recebi a confirmação, demorei para perceber que aquilo realmente tinha acontecido. Lembrei de quando comecei a estudar, das minhas primeiras aulas e concursos, e de quando a ideia de prestar provas no exterior surgiu pela primeira vez”, rememora.




