Pílula experimental abre nova perspectiva para tratamento do câncer de pâncreas

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Os dados da pesquisa com daraxonrasib foram apresentados na American Society of Clinical Oncology (ASCO), em Chicago, nos Estados Unidos, onde os pesquisadores foram ovacionados após a divulgação dos resultados – Foto: Scott Morgan, ASCO

Resultados divulgados em abril e apresentados no início de junho no maior congresso de oncologia do mundo, em Chicago, indicam que o daraxonrasib quase dobrou a sobrevida em comparação à quimioterapia convencional.


@caroline_leidiane

Em 13 de abril de 2026, a farmacêutica norte-americana Revolution Medicines anunciou os resultados de um estudo que marcou um avanço histórico na oncologia. Um comprimido de uso diário havia conseguido quase dobrar a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas metastático que não respondiam mais à quimioterapia. Este feito alcançou resultado inédito diante de um dos maiores desafios da medicina moderna.

O diferencial do medicamento experimental está em seu alvo. Chamado daraxonrasib, a droga atua sobre mutações da proteína RAS, que funciona como um regulador do crescimento celular. Quando alterada, ela permanece permanentemente ativada, enviando sinais contínuos para que as células cresçam e se multipliquem sem controle.

O daraxonrasib é uma terapia experimental desenvolvida para agir sobre alterações genéticas presentes na maioria dos casos de câncer de pâncreas – Foto: Reprodução

Por décadas, pesquisadores tentaram desenvolver terapias capazes de interromper esse processo, mas as características da proteína fizeram dela uma das principais barreiras da pesquisa oncológica, frequentemente descrita como um alvo praticamente inalcançável. Foi justamente por conseguir avançar sobre esse mecanismo que o estudo despertou grande interesse da comunidade científica internacional.

Poucas semanas depois, os dados ganharam destaque ao serem apresentados na sessão plenária da reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), realizada entre 29 de maio e 2 de junho, em Chicago, nos Estados Unidos. Considerado o principal congresso de oncologia do mundo, o evento reuniu milhares de especialistas e foi palco de uma reação incomum. Após a divulgação dos resultados, o público presente se levantou e preencheu o som do auditório com uma longa salva de aplausos.

Avanço em um dos tumores mais letais

Os resultados foram obtidos no estudo RASolute 302, um ensaio clínico randomizado de fase 3 considerado o padrão mais rigoroso para avaliação de novos tratamentos.

Cerca de 500 pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático, que já haviam recebido terapias anteriores, foram divididos aleatoriamente entre dois grupos: um recebeu o daraxonrasib e o outro seguiu com a quimioterapia convencional.

Entre os pacientes com mutação RAS G12, a alteração genética mais frequente no câncer de pâncreas, o daraxonrasib elevou a sobrevida mediana para 13,2 meses, ante 6,6 meses observados no grupo tratado com quimioterapia.

O medicamento também reduziu em cerca de 60% o risco de morte e prolongou o período de controle da doença, que demorou 7,3 meses para voltar a progredir, em comparação com 3,5 meses entre os pacientes que receberam o tratamento convencional.

Os benefícios foram semelhantes quando considerados todos os participantes do estudo, independentemente da presença da mutação. Além disso, cerca de um terço dos pacientes tratados com a nova terapia apresentou redução mensurável dos tumores, percentual quase três vezes superior ao registrado no grupo em procedimento quimioterápico.

Outro resultado considerado relevante foi o perfil de tolerabilidade do medicamento. Apenas 1,2% dos pacientes tratados com daraxonrasib precisaram interromper a terapia em razão de efeitos adversos, índice significativamente inferior aos 11,2% registrados entre aqueles que receberam quimioterapia.

Para os pesquisadores, o dado sugere que, além de ampliar a sobrevida, o tratamento pode oferecer uma alternativa menos desgastante para pacientes com doença avançada.

Diante dos números, os autores do estudo defenderam uma mudança nos protocolos de tratamento da doença. Em artigo publicado no Journal of Clinical Oncology, os pesquisadores concluíram que o daraxonrasib reúne evidências suficientes para ser considerado o novo padrão terapêutico para pacientes com câncer de pâncreas metastático que já passaram pela primeira linha de tratamento.

A estatística do desafio

Antes de analisar os dados, é preciso compreender o tamanho do desafio imposto pelo câncer de pâncreas. Considerado um dos tumores mais agressivos da medicina, ele costuma evoluir de forma silenciosa, sem sintomas específicos nas fases iniciais. Por isso, cerca de 80% dos pacientes recebem o diagnóstico apenas quando a doença já está avançada ou se espalhou para outros órgãos, reduzindo significativamente as possibilidades de tratamento curativo.

O impacto dessa realidade aparece nas estatísticas. Nos Estados Unidos, aproximadamente 60 mil pessoas são diagnosticadas com câncer de pâncreas todos os anos e cerca de 50 mil morrem em decorrência da doença. No Brasil, são registrados em média 13 mil novos casos anuais e aproximadamente 12 mil óbitos. Entre os pacientes com doença metastática, a sobrevida em cinco anos é de apenas 3%, uma das menores entre todos os tipos de câncer.

Próximos passos

Apesar dos resultados promissores, o daraxonrasib ainda precisa passar pelas etapas regulatórias antes de chegar aos pacientes. A Revolution Medicines informou que pretende submeter os dados do estudo à Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, como parte do pedido formal de aprovação do medicamento.

A terapia já recebeu do FDA a classificação de Breakthrough Therapy, concedida a tratamentos que demonstram vantagens significativas em relação às opções disponíveis e que, por isso, têm prioridade na análise. A droga também obteve a designação de medicamento órfão e foi incluído no programa National Priority Voucher, iniciativas destinadas a acelerar o processo de avaliação regulatória.

Nos Estados Unidos, o acesso compassional já está autorizado para pacientes selecionados que não dispõem de alternativas terapêuticas.

O caminho até a disponibilidade do medicamento no Brasil ainda envolve uma série de etapas regulatórias. Além da aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a cobertura pelos planos de saúde exigiria a análise da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e a eventual publicação de uma diretriz técnica que torne obrigatória a oferta do tratamento pela saúde suplementar.

A eventual chegada da daraxonrasib à rede pública brasileira também esbarra em questões econômicas. Enquanto os tratamentos atualmente disponibilizados para câncer de pâncreas operam dentro de parâmetros de financiamento bastante restritos, terapias oncológicas inovadoras costumam envolver custos elevados. Isso torna necessária uma análise criteriosa por parte das autoridades de saúde para determinar se o benefício clínico justifica o investimento exigido para sua incorporação ao sistema.