Quando a escola virou pronto-socorro social?

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

Existe uma crença muito confortável no Brasil, sempre que um problema social aparece, alguém olha para a escola e diz, com a serenidade de quem acabou de resolver um quebra-cabeça: “Isso a educação resolve.”

Falta comida? A escola dá um jeito.
Falta psicólogo? O professor conversa.
Falta política pública? Faz um projeto pedagógico.

Toda escola pública começa a semana com uma promessa silenciosa.

Promessa de caderno mais organizado, de professor animado, de coordenador com planilhas organizadas e de gestores que acreditam, ou fingem acreditar, que desta vez tudo vai dar certo.

No papel, a escola é uma instituição elegante.

Tem missão, visão, metas, indicadores, projetos, plataformas digitais, avaliações diagnósticas e um sem-número de siglas que parecem ter sido criadas por alguém que nunca ouviu o barulho de uma turma de 3º ano depois do recreio.

Mas basta o portão abrir às sete da manhã para que a realidade entre sem pedir licença e ela chega em forma de mochila vazia, olheiras, silêncio.

O menino que não fez a lição não é apenas um aluno desorganizado, às vezes ele é o filho mais velho que ficou cuidando dos irmãos enquanto a mãe trabalhava à noite. Ou a menina que dorme na terceira carteira não porque ela está desinteressada na explicação sobre adição. Ela está com sono porque a casa onde mora tem um único quarto para seis pessoas e o bebê decidiu transformar a madrugada em um festival de choro.

E então a aula começa, ou melhor, tenta começar.

Porque, entre explicar conteúdo, separar briga, ouvir um desabafo, resolver um conflito familiar que atravessou o portão da escola e descobrir quem mexeu com o filho de quem, o professor se vê ocupando uma função que não estava no edital do concurso.

A escola virou uma espécie de central de atendimento das dores sociais do país.

Se faltar médico, leva pra escola. Falta psicólogo? leva pra escola. A assistente social não veio, leva pra escola. A comida em casa acabou, pode deixar que a escola resolve. Política pública? Nem precisa pedir, a escola segura.

E assim seguimos.

Com professores que entraram na profissão para ensinar leitura e acabam tentando alfabetizar também a esperança, porque a verdade, caro leitor, é que muitos alunos chegam à escola carregando problemas que pesam mais que a própria mochila.

Fome, violência, ausência, abandono. Coisas que nenhum plano de aula prevê.

Na faculdade de pedagogia ninguém explica que haverá dias em que ensinar o sujeito da oração será a tarefa mais fácil da manhã, difícil mesmo será ensinar a acreditar no futuro e enquanto isso, a burocracia segue firme.

Relatórios, planilhas, metas, indicadores. Tudo muito bonito no PowerPoint.

O curioso é que, nesse país, quanto mais a realidade social piora, mais a escola é chamada para resolver o que não foi resolvido em nenhum outro lugar.

É como se a sociedade dissesse para o professor, “segura aí, depois a gente vê o resto.”

E o professor segura, não porque quer, mas, porque o aluno está ali e alguém precisa ficar. Porque, no fundo, ainda acredita naquela velha ideia romântica, quase teimosa, de que a educação pode mudar destinos.

Mas há um detalhe importante que raramente aparece nos discursos oficiais, a escola não é fábrica de milagres.

Ela é humana, tem limites, cansaço e professores que também voltam para casa preocupados com as próprias contas, com a própria saúde mental, com o próprio futuro e que ainda assim, no dia seguinte, eles voltam.

Escrevem no quadro, inventam uma atividade, contam uma história. E, entre um problema social e outro, insistem em ensinar alguma coisa.

Talvez porque saibam de um segredo que os relatórios nunca revelam, às vezes, no meio do caos, um aluno aprende e quando isso acontece, mesmo que seja uma única palavra bem lida, um cálculo finalmente entendido ou uma pergunta curiosa levantada no meio da aula, o mundo parece respirar um pouco melhor.

Mas a pergunta que fica, depois que o sinal toca e a escola esvazia, é uma pergunta que ninguém gosta muito de fazer em voz alta…

Até quando vamos fingir que a escola consegue resolver sozinha problemas que pertencem a um país inteiro?