Por Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Na sala de aula contemporânea, o professor faz de tudo um pouco, menos aquilo para o qual foi formado. Entre acolher, conter, resolver e sobreviver, ensinar virou um detalhe num sistema que exige milagres, mas oferece silêncio.
Outro dia, antes mesmo do sinal tocar, eu já tinha exercido três profissões diferentes. Amarrei cadarço, acolhi choro existencial por causa de um lápis perdido, ouvi confidências dignas de divã e ainda mediei um conflito internacional envolvendo duas borrachas e um apontador. Tudo isso antes da primeira atividade de Matemática e quando finalmente consegui escrever a data no quadro, percebi que ainda não tinha sido, de fato, professor.
Talvez esteja aí o problema. Professor não é babá, psicólogo nem herói, mas, curiosamente, tem sido tratado como tudo isso. E, nesse acúmulo de funções invisíveis, a essência da docência vai ficando espremida, como folha de caderno no fundo da mochila, amassada entre lanche e bilhete da coordenação.
Durante muito tempo, a profissão docente ocupou um lugar de respeito quase sagrado. O professor era aquele cuja palavra tinha peso, cujo silêncio ensinava, cujo olhar organizava o mundo. Hoje, perdeu prestígio não por ter perdido importância, ao contrário, mas porque se tornou responsável por tudo aquilo que a sociedade terceirizou, educação emocional, limites, valores, escuta, afeto, cuidado. O professor virou o último adulto disponível numa engrenagem cansada demais para educar coletivamente.
E não me entenda mal, cuidar faz parte do ato de educar, ensinar sempre foi gesto humano antes de ser conteúdo. O problema começa quando o professor passa a ser apenas o cuidador, o remendo, o tapa-buraco social. Quando ensinar vira detalhe, planejar uma aula vira luxo e estudar para ensinar vira um ato de resistência quase clandestino.
Enquanto isso, lá fora, ou melhor, dentro do bolso, mora um concorrente imbatível, o universo das redes sociais.
Um professor com giz compete com vídeos de quinze segundos, filtros, dancinhas, influencers que explicam o mundo em frases prontas e receitas instantâneas, uma disputa desigual e, nesse cenário, o professor passa a ser tudo, menos professor.
Precisa entreter, motivar, viralizar, emocionar, precisa ser palco, plateia e bastidor. Se não “engaja”, parece que falhou.
A pergunta que ecoa na sala dos professores, um lugar meio confessionário, meio trincheira, é sempre a mesma, quem nos preparou para isso? As políticas públicas falham justamente onde mais deveriam agir, falta formação continuada que dialogue com a realidade, apoio institucional temos muito pouco. o tempo e escasso, falta escuta, reconhecer que a voz do professor impacta a sociedade tanto quanto qualquer discurso bonito de palanque.
O professor, então, vai buscando soluções sozinho. Pesquisa à noite, planeja no fim de semana, reinventa-se entre uma correção e outra, vive numa sociedade da superficialidade tentando formar profundidade.
Luta para manter sua essência enquanto o empurram para papéis que não são seus. Nenhum professor quer ser babá, nem psicólogo, nem herói, mas acaba sendo tratado como tudo isso, até acreditar que é natural. Não é!
Ainda assim, existem pequenas vitórias, e são nesses instantes que os limites invisíveis da função docente se revelam, o professor não resolve tudo, mas transforma muito. Especialmente nos anos iniciais, onde se planta o que ninguém vê, mas tudo sustenta.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas “por que ninguém quer ser professor?”, mas, o que fizemos com aqueles que ainda querem? Valorizar o professor é devolver-lhe tempo, voz, prestígio. É entender que formar seres humanos para a vida exige condições reais, não heroísmo permanente.
A escola ainda é lugar de resistência e poesia e o professor, mesmo cansado, ainda escreve futuros no quadro-negro do presente. Mas até quando faremos isso sozinhos?
Como diz o Eclesiastes, “há tempo para todas as coisas”. Talvez seja tempo de devolver ao professor o direito de ser, simplesmente, professor. E você, leitor, está disposto a lutar por esse tempo conosco?




